Lima Berret o - Livros completos
"Histórias e sonhos"
HISTÓRIAS E SONHOS Quando a impressão deste livro ia já pela
metade, ocorreu o falecimento de Prudêncio Cotejipe Milanês, a quem é elededicado.
Milanês foi meu chefe de seção na Secretaria daGuerra; mais do que isso, porém,
foi um meu amigo bondosoe paternal.
Não fora ele e alguns outros companheiros, não me lembraria mais de que havia
passado pelas catacumbas do QuartelGeneral, onde se guardam, com o máximo
cuidado, nos seusataúdes, adornados de belos dourados e pinturas, tantasmúmias
que nem hieróglifos enigmáticos possuem nos seuscaixões mortuários, a fim de
permitir ao curioso, com esforço esagacidade, decifrar-lhes os nomes, o que
foram e o que fizeramde útil e grande na vida.
Milanês morreu, como já foi dito; e a dedicatória devia serem outros termos: à
memória, etc., etc., etc. Tem de ficar comoestá, fazendo crer ao desprevenido
que ele ainda é destemundo. Não havia inconveniente algum nisso, pois, para
mim,talvez seja essa a forma exata e justa de homenagear o meugeneroso amigo,
tanto ele é vivo na minha saudade e na minhagratidão. Era preciso, entretanto,
explicar isto ao leitor; e é O que estas breves linhas pretendem.Rio, 8 de
dezembro de 1920L.B.AMPLIUS!
Corno me parecesse necessário um prefácio para essa coletâneade contos e
fantasias de várias épocas e cousas de minha vida,julguei-me no direito de
republicar, à testa dela, as linhas que se seguem, com o título acima, editadas
poucos meses depois doaparecimento do meu livro Triste fim de Policarpo
Quaresma.
Apareceram em um jornal de grande circulação da cidade do Riode Janeiro, A
Época, e eu tive com elas o intuito de esclarecer o que poderia haver de
obscuro em certas passagens dos meus humildestrabalhos. Trata-se agora de
contos e cousas parecidas, mais do que nunca elas me parecem necessárias á boa
inteligência do que a minha mão inábil quis dizer e não soube; e eu as
transcrevo aqui, nasuposição de que não são demais.
Ei-las como saíram em setembro de 1916:
Tendo publicado, há poucos meses um livro, poderá parecer aalguns leitores que
estas linhas se destinam a responder críticas feitasà minha humilde obra. Não
há tal. Já não sou mais menino e, desde que me meti nessas coisas de letras,
foi com toda a decisão, sinceridade e firme desejo de ir até ao fim.
Quem, como eu, logo ao nascer está exposto á crítica fácil detoda gente, entra
logo na vida, se quer viver, disposto a não se incomodar com ela.
A única crítica que me aborrece é a do silêncio, mas esta é determinada pelos
invejosos impotentes que foram chamados a coisas deletras, para enriquecerem e
imperarem. Deus os perdoe, pois afirma Carlyle que men of letters are a
perpetual priesthood.
De resto, todos os críticos só tiveram gabos para a minha modesta novela; e, se
não foram alguns me serem quase desconhecidos, temeria que fossem inimigos
disfarçados que conspirassem para me matar de vaidade.
A razão destas linhas é outra, muito outra, e eu explico já.
A emoção do recebimento de uma carta anônima só me foi dadoexperimentar
ultimamente. Muitas dessas coisas banais da vida têm-me chegado assim
tardiamente e algumas, pouco corriqueiras, antes do tempo normal aos outros.
A carta era anônima, mas absolutamente não era injuriosa. Vinhaescrita em linda
letra e eu tenho pena em não acreditá-la feminina, pois se fosse meteria uma
inveja doida aos galantes dos cinemas e maxixes da moda, linda gente feita de
pedacinhos de mulheres feias.
Não tive portanto a emoção da carta anônima, pois a missiva eracortês, fazendo
sobre o meu Policarpo reparos sagazes e originais.
Simpatizei tanto com o escrito que não pude furtar-me ao desejode responder, de
qualquer forma que pudesse, ao desconhecido autor.
E o que pretendo fazer aqui.
Apesar de toda a inteligência que ressuma nas palavras que aepístola contém,
não me parece que o autor estivesse, em certos quarteirões, muito fora dos
modos de ver da nossa retórica usual.
Percebi que tem de estilo a noção corrente entre Leigos e... Literatos, isto é,
uma forma excepcional de escrever, rica de vocábulos, cheia de ênfase e
arrebiques, e não como se o deve entender com o único critério justo e seguro:
uma maneira permanente de dizer, de se exprimir o escritor, de acordo com o que
quer comunicar e transmitir.
Como não tocasse de frente em tal questão, deixo de partesemelhante ponto e
reservo uma resposta mais ampla, detalhada para qualquer crítico ulterior.
Veremos, então, se Descartes tem ou não estilo; e se Bossuet é ou não um
estilo.
O que, porém, me faz contestar o meu amável correspondenteanônimo, é a sua
insistência em me falar na Grécia, na Hélade sagrada, etc., etc.
Implico solenemente com a Grécia, ou melhor: implico solenemente com os nossos
cloróticos gregos da Barra da Corda e pançudos helenos da praia do Flamengo
(vide banhos e mar).
Sainte-Beuve disse algures que, de cinqüenta em cinqüentaanos, fazíamos da
Grécia uma idéia nova. Tinha razão.
Ainda há bem pouco o senhor Teodoro Reinach, que deveentender bem dessas coisas
de Grécia, vinha dizer que Safo não era nada disso que nós dela pensamos; que
era assim como Mme.Sévigné. Devia-se interpretar a sua linguagem misturada de
fogo, no dizer de Plutarco, como uma pura exaltação da mulher. A poesia sáfica
seria, em relação à mulher, o que o diálogo de Platão é em relaçãoao homem.
Houve escândalo.
Não é este o único detalhe, entre muitos, para mostrar de quemaneira podem
variar as nossas idéias sobre a velha Grécia.
Creio que, pela mesma época em que o senhor T. Reinach lia,na sessão das cinco
academias reunidas, os resultados das suas investigações sobre Safo, se
representou na Opera, de Paris, um drama lírico de Saint-Saëns - Dejanira.
Sabem os leitores como vinham vestidos os personagens? Sabem? Com o que nós
chamamos nas casas das nossas famílias pobres - colchas de retalhos. Li isto em
um folhetim dosenhor P. Lalo, no Temps.
Esta modificação no trajar tradicional dos heróis gregos, pois se tratava deles
no drama, obedecia a injunções das últimas descobertas arqueológicas. O meu
simpático missivista pode ver aí como a suaGrécia é, para nós, instável.
Em matéria de escultura grega, podia eu, com o muito poucoque sei sobre ela,
epilogar bastamente. E suficiente lembrar que, de acordo com os preceitos
gregos, as obras esculturais não podiam ser pintadas.
É que eles tinham visto os mármores gregos lavados pelas chuvas;entretanto,
hoje, segundo Max Collignon, está admitido que as frisas do Partenon eram
coloridas.
A nossa Grécia varia muito e o que nos resta dela são ossosdescamados,
insuficientes talvez para recompô-la como foi em vida, e totalmente incapazes
para nos mostrar ela viva, a sua alma, as idéias que a animavam, os sonhos que
queria ver realizados na terra, segundo os seus pensamentos religiosos.
Atermo-nos a eles, assim variável e fugidia, é impedir que realizemos o nosso
ideal, aquele que está na nossa consciência, vivo nofundo de nós mesmos, para
procurar a beleza em uma carcaça cujosossos já se fazem pó.
Ela não nos pode mais falar, talvez nem mesmo balbuciar, e oque nos tinha a dar
já nos deu e vive em nós inconscientemente.
Como se vê, o meu correspondente está preso a idéias mortas;e, em matéria de
novela, por certas notações que faz, à minha, se não está jungida a um
pensamento morto, deixou-se prender por umageneralização que a experiência do
gênero não legitima.
Estranha o meu inesperado correspondente que o meu modestolivro fuja à questão
de amor; não seja ela o eixo do livro. Mas, caro senhor, essa questão nunca foi
primordial no romance.
Nem os antigos, nem os modemos. Nem nos franceses, nem nosespanhóis. Se o
senhor me cita Dáfnis e Cloé, eu cito o Satyricon; se o senhor me cita a
Princesse de Clèves, eu lhe apresento Lazarlio de Tormes.
Nos grandes mestres modernos, Balzac, Tolstói, Turguêniev,Dostoievski, quase
sempre o amor é levado para o segundo plano; e essa sua generalização de que o
primordial do romance, e seu característico, por assim dizer, é tratar de uma
aventura de amor, é tão verdadeira e necessária como aquela regra das três
unidades, em matéria de drama e tragédia, de que os críticos antigos faziam
tanta questão, citando Aristóteles, que nunca a tinha estabelecido.
Parece-me que o nosso dever de escritores sinceros e honestosé deixar de lado
todas as velhas regras, toda a disciplina exterior dos gêneros, e aproveitar de
cada um deles o que puder e procurar, conforme a inspiração própria, para
tentar reformar certas usanças, sugerir dúvidas, levantar julgamentos
adormecidos, difundir as nossas grandes e altas emoções em face do mundo e do
sofrimento dos homens, para soldar, ligar a humanidade em uma maior, em que
caibam todas, pela revelação das almas individuais e do que elas têm em comum
edependente entre si.
A literatura do nosso tempo vem sendo isso nas suas maioresmanifestações, e possa
ela realizar, pela virtude da forma, não mais a tal beleza perfeita da falecida
Grécia, não mais a exaltação do amor que nunca esteve a perecer; mas a comunhão
dos homens de todasas raças e classes, fazendo que todos se compreendam, na
infinita dor de serem homens, e se entendam sob o açoite da vida, para
maiorglória e perfeição da humanidade.
É ideal dos nossos dias que é ainda beleza a palpitar nassuas mais altas
manifestações espirituais; e não, como o meu correspondente pensa, o
ressurgimento de concepções desaparecidas, deque só conhecemos poucas e raras
manifestações exteriores, que só podem entorpecer a marcha da nossa triste
humanidade para umaexata e mais perfeita compreensão dela mesma.
Não desejamos mais uma literatura contemplativa, o que raramente ela foi; não é
mais uma literatura plástica que queremos, a encontrar beleza em deuses para
sempre mortos, manequins atualmente, pois a alma que os animava já se evolou
com a morte dos que os adoravam.
Não é isso que os nossos dias pedem; mas uma literatura militante para maior
glória da nossa espécie na terra e mesmo no Céu.
O meu correspondente acusa-me também de empregar processos de jornalismo nos
meus romances, principalmente no primeiro.
Poderia responder-lhe que, em geral, os chamados processos dojornalismo vieram
do romance; mas mesmo que, nos meus, se dê ocontrário, não lhes vejo mal algum,
desde que eles contribuam por menos que seja para comunicar o que observo;
desde que possamconcorrer para diminuir os motivos de desinteligência entre os
homens que me cercam.
Se conseguirem isso, por pouco que seja, dou-me por satisfeito,pois todos os
meios são bons quando o fim é alto; e já Brunetiére me disseque o era, ao
sonhar em esforçar-me, na medida das minhas forças, para fazer entrar no patrimônio
comum do espírito dos meus contemporâneos, consolidando pela virtude da forma
tudo o que interessa o uso da vida, a direção da conduta e o problema do nosso
destino.
E, como ele queria, assim como querem todos os mestres, eutento também executar
esse ideal em uma língua inteligível a todos, para que todos possam chegar
facilmente à compreensão daquilo aque cheguei através de tantas angústias. No
mundo, não há certezas, nem mesmo em geometria; e, se alguma há, é aquela que
está nosEvangelhos: amai-vos uns aos outros.
Para atingir tão alto escopo, tudo serve; e, como são FranciscoXavier, todos
nós, que andamos em missão entre hindus, separadosem castas hostis, entre
malaios ferozes e pérfidos, entre japoneses que se guerreiam feudalmente; todos
nós, dizia eu, só devemos ter a divisa do santo: "Amplius! Amplius!"
Sim; sempre mais longe!Rio, 31-8-16O MOLEQUEA Arnaldo Damasceno Vieira
Reclus, na sua Geografia universal tratando do Brasil, notavaa necessidade de
conservarmos os nomes tupis dos lugares de umaterra. Têm eles, diz o grande
geógrafo, a vantagem de possuir quase todos um sentido claro, muito claro, nas
suas palavras, exprimindo algum fato da natureza, a cor das águas correntes, a
altura, a forma ou o aspecto dos rochedos, a vegetação ou a aridez da região.
No Rio de janeiro, há de fato nomes tupis tão eloqüentes, para traduzir a forma
ou o encanto dos lugares, que ficamos pasmos, quando lhes sabemos a
significação, com o poder poético, com a força de emoção superior de que eram
capazes os primitivos canibais habitantes desta região, diante dos aspectos da
natureza tão bela e singular que é a que cerca e limita nossa cidade. Bastam os
nomes da baía. Como não traduz bem a sua sedução, o seu recato, a sua
fascinação, o nome: Guanabara - seio do mar? E se o mar abriu aqui um seio foi
para nele esconder as suas águas - Niterói - água escondida.
Esses nomes tupis, nos acidentes naturais das cercanias dacidade, são os
documentos mais antigos que ela possui das vidas que aqui floresceram e
morreram. Edificada em um terreno que é o mais antigo do globo, nos depósitos
sedimentares das velhas regiões, até hoje não se encontram vestígios quaisquer
da vida pré-histórica. A terra é velha, mas as vidas que viveram nela não
deixaram, ao que parece, nenhum traço direto ou indireto de sua passagem. Os
maisantigos testemunhos das existências anteriores às nossas, que por aqui
passaram, são esses nomes em linguagem dos índios que habitavamestes lugares; e
são assim bem recentes, relativamente.
Há, parece, na fatalidade destas terras, uma necessidade de nãoconservar
impressões das sucessivas camadas de vida que elas deviam ter presenciado o
desenvolvimento e o desaparecimento. Estes nomes tupaicos mesmo tendem a
desaparecer, e todos sabem que, quandouma turma de trabalhadores, em escavações
de qualquer natureza,encontra uma igaçaba, logo se apressam em parti-la, em
destruí-la como cousa demoníaca ou indigna de ficar entre os de hoje. A pobre
talha mortuária dos tamoios é sacrificada impiedosamente.
Frágeis eram os artefatos dos índios e todas as suas outras obras; frágeis são
também as nossas de hoje, tanto assim que os mais antigos monumentos do Rio são
de século e meio; e a cidade vai já para ocaminho dos quatrocentos anos.
O nosso granito vetusto, tão velho quanto a terra, sobre o qualrepousa a
cidade, capricha em querer o frágil, o pouco duradouro. A sua grandeza e a sua
antiguidade não admitem rivais.
Ainda hoje esse espírito do lugar domina a construção dos nossosedifícios
públicos e particulares, que estão a rachar e a desabar, a todo instante. E
como se a terra não deseje que fiquem nela outras criações, outras vidas, senão
as florestas que ela gera, e os animais que nestas vivem.
Ela as faz brotar, apesar de tudo, para sustentar e ostentar uminstante, vidas
que devem desaparecer sem deixar vestígios. Estranho capricho...
Quer ser um recolhimento, um lugar de repouso, de parada,para o turbilhão que
arrasta a criação a constantes mudanças nosseres vivos; mas só isto,
continuando ela firme, inabalável, gerando e recebendo vidas, mas de tal modo
que as novas que vierem nãopossam saber quais foram as que lhes antecederam.
Desde que as suas rochas surgiram, quantas formas de vida elajá viu? Inúmeras,
milhares; mas de nenhuma quis guardar uma lembrança, uma relíquia, para que a
Vida não acreditasse que podia rivalizar com a sua eternidade.
Mesmo os nomes índios, como já foi observado, se apagam, vãose apagando, para
dar lugar a nomes banais de figurões ainda mais banais, de forma que essa
pequena antiguidade de quatro séculos desaparecerá em breve, as novas
denominações talvez não durem tanto.
Nenhum testemunho, dentro em pouco, haverá das almas queeles representam,
dessas consciências tamoias que tentaram, com tais apelidos, macular a
virgindade da incalculável duração da terra.Sapopemba é já um general qualquer,
e tantos outros lugares do Rio de Janeiro vão perdendo insensivelmente os seus
nomes tupis.
Inhaúma é ainda dos poucos lugares da cidade que conserva oseu primitivo nome
caboclo, zombando dos esforços dos nossos edis para apagá-lo.
E um subúrbio de gente pobre, e o bonde que lá leva atravessaumas ruas de
largura desigual, que, não se sabe por que, ora são muito estreitas, ora muito
largas, bordadas de casas e casitas sem que nelas se depare um jardinzinho mais
tratado ou se lobrigue, aos fundos, uma horta mais viçosa. Há, porém, robustas
e velhas mangueiras que protestam contra aquele abandono da terra. Fogem para
lá, sobretudo para seus morros e escuros arredores, aqueles que ainda querem
cultivar a Divindade como seus avós. Nas suas redondezas, é o lugar das
macumbas, das práticas de feitiçaria com que a teologia da polícia implica,
pois não pode admitir nas nossas almas depósitos de crenças ancestrais. O
espiritismo se mistura a eles e a sua difusão é pasmosa. A Igreja católica
unicamente não satisfaz o nosso povo humilde. É quase abstrata para ele,
teórica. Da divindade, não dá, apesar das imagens, de água benta e outros
objetos do seu culto, nenhum sinal palpável,tangível de que ela está presente.
O padre, para o grosso do povo, não se comunica no mal com ela; mas o médium, o
feiticeiro, omacumbeiro, se não a recebem nos seus transes, recebem,
entretanto, almas e espíritos que, por já não serem mais da terra, estão mais
perto de Deus e participam um pouco da sua eterna e imensa sabedoria.
Os médiuns que curam merecem mais respeito e veneração queos mais famosos
médicos da moda. Os seus milagres são contados de boca em boca, e a gente de
todas as condições e matizes de raça a eles recorre nos seus desesperos de
perder a saúde e ir aoencontro da Morte. O curioso - o que era preciso estudar
mais devagar - é o amálgama de tantas crenças desencontradas a que preside a
Igrejacatólica com os seus santos e beatos. A feitiçaria, o espiritismo, a
cartomancia e a hagiologia católica se baralham naquelas práticas, de modo que
faz parecer que de tal baralhamento de sentimentos religiosos possa vir nascer
uma grande religião, como nasceram desemelhantes misturas as maiores religiões
históricas.
Na confusão do seu pensamento religioso, nas necessidadespresentes de sua
pobreza, nos seus embates morais e dos familiares, cada uma dessas crenças
atende a uma solicitação de cada umadaquelas almas, e a cada instante de suas
necessidades.
A gravidade de pensamento que todo esse espetáculo provocae as lembranças
históricas que acodem fazem perguntar se a terra que não tem querido guardar na
sua grandeza traços das vidas e das almas que por elas têm passado, ainda desta
vez, não consentirá que fiquem vestígios, pegadas, impressões das atuais que,
nela, hoje sofrem e mergulham, a seu modo, no Mistério que nos cerca, para
esquecê-las soturnamente; e pensa-se isto sob a luz do sol, alegre, clara,
forte e alta, que recorta no céu azul as montanhas que se alongam paratocá-lo,
tal como se vê nesse lugar de Inhaúma, antiga aldeia deíndios, a serra dos
Órgãos, solene, soberba...
Numa das ruas desse humilde arrebalde, antes trilho que mesmorua, em que as
águas cavaram sulcos caprichosos, todo ele bordado de maricás que, quando
floriam, tocavam-se de flocos brancos, morava em um barracão dona Felismina.
O "barracão" é uma espécie arquitetônica muito curiosa e
muitoespecial àquelas paragens da cidade. Não é a nossa conhecidachoupana de
sapê e de paredes "a sopapos". É menos e é mais. Émenos, porque em
geral é menor, com muito menos acomodações; emais, porque a cobertura é mais
civilizada; é de zinco ou de telhas. Há duas espécies. Em uma, as paredes são
feitas de tábuas; às vezes, verdadeiramente tábuas; em outras, de pedaços de
caixões. A espécie, mais aparentada com o nosso "rancho" roceiro,
possui as paredescomo este: são de taipa. Estes últimos são mais baixos e a
vegetação das bordas das ruas e caminhos os dissimula, aos olhos dos
transeuntes; mas aqueles têm mais porte e não se envergonham de ser vistos.
Háalguns com dous aposentos; mas quase sempre, tanto os de umacomo de outra
espécie, só possuem um. A cozinha é feita fora, sob um telheiro tosco, um
puxado no telhado da edificação, paraaproveitar o abrigo de uma das paredes da
barraca; e tudo cercado do mais desolador abandono. Se o morador cria galinhas,
elas vivemsoltas, dormem nas árvores, misturam-se com as dos vizinhos e, por
isso, provocam rixas violentas entre as mulheres e maridos, quando disputam a
posse dos ovos.
Por vezes, no fundo, na frente ou aos lados deles, há uma árvorede mais vulto:
um cajueiro, um mamoeiro, uma pitangueira, umajaqueira, uma laranjeira; mas
nenhum sinal de amanho do terreno, de tentativa de cultura, a não ser um
canteirozinho com uns pés de manjericão ou alecrim. Isto às vezes; e, às vezes
também, uma touceira de bananeira.
A guaxima cresce, e o capim, e a vassourinha, e o carrapicho eoutros arbustos
silvestres e tenazes.
O barracão de dona Felismina era de um só aposento, mas o davizinha, dona
Emerenciana, tinha dous. Eram ambos da primeiraespécie. Dona Emerenciana era
casada com o senhor Romualdo, servente ou cousa que o valha em uma dependência
da grande oficinado Trajano. Era preta como dona Felismina e honesta como
ela.Defronte ficava a residência da Antônia, uma rapariga branca, com dous
filhos pequenos, sempre sujos e rotos. A sua residência era mais modesta: as
paredes do seu barraco eram de taipa.
A vizinhança, ao mesmo tempo que falava dela, tinha-lhepiedade:
- Coitada! Uma desgraçada! Uma perdida!
Era bem nova ela, mas fanada pelo sofrimento e pela miséria.Com os seus vinte e
poucos anos de idade, de boas feições, mesmodelicadas, a sua história devia ser
a triste história de todas essas raparigas por ai...
Mal comendo, ela e os filhos; mal tendo com que se cobrir,todas as manhãs,
quando saía a comprar um pouco de café e açúcar, na venda do Antunes, e, na
padaria do Camargo, um pão - que lhe teria custado, quem sabe! que profunda
provação no seu pudor de mulher, para ganhá-lo - não se esquecia nunca de
colher pelo caminho uns"boas-noites", umas flores de
melão-de-são-caetano, de pinhão, de quaresma, de manacás, de maricás - o que
encontrasse - paraenfeitar-se ou trazê-las nas mãos, em ramilhete.
Todos da rua dos Maricás - era este o nome daquele trilho deInhaúma -
conheciam-lhe a vida, mas com a piedade e compaixãopróprias á ternura do
coração do povo humilde pela desgraça,tratavam-na como outra fosse ela e a
socorriam nas suas horas demaiores aflições. Só o Antunes, o da venda, com o
seu empedernido coração de futuro grande burguês, é que dizia, se lhe
perguntavam quem era:
- Uma vagabunda.
Dona Felismina gozava de toda a consideração nas cercanias eaté de crédito,
tanto no Antunes, como no Camargo da padaria. Além de lavar para fora, tinha uma
pequena pensão que lhe deixara omarido, guarda-freios da Central, morto em um
desastre. Era umapreta de meia-idade, mas já sem atrativo algum. Tudo nela era
dependurado e todas as suas carnes, flácidas. Lavava todo o dia e todo o dia
vivia preocupada com o seu humilde mister. Ninguém lhe sabia umafalta, um
desgarro qualquer, e todos a respeitavam pela sua honra e virtude. Era das
pessoas mais estimadas da ruela e todos depositavam na humilde crioula a maior
confiança. Só a Baiana tinha-a mais. Esta, porém, era "rica". Morava
em uma das poucas casas de tijolo da rua dos Espinhos, casa que era dela.
Vendedora de angu, em outros tempos, conseguira juntar alguma cousa e adquirira
aquela casita, a mais bem tratada da rua. Tinha "homem" em quanto lhe
servia; e, quando ele vinha aborrecê-la mandava-o embora, mesmo a cabo de
vassoura. Muito enérgica e animosa, possuía uma piedade contida que se revelou
perfeitamente numa aventura curiosa de sua vida. Uma manhã, havia cinco ou seis
anos, saindo com o seu tabuleiro de angu, encontrou em uma calçada um embrulho
um tanto grande. Arriou o tabuleiro e foi ver o que era. Era uma criança,
branca - uma menina. Deu ospassos necessários e criava a criança, que, nas
imediações, era conhecida por "Baianinha". E, ao ir ás compras na
venda, o caixeiro lhe dizia por brincadeira:
- "Baianinha", tua mãe é negra.
A pequena arrufava-se e respondia com indignação:
- Negra é tu, "seu" burro!
A Baiana, porém, era "rica", estava mais distante. DonaFelismina,
porém, ficava mais próximo da vida de toda aquela gente da rua. Os seus
conselhos eram ouvidos e procurados, e os seusremédios eram aceitos como se
partissem da prescrição de umdoutor. Ninguém como ela sabia dar um chá
conveniente, nem aconselhar em casos de dissídias domésticas. Detestava a
feitiçaria, os bruxedos, os macumbeiros, com as suas orgias e barulhadas; mas,
inclinava-se para o espiritismo, freqüentando as sessões do "seu"
Frederico, um antigo colega do seu marido, mas branco, que morava adiante, um
pouco acima. Além da medicina de chás e tisanas, elaaconselhava àquela gente os
medicamentos homeopáticos. A beladona, o acônito, a briônia, o súlfur, eram os
seus remédios preferidos e quase sempre os tinha em casa, para o seu uso e dos
outros.
Certa vez salvou um dos filhos da Antônia de uma convulsão eesta lhe ficou tão
grata que chegou a prometer que se emendaria.
Dona Felismina morava com o seu filho José, o Zeca, um pretinhode pele de
veludo, macia de acariciar o olhar, com a carapinha sempre aparada pelos
cuidados da mão de sua mãe, e também com asroupas sempre limpas, graças também
aos cuidados dela.
Tinha todos os traços de sua raça, os bons e os maus; e muitadoçura e tristeza
vaga nos pequenos olhos que quase ficavam nomesmo plano da testa estreita.
Era-lhe este seu filho o seu braço direito, o seu único esteio, o arrimo de sua
vida com os seus nove ou dez anos de idade. Doce, resignado, e obediente, não
havia ordem de sua mãe que ele nãocumprisse religiosamente. De manhã, o seu
encargo era levar e trazer a roupa dos fregueses; e ele carregava os tabuleiros
de roupa e trazia as trouxas; sem o mais pequeno desvio de caminho. Se ia á
casa do "seu" Carvalho, ia até lá, entregava ou recebia a roupa e
voltava sem fazer a menor traquinada, a menor escapada de criança por aquelas
ruas que são mais estradas que rua mesmo. Almoçava e a mãe quasesempre
precisava:
- Zeca, vai à venda e traz dous tostões de sabão "regador".
Na venda, entre todo aquele pessoal tão especial e curioso dasvendas
suburbanas: carroceiros, verdureiros, carvoeiros, de passagens; habitués do
parati, como os há na cidade de chope; conversadoresda vizinhança, gente sem
ter que fazer que não se sabe como vive, mas que vive honestamente; um ou outro
degradado da sua condiçãoanterior ou nascimento - entre toda essa gente, Zeca
era mais imperioso e gritava:
- Caixeiro, "mi" serve já. Dous tostões de sabão "regador"!
Se o caixeiro estava atendendo à dona Aninha, mulher do ser-vente dos
telégrafos, Fortes, e não vinha atendê-lo logo, Zeca insistia, fingindo-se irritado:
- "Mi despache", caixeiro! Dous tostões de sabão "regador".
"Seu" Eduardo, o caixeiro, que era bom e habituado a suportara
insolência dos pequenos que vão às compras, fazia docemente:
- Espere, menino. Você não vê que estou servindo, aqui, adona Aninha!
A mãe tinha vontade de pó-lo no colégio; ela sentia a necessidade disso todas
as vezes que era obrigada a somar os róis. Nãosabendo ler, escrever e contar,
tinha que pedir a "seu" Frederico, aquele "branco" que fora
colega de seu marido. Mas, pondo-o nocolégio, quem havia de levar-lhe e
trazer-lhe a roupa? Quem havia de fazer-lhe as compras?
À tarde, Zeca descansava, brincava com as crianças do lugar umpouco; mas, ao
anoitecer, já estava perto da mãe que remendava aroupa dos fregueses, à luz do
lampião de querosene, cuja fumaçaenegrecia o zinco do teto do barracão.
Se bem fosse com a mãe todos os meses receber a módica pensãoque o pai deixara,
na Caixa dos Guarda-Freios, o seu sonho não era viver no centro da cidade, nas
suas ruas brilhantes, cheias de bondes, automóveis, carroças e gente. Zeca
desprezava aquilo tudo. O seusonho era o Engenho de Dentro e o seu cinema. Ter
dinheiro, para ir sempre a ele, ver-lhe instantemente as "fitas" que
os grandes cartazes anunciavam e o tímpano a soar continuamente insistia no
convite de vê-las. Quando sua mãe permitia, aos domingos, com outra
criançaajuizada da vizinhança, ia até à estação, até lá, defronte do fascinante
cinema. Encostava-se, então, à grade da estrada de ferro e ficava a olhar, no
alto, minutos a fio, aqueles grandes painéis, cheios de grandes figuras,
deslumbrantes na sua cercadura de lâmpadas elétricas, como se tudo aquilo fosse
uma promessa de felicidade. Como atingiria aquilo? O céu talvez não fosse mais
belo... Em cima dos seus tamancos domingueiros, com o terno de casimira que a
caridade docoronel Castro lhe dera, e a tesoura de sua mãe adaptara a seu
corpo, ele, fascinado, não pensava senão naquele cinema brilhante de luzes e
apinhado de povo. Nem o apito dos trens o distraía e só a passagem dos bondes
elétricos aborrecia-o um pouco, por lhe tirar a vista do divertimento. Não
tinha inveja dos que entravam; o que ele queria era entrar também.
Como havia de ser uma "fita'? As moças se moviam sob luzes?Como faziam-nas
grandes, parecidas? Como apareciam os homens tale qual? As árvores e as ruas? E
sem falar, como é que tudo aquilo falava?
Podia ter dinheiro para ir, pois, em geral, sempre os freguesesde sua mãe lhe
davam um níquel ou outro; mas, mal os apanhava,levava-os à mãe que sempre andava
necessitada deles, para a compra do trincal, do polvilho, do sabão e mesmo para
a comida que comiam. Distraí-los com o cinema seria feio e ingratidão para com
a sua mãe. Um dia havia de ir ao cinema, sem sacrificá-la, sem enganá-la, como
mau filho. Ele não o era como o Carlos que furtava os do próprio pai...
Zeca, por seu procedimento, pela sua dedicação à mãe, eramuito estimado de
todos e todos lhe davam gratificações, gorjetas, balas, frutas, quando ia
entregar ou buscar a roupa.
Muitos se interessavam com a mãe, para pó-lo em um recolhi-mento, em um asilo;
ela, porém, embora quisesse vê-lo sabendo ler, sempre objetava, e com razão, a
necessidade que tinha dos seus serviços, pois era este seu único filho o braço
direito dela, seu único auxílio, o seu único "homem".
Uma vez quase cedeu. O seu" Castro, o coronel, empregadoaposentado da
alfândega, conhecido em Inhaúma pelo seu gêniobenfazejo e seu infortúnio com os
filhos e filhas, viera-lhe até à sua própria casa, até àquele barracão, naquela
modesta rua, bordada de um lado e outro de sebes de maricás e de
"pinhão", e expôs-lhe a que vinha. Dona Felismina respondeu-lhe com
lágrimas nos olhos:
- Não posso, "seu" coronel; não posso... Como hei de viversem ele? É
ele quem me ajuda... Sei bem que é preciso aprender,saber, mas...
- Você vai lá para casa, Felismina; e não precisa estar se matando.
Titubeou a rapariga e o velho funcionário compreendeu, poisdesde há muito já
tinha compreendido, na gente de cor, especialmente nas negras, esse amor, esse
apego à casa própria, à sua choupana, ao seu rancho, ao seu barracão - uma
espécie de protesto de possecontra a dependência da escravidão que sofreram
durante séculos.Apesar da recusa, o coronel Castro, em quem a idade e as
desgraças domésticas tinham mais enchido de bondade o seu coração natural-mente
bom, nunca deixou de interessar-se pela criança, que o penalizava
excessivamente. A sua meiguice, a sua resignação, aquele árduo trabalho diário
para a sua idade eram motivos para que o velho e tristonho aposentado sempre a
olhasse com a mais extremada simpatia.Quando o pretinho ia à sua casa levar-lhe
a sua ou a roupa das filhas, dava-lhe sempre qualquer cousa, puxava-lhe a
língua, perguntava-lhe pelas suas necessidades.
Certo dia, em começo do ano, o pequeno Zeca chegou-lhe emcasa com a fisionomia
um tanto transtornada. Parecia ter chorado e muito. O coronel, homem para quem,
como disse um sábio, nãohavia nada insignificante e desprezível que pudesse
causar dor ou prazer à mais humilde criatura, que não merecesse a atenção do
filósolo - o coronel interrogou-o sobre o motivo de sua mágoa.
- Foi tua mãe?
- Não, "seu" coronel.
- Que foi, então, Zeca?
O pequeno não quis dizer e não cessava de olhar o chão, deencará-lo, de
cravá-lo, de cavá-lo, de enterrar toda a sua vida nele. Zeca estava na varanda
de uma velha casa de fazenda, como aindaas há muito por lá, varanda em
parapeito e colunas, no clássicoestilo dessas velhas habitações; o coronel nela
também estavalendo os jornais, na cadeira de balanço, e só deixara a leitura
quando avistou o pequeno que subia a ladeira com o tabuleiro de roupa à cabeça.
A atitude do pequeno, a sua recusa em confessar o motivo doseu choro e o seu
todo de desalento fizeram que o velho funcionário, já por ternura natural, já
por bondosa curiosidade, procurasse a causa da dor que feria tão profundamente
aquela criança tão pobre, tãohumilde, tão desgraçada, quase miserável.
- Dize, Zeca. Dize que eu te darei uma vestimenta de "diabinho"no
Carnaval que está aí.
O pretinho levantou a cabeça e olhou com um grande e bruscoolhar de
agradecimento, de comovido agradecimento àquele velhode tão belos cabelos
brancos.
Confessou; e Castro nada disse a ninguém da humilde e ingênuaconfissão do
pretinho Zeca.
Aproximou-se o Carnaval; e, quando foi sábado, véspera dele,dona Felismina
retirou mais cedo dos arames a roupa branca queestivera a secar.
Atarefada com esse serviço, ela não viu que o seu filho entrara-lhe pelo
barracão adentro, sobraçando um embrulho guizalhante e umoutro, com rasgões no
papel, por onde saíam recurvados chifres euma formidável língua vermelha. Era
uma horrível máscara de "diabo".
Dona Felismina veio para o interior do barracão; e pós-se a arrumar a roupa
seca ou corada. Zeca, distraído, no outro extremo do aposento, não a viu entrar
e, julgando-a lá fora, desembrulhou os apetrechos carnavalescos. Sobre a
humilde e tosca mesa de pinho estendeu umarubra vestimenta de ganga rala e uma
máscara apavorante de olhosesbugalhados, língua retorcida e chifres agressivos,
apareceu tãoamedrontadora que se o próprio diabo a visse teria medo.
A mãe, ao barulho dos guizos, virou-se, e, vendo aquilo, ficousubitamente cheia
de más suspeitas:
- Zeca, que é isso?
Uma visão dolorosa lhe chegou aos olhos, da casa de detenção,das suas grades,
dos seus muros altos... Ah! meu Deus! Antes uma boa morte!... E repetiu ainda
mais severamente:
- Que é isso, Zeca? Onde você arranjou isso?
- Não... mamãe... não...
- Você roubou, meu filho?... Zeca, meu filho! Pobre, sim; masladrão, não! Ah!
meu Deus!... Onde você arranjou isso, Zeca?
A pobre mulher quase chorava e o pequeno, transido de medoe com a comoção
diante da dor da mãe, balbuciava, titubeava e aspalavras não lhe vinham.
Afinal, disse:
- Mas... mamãe... não foi assim...
- Como foi? Diz!
- Foi "seu" Castro quem me deu. Eu não pedi...
Dona Felismina sossegou e o pequeno também. Passadosinstantes, ela perguntou
com outra voz:
- Mas para que você quer isso? Antes tivesse dado a você umascamisas... Para
que essas bobagens? Isso é para gente rica, que pode. Enfim...
- Mas, mamãe, eu aceitei, porque precisava.
- Disto! Ninguém precisa disto! Precisa-se de roupa e comida...Isto são
tolices!
- Eu precisava, sim senhora.
- Como, você precisava?
- Não lhe contei que há meses, diversas vezes, quando passava,para ir à casa de
dona Ludovina, diante do portão do capitãoAlbuquerque, os meninos gritavam: ó
moleque! - ó moleque! - onegro! - ó gibi!? Não lhe contei?
- Contou-me; e daí?
- Por isso quando o coronel me prometeu a fantasia, eu aceitei.
- Que tem uma cousa com a outra?
- Queria amanhã passar por lã e meter medo aos meninos queme vaiaram.
HARAKASHY E AS ESCOLAS DE JAVA
Tudo o que este mundo encerra é propriedadedo brâmane, porque ele, por seu
nascimentoeminente, tem direito a tudo o que existe."Código de Manu
Na minha peregrinação sentimental por este mundo, fui ter,não sei como, à
cidade de Batávia, na ilha de Java.
É fama que os franceses ignoram sobremodo a geografia; masestou certo de que,
entre nós, pouca gente tem notícias seguras dessa ilha e da capital das Índias
Neerlandesas.
É pena, pois é da terra um dos recantos mais originais e cheiosde
surpreendentes mistérios que se vão aos poucos desvendando aos olhos atônitos
da nossa pobre humanidade.
Lá, Dubois achou partes do esqueleto do Pithecanthropuserectus; e o doido do
Nietzsche tinha admiração por certastrepadeiras dessa curiosa ilha, porque,
dizia ele, amorosas do sol, se enrodilhavam pelos carvalhos e, apoiadas neles,
elevavam-se acima dos mais altos galhos dessas árvores veneráveis, banhavam-se
na luz e davam a sua glória em espetáculo.
Os restos do afastado ancestral do homem que Dubois encontrou, não os vi quando
lá estive.
Trepadeiras e cipós vi muitos, mas carvalho não vi nenhum.Nietzsche, que lá não
esteve, certamente julgou que Java tinha alguma semelhança com Saxe ou com a
Suíça.
Não eram precisos os carvalhos nem as tais trepadeiras, muitovulgarmente, como
todas as plantas, amorosas da luz, para tornar java interessante, porque só o
aspecto mesclado de sua população, a confusão do seu pensamento religioso, as
suas antiguidades búdicas e os seus vulcões descomunais seduzem e prendem a
atenção do peregrinodesgostoso ou do sábio esquadrinhador.
Por meses e meses, o tédio mais principesco desfaz-se naquelasterras de sol
candente e orgia vegetal que, talvez, com a Índia e os grandes lagos da África,
sejam os únicos lugares da terra que nãoforam ainda banalizados inteiramente.
Creio que não será assim por muito tempo. Lá estão os holandeses; e edificaram
até, na cidade de Batávia, um bairro europeu. chamado, na língua deles,
Weltevreden (paz do mundo), cujas damas se vestem e têm todos os tiques
periódicos das moças de Hong-Kong ou de Petrópolis.
Nos olhos das mulheres do bairro europeu não há senão a muiterrena ânsia da
fortuna; mas nos olhares negros, luminosos, magnéticos das javanesas há coisas
do Além, o fundo do mar, o céu estrelado, o indecifrável mistério da sempre
misteriosa Ásia. Também há volúpia e há morte.
A massa de hindus, de chineses, de anamitas, de malaios ejavaneses, porém,
esmaga a banalidade pretensiosa daquelas holandesas rechonchudas que estão
pedindo a sua imediata volta ás monótonas campinas da pátria, com as suas vacas
nédias, os seus clássicos moinhos de vento e a ligeira névoa que parece sempre
cobri-las, para readquirirem o necessário relevo das suas pessoas.
Não falando no famoso jardim botânico dos arredores, Batávia,como São Paulo ou
Cuiabá, possui estabelecimentos e sociedades de ciência e de arte dignas de
atenção.
A sua academia de letras é muito conhecida na rua principal dacidade, e os
literatos da ilha brigam e guerreiam-se cruamente, para ocuparem um lugar nela.
A pensão que recebem é módica, cerca decinco patacas, por mês, na nossa moeda;
eles, porém, disputam ofauteuil acadêmico por todos os processos imagináveis.
Um destesé o empenho, o nosso 'pistolão', que procuram obter de quaisquermãos,
sejam estas de amigos, de parentes, das mulheres, dos credores ou, mesmo, das
amantes dos acadêmicos que devem escolher o novoconfrade.
Há de parecer que, por tão pouco, não valia a pena disputaracirradamente, como
fazem, tais posições. É um engano. O sujeito que é acadêmico tem facilidade em
arranjar bons empregos na diplomacia, na alta administração; e a grande
burguesia da terra, burguesia de acumuladores de empregos, de políticos de
honestidade suspeita, de leguleios afreguesados, de médicos milagrosos ou de
ricos desavergonhados, cujas riquezas foram feitas à sombra de iníquas e
aladroadas leis - essa burguesia, continuando, tem em grande conta o título de
membro da academia, como todo outro qualquer, e o acadêmicopode bem arranjar um
casamento rico ou cousa equivalente.
Lá, a literatura não é uma atividade intelectual imposta ao indivíduo,
determinada nele, por uma maneira muito sua e própria do seu feitio mental;
para os javaneses, é, nada mais, nada menos, que um jogo de prendas, uma sorte
de sala, podendo esta ser cara ou barata.
Os médicos, que, em Java, têm outra denominação, como vere-mos mais tarde, são
os mais constantes fregueses da academia. Estão sempre a bater-lhe na porta,
apesar de não ter a medicina nada que ver com a literatura.
Pertencendo à academia de letras - é o que imagino - comoque eles ganham maior
confiança dos clientes e mais segurança noemprego dos remédios. Assim, talvez,
pensem eles e também o povo, tanto que a clínica lhes aumenta logo que entram
para a ilustre companhia javanesa.
E bem possível que as suas letras e a sua fascinação pela academia visem
somente tal resultado, porquanto, entre eles, a rivalidade na clínica é
terrível e mais ainda quando se trata de competir com colegas estrangeiros.
Usam contra estes das mais desleais armas.
Um houve, natural de um pequeno país da Europa e de extraçãocampônia, que só as
pôde manter à distância, usando de armas e processos grosseiramente saloios.
Estava sempre de varapau em punho e foi o meio mais eficaz que encontrou, para
não lhe caluniarem e lhe prejudicarem a clínica.
A literatura desses doutores e cirurgiões é das mais estimadasnaquelas terras;
e isto, por dous motivos: porque é feita por doutores e porque ninguém a lê e
entende.
O critério literário e artístico dos médicos de Java não é o deHegel, de
Schopenhauer, de Taine, de Brunetière ou de Guyau,eles não perdem tempo com
semelhante gente. Não admitem que a obraliterária tenha por fim manifestar um
certo caráter saliente ou essencial do assunto que se tem em vista, mais
completamente do que o fazem os fatos reais. Literatura não é fazer entrar no
patrimônio do espírito humano, com auxilio dos processos e métodos artísticos,
tudo o que interessa o uso da vida, a direção da conduta e o problema do
destino. Não, absolutamente não.
Os doutores javaneses de curar não entendem literatura assim.Para eles, é boa
literatura a que é constituída por vastas compilações de cousas de sua
profissão, escritas laboriosamente em um jargãoenfadonho com fingimentos de
língua arcaica.
Curioso é que a primeira qualidade exigida em um livro deestudo é a sua
perfeita, completa clareza, que só pode ser obtida coma máxima simplicidade de escrever,
além de um encadeamento naturalmente lógico de suas partes, evitando-se tudo o
que distraia a atenção do leitor daquilo que se quer ensinar.
Vou explicar-me melhor e os leitores verão como os sábiosjavaneses prendem a
atenção, poupam o esforço mental dos seus discípulos, empregando termos
obsoletos e locuções que desde muitoestão em desuso.
Suponhamos que um médico nosso patrício se proponha a escrever um tratado
qualquer de patologia e empregue a linguagem de João de Barros mesclada com a
do Padre Vieira, sem esquecer a deAlexandre Herculano. Eis aí em que consiste a
literatura suculenta dos doutores javaneses; e todos de lá lhes admiram as
obras escritas em tal patoá ininteligível. Darei um exemplo, servindo-me do
nosso idioma.
Antes, porém, de dar essa mostra do modo de escrever dosesculápios de lá,
dar-lhes-ei o de falar, com uma anedota que me contaram lá mesmo - porque lá há
também irreverentes e observadores. Uma família média, tendo o chefe doente e
vendo que a moléstia não dava volta com o modesto médico assistente, resolveu
chamar uma das celebridades da medicina javanesa. A mulher do doente era quem
mais queria isto, porque, embora possam ser excelentes, com todos os bons
predicados, nenhuma mulher perde de todo a vaidade; e a visita de uma
notabilidade hipocrática fazia falar a vizinhança. Foi chamado o homem, o
doutor Lhovehy, uma celebridade retumbante, professor, membro de várias
academias, inclusive a de letras e a de história e geografia.
Ele foi de carro, com a visita paga adiantadamente: cento ecinqüenta florins.
Em chegando junto ao doente, com três jeitos de mau ator foi falando assim:
- Até agora quem no há tratado?
- O doutor Nepuchalyth.
- Mister é que tenhais sempre atilamento com esses físicosincautos. Eles são
homens que não curam senão por experiência ecostume; e é tão bom de enganar os
néscios não afeitos ao bom parecer dos físicos de valia que dão cor a
facilmente serem enganados por eles e o pior é que alguns clientes físicos, ou
por contentar todos os do povo e não querer trabalhar ou especular as curas,
vão-se com o parecer deles; e porque ser aprazível ao povo faz ao físico ganhar
mais moedas, usam logo em princípio as suas mezinhas deles.
Depois de ter pronunciado esse exórdio com toda a solenidadeteatral e doutoral,
o Garcia de Orta não anunciado, da sublime escola de Java, examinou o doente e
receitou em grego. Quase ao sair, amulher perguntou-lhe:
- Doutor, qual a dieta?
- Polho cozido ou caldo dele.
A mulher voltou para junto do marido, sem ter compreendido adieta, pois temeu
mostrar-se ignorante em face do sábio, indagando o que era polho.
Logo que a viu, o marido ralhou-a com doçura:
- Filha, eu não dizia a você que esses médicos famosos nãoservem para nada?...
Este que você trouxe fala que ninguém oentende, como se a gente falasse para
isso... Receita umas mixórdias misteriosas... Sabe você de uma cousa? Continuo
com o doutorNepuchalyth, ali da esquina. Este ao menos tem juízo e não inventou
um modo de falar para ele só entender.
O exemplo de que falei acima é o que se encontra em obras deum famoso doutor lá
de Java. Cito um único, mas poderia citarmuitos. O javanês, doutor de curas,
queria dizer: "Sou de opinião que a febre deve ser combatida na sua
causa".
Julgou isto vulgar, indigno do seu título e das suas prerrogativas
consuetudinárias, e escreveu provocando a máxima admiração dos seus leitores,
da seguinte forma:
'Erro, quere parescer-me, é não se atentar donde provém talfebre com
incendimento e modorra, para só tratá-la às rebatinhas, tão de pronto como se
mesmo fora ela a doença, senão conseqüência muita vez de vitais desarranjos
imigos da sã vida e onde o físico de recado achará a fonte ou as fontes do mal
que deixa assi o corpo sem os bons e sãos aspeitos de sua habitual
composição".
Depois de uma beleza destas, a sua entrada na academia foi certae inevitável,
pois é nessa espécie de pot-pourri de estilos de tempos desencontrados, com o
emprego de um vocábulo senil, tirado à sorte; de salada de feitios de linguagem
de épocas diferentes, de modismos de séculos afastados uns dos outros, que a
gente inteligente de Java encontra a mais alta expressão da sua oca literatura.
Há exceções, devo confessar. Continuo, sem me deter nelas.
A ciência javanesa está muito adiantada. Nunca se fez lá a maisinsignificante
descoberta; nunca um sábio javanês edificou uma teoria qualquer.
Penso que tal se dá por não haver precisão disso; os da estranjasuprem as
necessidades da mentalidade javanesa.
O sábio da Batávia é o contrário de todos os outros sábios domundo. Não é um
modesto professor que vive com seus livros, seusalgarismos, suas retortas ou
éprouvettes. O sábio de Java, ao contrário, é sempre um ricaço que foge dos
laboratórios, dos livros, das retortas, dos cadinhos, das épuras, dos
microscópios, das equatoriais, dos telescópios, das cobaias, tem cinco ou seis
empregos, cada qual mais afanoso, e não falta às festas mundanas.
A presunção de cientista, entretanto, não há quem lá não atome. Basta que um
sujeito tenha aprendido um pouco de álgebra ou folheado um compêndio de
anatomia, para se julgar cientista e seencher de um profundo desdém por toda a
gente, sobretudo pelosliteratos ou poetas. Contudo todos desse gênero querem
sê-lo e, em geral, são péssimos.
Vou lhes contar um caso que se passou com o doutor KaritschâLanhi, quando foi
nomeado diretor do câmbio do Banco Central deJava. Esse doutor era professor da
Escola de Sapadores, da qual mais adiante falarei, e por isso se julgou no
direito de pleitear o lugar do banco. No dia seguinte de sua nomeação, o seu
subalterno imediato foi perguntar-lhe qual a taxa de câmbio que devia ser
afixada.
- Sempre para a alta. Qual foi a taxa de ontem?
O empregado retrucou:
- 18 5/17, doutor.
O sábio pensou um pouco e determinou:
- Afixe: 18 5/21, senhor Hatati.
O homem reprimiu o espanto e todo o banco riu-se de tãoseguro financeiro que
lhe caia do céu, por descuido. Não houveremédio senão demitir-se ele uma semana
depois de nomeado.
São assim os graves sábios de Java.
Não nos afastemos, porém, do nosso estudo.
Das grandes artes técnicas, a mais avançada, como era de esperar, é a medicina.
O tratamento geralmente empregado é o do vestuáriomédico. Consiste ele em usar
o doutor certo traje para curar certa moléstia. Para sarar bexigas, o médico
vai em ceroulas; para congestão de fígado, sobrecasaca e cartola; para
tuberculose, tanga e chapéu de palha de coco; antraz, de casaca, etc., etc.
Este curioso método foi descoberto recentemente em um paispróximo que o
repudiou, mas veio revolucionar a medicina da grande ilha. Os físicos locais
adotaram-no imediatamente e aumentaram opreço das visitas e redobraram a caça
aos empregos, para atender às despesas com a indumentária e os aviamentos.
Estava a ponto de esquecer-me de falar no ensino da célebreilha do arquipélago
de Sonda, pois tanto me alonguei no estudo dos seus médicos, que vou ter a ele
com pressa.
Existe uma universidade com três faculdades superiores: a
de"Sapadores", a de "Cortadores", e a de
"Físicos". Os cursos destas faculdades duram cerca de cinco anos, mas
cada uma delas tem umsubcurso menor, de dois ou três anos. A de
"Sapadores" tem o de"consertadores de picaretas"; a de
"Cortadores", o de "embrulhadores";e a de
"Físicos", o de "cobradores".
Nas margens do Jacarta, rio que banha Batávia, quem não temum título dado por
uma dessas faculdades não pode ser nada,porquanto, aos poucos, os legisladores
da terra e a estupidez do povo foram exigindo para exercer os grandes e
pequenos cargos do Estado, quer os políticos, quer os administrativos, um
qualquer documento universitário de sabedoria.
Todos, por isso, tratam de obtê-lo e é a mais dura vicissitude da vida ser
reprovado no curso. E raro, mas acontece. Os jovens javaneses empregam toda
espécie de meios para não serem reprovados, menos estudar. Essa contingência
pueril da "bomba", na sociedade javanesa, leva às almas dos moços
daquelas paragens um travo tão amargo de desconforto que toda a felicidade que
lhes chegar posteriormente não o atenuará, e muito menos será capaz de
dissolvê-lo.
E mesmo que ele se acredite por sua própria iniciativa, maisvaliosa e mais
segura que os papéis oficiais; por mais aptidões que demonstre sem título - tem
que vegetar em lugares subalternos e dar o que tem de melhor aos outros
titulados, para que figurem estes como capazes. Ele escreverá as cartas de
amor; mas os beijos nãoserão nele.
Por um curioso fenômeno sociológico, as idéias bramânicas decasta se enxertaram
nas caducas concepções universitárias do medievo europeu e foram dar nas ilhas
de Sonda, sob o pretexto de ensino, nessa estranha e original concepção do
doutor javanês. Aproveito a ocasião para avisar os leitores que essa concepção
religioso-universitária também existe na República de Bruzundanga.
Creio, porém, que ela é originária da grande ilha da Malásiadonde foi ter
àquela república, por caminho que não descobri.
Como todo moço que tem legítimas ambições naquele recantodo nosso planeta,
Harakashy, um javanês que foi muito meu amigomais tarde, conseguiu entrar para
a Escola dos Sapadores, a fim de acreditar-se na sociedade em que vivia, e ter
o seu lugar sob o sol, com o título que a faculdade dava. Era malaio com muitas
gotas de sangue holandês nas veias, mas sem fortuna nem família. No começo, as
cousas foram indo, ele passou; mas, em breve, Harakashy desandou e foi
reprovado umas dez vezes na universidade.
Em absoluto, não houve injustiça. O meu amigo nada sabia,porque ingenuamente
deduzira dos fatos que a principal condiçãopara ser aprovado, nos exames de
Java, é não saber. Enganava-se,porém, supondo que tal homenagem fosse prestada
a todos.Recebem-na os filhos dos grandes dignitários da colônia, dos ricaços,
dos homens de negócios que sabem levantar capitais; mas escolares que não têm
tal ascendência, como o meu amigo, estão talhados para engrossar a estatística
dos reprovados, a fim de comprovar o rigor que há nos estudos da Universidade
de Batávia.
Dá-se isto, não por culpa total dos professores; mas pelas solicitações de toda
a sociedade batavense que quer seus lentes universitários, homens de salão, de
teatros caros, de bailes de alto bordo; e eles, para aumentar as suas rendas,
que custeiem esse luxo, têm que viver ajoujados aos ministros que dão empregos,
ou aos brasseursd'affaires que lhes pedem emprestados os nomes para
apadrinharempresas honestas, semi-honestas e mesmo deso-nestas, em troco de
boas gorjetas.
Quem meu filho beija, minha boca adoça - diz o nosso povo.
Em uma sociedade que se modelou assim, não era possível queo meu Harakashy
fosse lá das pernas.
Entretanto, eu o conheci e o senti muito inteligente, culto, amigo dos livros e
todo ele saturado de anseios espirituais. Gostava muito de filosofia, de letras
e, sobretudo, de história. Leu-me ensaios e eu achei muito bem escritos,
revelando uma grande cultura e um grande poder de evocar.
Mas Java é muito estúpida e não admite inteligência senão
nos"sapadores", nos "físicos" e nos "cortadores".
Ainda não lhes disse o que são os tais "cortadores". São estesassim
como os nossos advogados e o seu emblema é uma tesoura,devido a ser, senão de
regra, mas de praxe, de tradição que toda defesa ou acusação judiciária tenha o
maior número de citações possíveis e tais peças são mais estimadas quando as
referências aos autores consultados vêm nelas coladas com os próprios retalhos
dos livros aludidos. A tesoura é instrumento próprio para isto e, dessa
maneira, enriquece os "cortadores", pois os arrazoados dessa natureza
são muito bempagos, embora lhes estraguem as bibliotecas que alcançam
muitobaixas licitações quando vão a leilão.
Atribui o desastre da vida escolar do meu amigo ao fato de elenão ter nenhum
jeito para qualquer das grandes profissões liberais que a Batávia oferece aos
seus filhos.
Se Harakashy nascesse em França ou em outro país civilizado,naturalmente a sua
própria vocação encaminhá-lo-ia para uma aplicação mental, de acordo com a sua
feição de espírito; mas, em Java, tinha que ser uma daquelas três cousas, se
quisesse figurar comointeligente. Não achando campo para a sua atividade
cerebral, muito pouco atraído para o estudo das "picaretas automáticas",
muito orgulhoso para bajular os professores e aceitar aprovações por
comiseração, o meu amigo ficou naquela exuberante terra sem norte, sem rumo,
absolutamente sem saber o que fazer.
Ensinava para vestir-se e comer. E todos que o conheciam desdemenino
admiravam-se que, ao infante galhardo dos seus primeirosanos, se houvesse
substituído nele um rapaz macambúzio, isolado,amargo e cruel nas suas conversas
camarárias, ressumando sempreuma profunda tristeza.
Aos profundos, parecerá vão; aos superficiais, parecerá tolo -tão grandes
conseqüências para tão fracas causas.
Não me animo a discutir, mas lembro que o amor tem qualquercousa de parecido...
Visitei-o sempre. Amei-o na sua desordem de espírito, imensa eambiciosa de
fazer o Grande e o Novo. Em uma das minhas visitas,encontrei-o no seu modesto
quarto, deitado em uma espécie de enxerga, fumando e tendo um gordo livro ao
lado. Eu entrava sem meanunciar. Trocamos algumas palavras e ele me disse logo
após:
- Fizeram muito bem em não me deixar ir adiante.
- E essa!
- Não te admires. Continuo a estudar história e estou convencido).
- Como?
- Lê este manuscrito.
Passou-me então um códice fortemente encadernado em couro.Era o livro que tinha
ao lado. Pude ler o titulo: História da Universidade de Batávia com a biografia
dos seus mais distintos alunos, porDegni-Hatdy - 1878.
- Quem é este Degni-Hatdy? perguntei.
- Foi um gênio, meu caro. Um gênio de escola... Recebeumedalhas, diplomas,
prêmios... Vive ainda, mas ninguém o conhece mais.
- É de interesse, a memória?
- É, e bastante, pois traz a lista dos alunos ilustres da universidade.
- Quais foram?
- Newton, Huyghens, Descartes, Kant, Pasteur, ClaudeBernard, Darwin, Lagrange.
- Chega.
- Ainda: Dante e Aristóteles.
- Uff!
- Gente de primeira, como vês; e, quando soube, tive orgulhode ter sido de
alguma forma colega deles; mas...
Por aí acendeu um cigarro, tirou duas longas fumaças com a languidez javanesa e
continuou com a pachorra batava:
- Mas, como te dizia, bem cedo tive vergonha de ter um diapassado pela minha
mente que eu era capaz de emparelhar-me comtais gênios. E verdade que não sabia
terem eles freqüentado a universidade... Vou esconder-me em qualquer buraco,
para me resgatar de tamanha pretensão).
Saí. Ainda o vi durante alguns dias; mas, bem depressa, desapareceu dos meus
olhos. Pobre rapaz! Onde estará?
CONGRESSO PAMPLANETÁRIO
Urubu pelado não se
mete no meio dos coroadosDitado popular
De tal forma se haviam multiplicado os congressos, que foi preciso ser
original. Dentro de cada um dos oito planetas, desde o mais bronco, que me
parece ser Vênus, até o mais inteligente, que naturalmente deve ser Netuno, não
era possível reunir um que não fosse a milésima repartição dos outros
anteriores. Congressos nunca foram coisas de primeira necessidade; mas a
necessidade do espetáculo tem em todos nós tão fortes exigências como desvios
convenientes.
Demais, Júpiter estava em tal estado de adiantamento que precisava mostrar-se
ao sistema todo. Produzia por ano 200.000$000 de toneladas de aperfeiçoadas
farpas de bambus (específico contra as dores de dentes); e os seus filósofos e
escritores, graças às modernas máquinas elétricas de escrever, abarrotavam os
armazéns das estradas de ferro com bilhões de toneladas de papel impresso.
Houve um que, narrando todas as suas conversas e atos do ano, dia por dia, hora
por hora, minuto por minuto, segundo por segundo, escreveu uma obra de 68.922
volumes, com 20.677.711 páginas, das quais 3.000.000 alvas e limpas - as
melhores! - significavam as horas de seu sono sem sonhos.
O autor não omitiu nelas nem as ordens aos criados, nemtampouco as frases
vulgares que trocamos ao cumprimentar. Tudoregistrou porque, dizia ele, isso
aumentava o peso da obra, e, portanto, o seu valor.
Era unicamente Júpiter que estava assim: o resto dos satélites do Sol vivia
sofrivelmente... Como, porém, houvessem descoberto quetodos eles estavam
ligados por uma força oculta que, embora influindo mutuamente sobre todos eles,
pesava mediocremente sobre osdestinos particulares de cada um; e, como também
fosse preciso ser original nos congressos - Júpiter propôs, e todos os
planetasrestantes aceitaram, a reunião de um Congresso Pamplanetário. Era
preciso, diziam os embaixadores de Júpiter, formar um espírito planetário, em
contraposição ao espírito estelar. Com isso, eles escondiam o secreto desejo de
vender aos outros planetas farpas aperfeiçoadas, remédios para calos, toneladas
de um literário papel de embrulhos e outros produtos similares de sua atividade
sem limites, não esquecendo o fito de conquistar alguns destes últimos ou parte
deles.
Todos os outros não viram bem esse propósito de Júpiter; maseste lhes venceu a
resistência convencendo-os de que deviam seroriginais e chamar a atenção do
Universo... O mundo estelar não nos debocha? Altair não está sempre a rir-se
sarcasticamente de nós?Aldebarã não nos ameaça com seu rubor? Sirius não nos
desdenha? Havemos de lho mostrar.
A reunião - ficou decidido - teria lugar na Terra. Não porquea Terra fosse
muito poderosa, mas porque, nos últimos anos, elainstalara nos seus pólos uma
imensa buzina que gritava para as estrelas - "Sou o primeiro planeta do
orbe, tenho estradas de milhões de metros: sou o paraíso do Universo",
etc., etc.
A buzina era indispensável, visto que os caminhos, palácios,jardins e teatros,
etc. se destinavam aos extraterrestres e tinham por fim atraí-los, no
pensamento de que os estranhos viessem trazer a segura prosperidade dela - a
Terra.
O seu povo, todos conhecem-no: é uma gente cheia de umanevoenta poesia, tema,
loquaz, um tanto indolente, mas liberal, por ser relaxada, e generosa, por ser
liberal.
São defeitos e são qualidades, mesmo porque, para os povos,não há defeitos nem
qualidades; há características, e mais nada.
Os de Júpiter não são assim; são rígidos, duros e frios; e têmdous sentimentos
dominadores: o do enorme, que é o seu critério de beleza, e o do dourado.
Um habitante do grande planeta, uma vez na Terra, ao ver pelocrepúsculo o céu
banhado de ouro liqüefeito, esperneou de tal modo e de tal modo subiu às
montanhas para colhê-lo que nos antípodashouve um terremoto.
Em vendo a cor do ouro, eles saem bufando, com o olhar injetado, em estado de
fúria; e saem matando, estripando a indiferentes, a amigos, a parentes e até
aos pais; e - curioso - só querem ouro para construir caixões de seis léguas de
alturas e seis polegadas quadradas de base. Eis como sentem a beleza... A isso
juntam um horror pelos gatos, um ódio idiota e histérico; no entanto, os
"gatos" são bons; se velhos, têm a candura de criança; se crianças,
uma grácil espontaneidade de encantar. Mesmo se não são melhores do que osseus
companheiros de planeta, são perfeitamente iguais a eles.Contudo, são doridos e
auditivos, o que lhes dá a faculdade de criar uma poesia e uma música próprias,
das quais os de Júpiter seaproveitam, à míngua de poder eles mesmos criar essas
manifestações artísticas, pois a sua insensibilidade não o permite.
Mas os jupiterianos não os toleram, porque podem os "gatos"votar,
embora fossem os próprios algozes destes que lhes tivessem dado esse direito.
Por qualquer de cá aquela palha, os estúpidos jupiterianos sereúnem na praça
pública e matam a pauladas, a fogo, à fouce, semforma de processo alguma, sob o
pretexto de que o "gato" queriacasar ou namorava uma filha deles. Lá
se chama banditismo e é cousa parecida com o linchamento yankee.
Um viajante, entretanto, que lá esteve, achou esses "gatos"
excepcionalmente tímidos e doces, admirando-se que lá não houvesse mais crimes,
provocados pelos sofrimentos e humilhações que eles sofrem.
Perseguem-nos de um modo bárbaro e covarde. Chamam-nosde poltrões, mas, quando
querem guerrear, socorrem-se deles e os"gatos" se portam bem. Vem a
paz, oprimem-nos, encurralam-nosmas, assim mesmo, eles crescem e
multiplicam-se... Fraca raça!
Júpiter, como ia dizendo, acudiu ao grito da buzina e reuniu ocongresso na
Terra.
Na primeira sessão, logo os Jupiterianos falaram na fraternidadede todos os
animais do Universo: homens e gatos, burros e jupiterianos, marcianos e
raposos. Um principal de Júpiter até, a esse respeito, fez um discurso muito
bonito.
É muito cediça a manobra de Júpiter falar sempre em liberdade,fraternidade,
etc. Certa vez, ele declarou guerra a Saturno, para libertar-lhe os povos.
Logo, porém, que o venceu, restabeleceu a escravatura que já estava absolvida.
Tal e qual a América do Norte fez com o Texas, província do México, em 1837.
Como todos esperavam, os trabalhos do congressoprosseguiram com grande
atividade.
Além de tratar do estabelecimento de pontes pênseis que ligassem todos os
planetas entre si, o congresso votou as seguintes conclusões sobre a perfeita
fraternidade animal, estabelecido nos seguintes pontos:
a) Não se deveria mais comer qualquer animal (boi, carneiro,porco);
b) As gaiolas dos pássaros deveriam ser aumentadas do dobro,no mínimo;
c) Na caça, uma espingarda não poderia ser carregada com maisde seis grãos de
chumbo;
d) Generalizar 05 jogos de bola na sociedade dos cabritos.
O programa era vasto e piedoso; e até um principal de Júpiter,a esse respeito,
orou e citou largamente a Bíblia, tanto o Antigo comoo Novo Testamento, fazendo
pena não haver ali muitas beatas quepudessem chorar com tal homem, tão digno de
vir a substituir são Vicente de Paulo, porque não é próprio citar Sáquia-Múni.
O povo da Terra - boa gente! - exultou e encheu-se de orgulhopor poder mandar
às estrelas este grito: "Não comemos mais bois!! Nada temos com as
estrelas!"
Houve festas: banquetes e bailes para alguns; luminárias para quem quisesse ver
as fantasmagorias surpreendentes nos órgãos de publicidade.
No Céu, porém, Sírius sorriu e Altair mais amarela se fez. DaPlêiade, duas
estrelas empalideceram de espanto, e a Aldebarâ quis avisar aos néscios, mas
não pôde.
Júpiter vendeu a todos os seus irmãos toneladas de farpas, deremédios para
calos, de papel literário; e isto com alguma violência, que me eximo de contar.
De passagem, digo-lhes que ele ocupou umpedaço de Mercúrio...
Se tais produtos não estavam completamente envenenados, foram,no entanto,
deletérios. A Terra banalizou-se; Marte perdeu a inteligência; Vênus, o amor
desinteressado; Netuno, a bravura generosa; os "gatos" de todos os
planetas, contudo, vieram a gozar dos benefícios das instituições jupiterianas,
isto é, foram expulsos da comunhão dos patrícios.
Sob os bons auspícios de Júpiter, foi assim que se fez a fraternidade animal em
todo o sistema planetário.
Sírius nunca mais cessou de sorrir.
CLÓA
Alexandre Valentim
Magalhães
Devia ser já a terceira pessoa que lhe sentava à mesa.
Não lhe era agradável aquela sociedade com desconhecidos;mas que fazer naquela
segunda-feira de Carnaval, quando as confeitarias têm todas as mesas ocupadas e
as cerimônias dos outros dias desfazem-se, dissolvem-se?
Se as duas primeiras pessoas eram desajeitados sujeitos sematrativos, o
terceiro conviva resgatava todo o desgosto causado pelos outros. Uma mulher
formosa e bem tratada é sempre bom ter-se àvista, embora sendo desconhecida,
ou, talvez, por isso mesmo...
Estava ali o velho Maximiliano esquecido, só moendo cismas, bebendo cerveja,
obediente ao seu velho hábito. Se fosse um dia comum, estaria cercado de
amigos; mas, os homens populares, como ele, nunca o são nas festas populares.
São populares a seu jeito, para os freqüentadores das ruas célebres, cafés e
confeitarias, nos dias comuns; mas nunca para a multidão que desce dos
arrabaldes, dos subúrbios, das províncias vizinhas, abafa aqueles e como que os
afugenta. Contudo não se sentia deslocado...
A quinta garrafa já se esvaziara e a sala continuava a encher-see a esvaziar-se,
a esvaziar-se e a encher-se. Lá fora, o falsete dos mascarados em trote, as
longas cantilenas dos cordões, os risos e as músicas lascivas enchiam a rua de
sons e ruídos desencontrados e, dela, vinha à sala uma satisfação de viver, um
frêmito de vida e de luxúria que convidava o velho professor a ficar durante
mais tempo bebendo, afastando o momento de entrar em casa.
E esse frêmito de vida e luxúria que faz estremecer a cidade nostrês dias de
sua festa clássica, naquele momento, diminuía-lhe muito as grandes mágoas de
sempre e, sobretudo, aquela teimosia epequenina de hoje. Ela o pusera assim
macambúzio e isolado, embora mergulhado no turbilhão de riso, de alegria, de
rumor, de embriaguez e luxúria dos outros, em segunda-feira gorda.O "jacaré"
não dera e muito menos a centena. Esse capricho dasorte tirava-lhe a esperança
de um conto e pouco - doce esperançaque se esvaía amargosamente naquele
crepúsculo de galhofa e prazer.
E que trabalho não tivera ele, doutor Maximiliano, para fazê-labrotar no seu
peito, logo nas primeiras horas do dia! Que chusmas de interpretações, de
palpites, de exames cabalísticos! Ele bem parecia um áugure romano que vem
dizer ao cônsul se deve ou não oferecerbatalha...
Logo que ela lhe assomou aos olhos, como não lhe pareceucerto aquele navegar
precavido dentro do nevoento mar do Mistério, marcando rumo para aquele ponto -
o "jacaré" - onde encontrariasossego, abrigo, durante alguns dias!
E agora, passado o nevoeiro, onde estava?... Estava ainda emmar alto, já sem
provisões quase, e com débeis energias para levar o barco a salvamento... Como
havia de comprar bisnagas, confetes, serpentinas, alugar automóvel? E - o que
era mais grave - como havia de pagar o vestido de que a filha andava precisada,
para se mostrar sábado próximo, na rua do Ouvidor, em toda a plenitude de
suabeleza, feita (e ele não sabia como) da rija camadura de Itália e de uma
forte e exótica exalação sexual... Como havia de dar-lhe o vestido?
Com aquele seu olhar calmo em que não havia mais nem espanto, nem reprovação,
nem esperança, o velho professor olhou ainda a sala tão cheia, por aquelas
horas, tão povoada e animada de mocidade, de talento e de beleza. Ele viu
alguns poetas conhecidos, quis chamá-los, mas, pensando melhor, resolveu
continuar só.
O velho doutor Maximiliano não cansou de observar, um porum, aqueles homens e
aquelas mulheres, homens e mulheres cheiosde vícios e aleijões morais; e ficou
um instante a pensar se a nossa vida total, geral, seria possível sem os vícios
que a estimulavam, embora a degradem também.
Por esse tempo, então, notou ele a curiosidade e a inveja comque um grupo, de
modestas meninas dos arrabaldes, examinava atoilette e os ademanes das mundanas
presentes.
Na sua mesa, atraindo-lhes os olhares, lá estava aquela formosae famosa
Eponina, a mais linda mulher pública da cidade, produtocombinado das imigrações
italiana e espanhola, extraordinariamente estúpida, mas com um olhar de abismo,
cheio de atrações, de promessas e de volúpia.
E o velho lente olhava tudo aquilo pausadamente, com a suaindulgência de
infeliz, quando lhe veio o pensar na casa, naquele seular, onde o luxo era uma
agrura, uma dor, amaciada pela música, pelo canto, pelo riso e pelo álcool.
Pensou, então, em sua filha, Clôdia - a Cló, em família - em cujo temperamento
e feitio de espírito havia estofo de uma grande hetaira. Lembrou-se com casta
admiração de sua carne veludosa e palpitante, do seu amor às danças lúbricas,
do seu culto á toilette e ao perfume, do seu fraco senso moral, do seu gosto
pelos licores fortes; e, de repente e por instantes, ele a viu coroada de hera,
cobrindo mal a sua magnifica nudez, com uma pele mosqueada, o ramo de tirso
erguido, dançando, religiosamente bêbeda, cheia de fúria sagrada de hacante:
"Evoé! Baco!"
E essa visão antiga lhe passou pelos olhos, quando a Eponinaergueu-se da mesa,
tilintando as pulseiras e berloques caros, chamando muito a atenção de Mme.
Rego da Silva que, em companhia domarido e da sua extremosa amiga Dulce, amante
de ambos, no dizerda cidade, tomavam sorvetes, numa mesa ao longe.
O doutor Maximiliano, ao ver aquelas jóias e aquele vestido,voltou a lembrar-se
de que o "jacaré" não dera; e refletiu, talvez com profundeza, mas
certo com muita amargura, sobre a má organização da nossa sociedade. Mas não
foi adiante e procurou decifrar o problema da sua multiplicação em Cló, tão
maravilhosa e tão rara. Como é que ele tinha posto no mundo um exemplar de
mulher assaz vicioso e delicado como era a filha? De que misteriosa célula sua
saíra aquela floração exuberante de fêmea humana? Vinha dele ou da mulher? De
ambos?
Ou de sua mulher só, daquela sua carne apaixonada e sedentaque trepidava quando
lhe recebia as lições de piano, na casa dos pais?
Não pôde, porém, resolver o caso. Aproximava-se o doutor André,com o seu rosto
de ídolo peruano, duro, sem mobilidade alguma nafisionomia, acobreada, onde o
ouro do aro do pince-nez reluzia fortemente e iluminava a barba cerdosa.
Era um homem forte, de largos ombros, musculoso, tórax saliente,saltando; e, se
bem tivesse as pernas arqueadas, era assim mesmo um belo exemplar da raça
humana.
Lamentava-se que ele fosse um bacharel vulgar e um deputadoobscuro. A sua falta
de agilidade intelectual, de maleabilidade, deductílidade, a sua fraca
capacidade de abstração e débil poder de associar idéias não impediam fosse ele
deputado e bacharel. Ele seria rei, estaria no seu quadro natural, não na
câmara, mas remando em ubás ou igaras nos nossos grandes rios ou distendendo
aqueles fortes arcos de iri que despejam frechas ervadas com curaro.
Era o seu último amigo, entretanto o mais constante comensalde sua mesa
luculesca.
Deputado, como já ficou dito, e rico, representava, com muitagalhardia e
liberalidade, uma feitoria mansa do Norte, nas salas burguesas; e, apesar de
casado, a filha do antigo professor, a lasciva Cló, esperava casar-se com ele,
pela religião do Sol, um novo culto recentemente fundado por um agrimensor
ilustrado e sem emprego.
O velho Maximiliano nada de definitivo pensava sobre tais projetos; não os
aprovava, nem os reprovava. Limitava-se a pequenas reprimendas sem convicção,
para que o casamento não fosse efetuado sem a bênção do sacerdote do Sol ou de
outro qualquer.
E se isto fazia, era para não precipitar as cousas; ele gostava dos
desdobramentos naturais e encadeados, das passagens suaves, dasinflexões doces,
e detestava os saltos bruscos de um estado para o outro.
- Então, doutor, ainda por aqui? fez o rico parlamentar sentando-se.
- É verdade, respondeu-lhe o velho. Estou fazendo o meu sacrifício, rezando a
minha missa... É a quinta... Que toma, doutor?
- Um "madeira"... Que tal o Carnaval?
- Como sempre.
E, depois, voltando-se para o caixeiro:
- Outra cerveja e um "madeira", aqui, para o doutor. Olha: levaa
garrafa.
O caixeiro afastou-se, levando a garrafa vazia e o doutor Andréperguntou:
- Dona Isabel não veio?
- Não. Minha mulher não gosta das segundas-feiras deCarnaval. Acha-as
desenxabidas... Ficaram, ela e a Cló, em casa a se prepararem para o baile á
fantasia na casa dos Silvas... Quer ir?
- O senhor vai?
- Não, meu caro senhor; do Carnaval, eu só gosto dessa barulhada da rua, dessa
música selvagem e sincopada de recos-recos, de pandeiros, de bombos, desse
estridulo de fanhosos instrumentos de metais... Até do bombo gosto, mais nada!
Essa barulhada faz-me bem à alma. Não irei... Agora, se o doutor quer ir... Cló
vai de preta mina.
- Deve-lhe ficar muito bem... Não posso ir; entretanto, irei ásua casa para ver
a sua senhora e a sua filha fantasiadas. O senhordevia também ir...
- Fantasiado?
- Que tinha?
- Ora, doutor! eu ando sempre com a máscara no rosto.
E sorriu leve com amargura; o deputado pareceu não compreender e observou:
- Mas, a sua fisionomia não é tão decrépita assim...
Maximiliano ia objetar qualquer cousa quando o caixeiro chegoucom as bebidas,
ao tempo em que Mme. Rego da Silva e o maridolevantaram-se com a pequena Dulce,
amante de ambos, no dizer dacidade em peso.
O paramentar olhou-os bastante com o seu seguro ar de quemtudo pode. Ouviu que
ao lado diziam - à passagem dos três:ménage à trois. A sua simplicidade
provinciana não compreendeu amaldade e logo dirigiu-se ao velho professor:
-Jantam em casa?
-Jantamos; e o doutor não quer jantar conosco?
- Obrigado. Não me é possível ir hoje... Tenho um compromisso sério... Mas
fique certo que, antes de saírem, lá irei tomar um uisquezinho... Se me
permite?
- Oh! doutor! O senhor é nosso melhor amigo. Não imaginacomo todos lá falam no
senhor. Isabel levanta-se a pensar no doutor André; Cló, essa, nem se fala! Até
o Caçula quando o vê, não late; faz-lhe festas, não é?
- Como isso me cumula de...
- Ainda há dias, Isabel me disse: Maximiliano, eu nunca bebium Chambertin como
esse que o doutor André nos mandou... O meufilho, o Fred, sabe até um dos seus
discursos de cor; e, de tanto repeti-lo, creio que sei de memória vários
trechos dele.
A face rígida do ídolo, com grande esforço, abriu-se um pouco;e ele disse, ao
jeito de quem quer o contrário:
- Não vá agora recitá-lo.
- Certo que não. Seria inconveniente; mas não estou impedidode dizer, aqui, que
o senhor tem muita imaginação, belas imagens e uma forma magnífica.
- Sou principiante ainda, por isso não me fica mal aceitar oelogio e agradecer
a animação.
Fez uma pausa, tomou um pouco de vinho e continuou em tomconveniente:
- O senhor sabe perfeitamente que espécie de força me prendeaos seus... Um
sentimento acima de mim, uma solicitação, algumacousa a mais que os senhores
puseram na minha vida...
- Pois então, interrompeu cheio de comoção o doutorMaximiliano: à nossa!
Ergueu o copo e ambos tocaram os seus, reatando o parlamentara conversa desta
maneira:
- Deu aula hoje?
- Não. Desci para espairecer e "cavar". É dura esta
vida..."cavar"! Como é triste dizer-se isto! Mas que se há de fazer?
Ganha-se uma miséria... Um professor com oitocentos mil-réis o que é? Tem-se a
família, representação... uma miséria! Ainda agora, com tantas dificuldades, é
que Cló deu em tomar banhos de leite...
- Que idéia! Onde aprendeu isso?
- Sei lá! Ela diz que tem não sei que propriedades, certas virtudes... O diabo
é que tenho de pagar uma conta estupenda no leiteiro... São banhos de ouro, é
que são! Jogo nos bichos... Hoje tinha tanta fé no "jacaré"...
O caixeiro passava e ele recomendou:
- Baldomero, outra cerveja. O doutor não toma mais um"madeira"?
- Vá lá. Ganhou, doutor?
- Qual! E não imagina que falta me fez!
- Se quer?...
- Por quem é, meu caro; deixe-se disso! Então há de ser assimtodo o dia?
- Que tem!... Ora!... Nada de cerimônias; é como se recebessede um filho...
- Nada disso... Nada disso...
Fingindo que não entendia a recusa, o doutor André foi retirando da carteira
uma bela nota, cujo valor nas algibeiras do doutor Maximiliano fez-lhe esquecer
em muito a sua desdita no "jacaré".
O deputado ainda esteve um pouco; em breve, porém, se despediu, reiterando a
promessa de que iria até à casa do professor, para ver as duas senhoras
fantasiadas.
O doutor Maximiliano bebeu ainda uma cerveja e, acabada quefoi a cerveja, saiu
vagarosamente um tanto trôpego.
A noite já tinha caído de há muito. Era já noite fechada. Oscordões e os bandos
carnavalescos continuavam a passar, rufando,batendo, gritando desesperadamente.
Homens e mulheres de todasas cores - os alicerces do pais - vestidos de meia,
canitares e enduapes de penas multicores, fingindo índios, dançavam na frente
aosom de uma zabumbada africana, tangida com fúria em instrumentos selvagens,
roufenhos, uns, estridentes, outros. As danças tinham luxuriosos requebros de
quadris, uns caprichosos trocar de pernas, umas quedas imprevistas.
Aqueles fantasiados tinham guardado na memória muscular velhosgestos dos
avoengos, mas não mais sabiam coordená-los nem a explicação deles. Eram restos
de danças guerreiras ou religiosas dos selvagens de onde a maioria deles
provinha, que o tempo e outras influências tinham transformado em palhaçadas
carnavalescas...
Certamente, durante os séculos de escravidão, nas cidades, osseus antepassados
só se podiam lembrar daquelas cerimônias de suas aringas ou tabas, pelo
carnaval. A tradição passou aos filhos, aos netos, e estes estavam ali a
observá-la com as inevitáveis deturpações.
Ele, o doutor Maximiliano, apaixonado amador de música, antigo professor de
piano, para poder viver e formar-se, deteve-se um pouco, para ouvir aquelas
bizarras e bárbaras cantorias, pensando na pobreza de invenção melódica daquela
gente. A frase, mal desenhada, era curta, logo cortada, interrompida, sacudida
pelos rufos, pelo ranger, pelos guinchos de instrumentos selvagens e ingênuos.
Um instante, ele pensou em continuar uma daquelas cantigas, em completá-la; e a
ária veio-lhe inteira, ao ouvido, provocando o antigo professor de música a
fazer parar o 'Chuveiro de Ouro", a fim de ensinar-lhes, aos cantores, o
que a imaginação lhe havia trazido à cabeça naquele momento.
Arrependeu-se que tivesse fito gostar daquela barulhada;porém, o amador de
música vencia o homem desgostoso. Ele queriaque aquela gente entoasse um hino,
uma cantiga, um canto com qualquer nome, mas que tivesse regra e beleza. Mas -
logo imaginou -para quê? Corresponderia a música mais ou menos artística aos
pensamentos íntimos deles? Seria mesmo a expansão dos seus sonhos,fantasias e
dores?
E, devagar, se foi indo pela rua em fora, cobrindo de simpatiatoda a
puerilidade aparente daqueles esgares e berros, que bem sentia profundos e
próprios daquelas criaturas grosseiras e de raças tão várias, mas que
encontravam naquele vozerio bárbaro e ensurdecedor meio de fazer porejar os
seus sofrimentos de raça e de indivíduo e exprimir também as suas ânsias de
felicidade.
Encaminhou-se direto para a casa. Estava fechada; mas havialuzes na sala
principal, onde tocavam e dançavam.
Atravessou o pequeno jardim, ouvindo o piano. Era sua mulherquem tocava; ele o
adivinhava pelo seu velouté, pela maneira deferir as notas, muito docemente,
sem deixar quase perceber a impulsão que os dedos levavam. Como ela tocava
aquele tango! Que paixãopunha naquela música inferior!
Lembrou-se então dos "cordões", dos "ranchos", das suas
cantilenas ingênuas e bárbaras, daquele ritmo especial a elas que também
perturbava sua mulher e abrasava sua filha. Por que caminho lhestinha chegado
ao sangue e à carne aquele gosto, aquele pendor por tais músicas? Como havia
correlação entre elas e as almas daquelas duas mulheres?
Não sabia ao certo; mas viu em toda a sociedade complicadosmovimentos de trocas
e influências - trocas de idéias e sentimentos, de influências e paixões, de
gostos e inclinações.
Quando entrou, o piano cessava e a filha descansava, no sofá, afadiga da dança
lúbrica que estivera ensaiando com o irmão. O velho ainda ouviu indulgentemente
o filho dizer:
- É assim que se dança nos Democráticos.
Cló, logo que o viu, correu a abraçá-lo e, abraçada ao pai,perguntou:
- André não vem?
-Virá.
Mas, logo, em tom severo, acrescentou:
- Que tem você com André?
- Nada, papai; mas ele é tão bom...
Quis Maximiliano ser severo; quis apossar-se da sua respeitávelautoridade de
pai de família; quis exercer o velho sacerdócio de sacrificador aos deuses
penates; mas era céptico demais, duvidava, nãoacreditava mais nem no seu
sacerdócio nem no fundamento da suaautoridade. Ralhou, entretanto, frouxamente:
- Você precisa ter mais compostura, Cló. Veja que o doutorAndré é casado e isto
não fica bem.
A isto, todos entraram em explicações. O respeitável professorfoi vencido e
convencido de que a afeição da filha pelo deputado eraa cousa mais inocente e
natural deste mundo. Foram jantar. A refeição foi tomada rapidamente. Fred,
contudo, pôde dar algumas informações sobre os préstitos camavalescos do dia seguinte.
Os Fenianos perderiam na certa. Os Democráticos tinham gasto mais de sessenta
contos e iriam pôr na rua uma cousa nunca vista. O carro do estandarte, que era
um templo japonês, havia de fazer um "bruto sucesso". Demais, as
mulheres eram as mais lindas, as mais bonitas... Estariam a Alice, a Charlotte,
a Lolita, a Cármen...
- Ainda toma muito cloral? perguntou Cló.
- Ainda, retrucou o irmão; e emendou: vai ser uma lindeza, umtriunfo, à noite,
com luz elétrica, nas ruas largas...
E Cló, por instantes, mordeu os lábios, suspendeu um pouco ocorpo e viu-se
também, no alto de um daqueles carros, iluminadapelos fogos-de-bengala,
recebida com palmas, pelos meninos, pelos rapazes, pelas moças, pelas burguesas
e burgueses da cidade. Era o seu triunfo a meta de sua vida; era a proliferação
imponderável de sua beleza em sonhos, em anseios, em idéias, em violentos
desejosnaquelas almas pequenas, sujeitas ao império da convenção, da regra e da
moral. Tomou a cerveja, todo o copo de um hausto, limpou aespuma dos lábios e o
seu ligeiro buço surgiu lindo sobre os breves lábios vermelhos. Em seguida,
perguntou ao irmão:
- E essas mulheres ganham?
- Qual! Você não vê que é uma honra? respondeu-lhe o irmão.
E o jantar acabou sério e familiar, embora a cerveja e o vinhonão tivessem
faltado aos devotos de cada uma das duas bebidas.
Logo que a refeição acabou, talvez uns vinte minutos após, odoutor André se
fazia anunciar. Desculpou-se com as senhoras;não pudera vir jantar, questões
políticas, uma conferência... Pedia licença para oferecer aquelas pequenas
lembranças de Carnaval.Deu uma pequena caixa a dona Isabel e uma maior à Cló.
Asjóias saíram dos escrínios e faiscaram orgulhosamente para todosos presentes
deslumbrados. Para a mãe, um anel; para a filha, umbracelete.
- Oh, doutor! fez dona Isabel. O senhor está a sacrificar-se enós não podemos
consentir nisto...
- Qual, dona Isabel! São falsas, nada valem... Sabia que donaClódia ia de
"preta mina" e lembrei-me trazer-lhe este enfeite...
Cló agradeceu sorridente a lembrança e a suave boca quis fixardemoradamente o
longo sorriso de alegria e agradecimento. E voltaram a tocar. Dona Isabel
pôs-se ao piano e, como tocasse depois dasobremesa, hora da melancolia e das
discussões transcendentes,como já foi observado, executou alguma cousa triste.
Chegava a ocasião de se prepararem para o baile à fantasia queos Silvas davam.
As senhoras retiraram-se e só ficaram, na sala, os homens, bebendo uísque.
André, impaciente e desatento; o velho lente, indiferente e compassivo, contando
histórias brejeiras, com vagar e cuidado; o filho, sempre a procurar caminho
para exibir o seu saber em cousas carnavalescas. A conversa ia caindo, quando o
velho disse para o deputado:
- Já ouviu a Bamboula, de Gottschalk, doutor?
- Não... Não conheço.
- Vou tocá-la.
Sentou-se ao piano, abriu o álbum onde estava a peça ecomeçou a executar
aqueles compassos de uma música negra deNova Orleans, que o famoso pianista
tinha filtrado e civilizado.
A filha entrou, linda, fresca, veludosa, de pano da Costa aoombro, trunfa, com
o colo inteiramente nu, muito cheio e marmóreo, separado do pescoço modelado,
por um colar de falsas turquesas. Os braceletes e as miçangas tilintavam no
peito e nos braços, a bem dizer totalmente despidos; e os bicos de crivo da camisa
de linho rendavam as raízes dos seios duros que mal suportavam a alvíssima
prisão onde estavam retidos.
Ainda pôde requebrar, aos últimos compassos da Bamboula,sobre as chinelas que
ocupavam a metade dos pés; e toda risonhasentou-se por fim, esperando que
aquele Salomão de pince-nez deouro lhe dissesse ao ouvido:
"Os teus lábios são como uma fita de escarlate; e o teu falar édoce. Assim
como é o vermelho da romã partida, assim é o nácar das tuas faces; sem falar no
que está escondido dentro".
O doutor Maximiliano deixou o tamborete do piano e o deputado,bem perto de
Clódia, se não falava como o rei Salomão à rainha de Sabá dilatava as narinas
para sorver toda a exalação acre daquela moça, que mais capitosa se fazia
dentro daquele vestuário de escrava desprezada.
A sala encheu-se de outros convidados e a sessão de músicaveio a cair na canção
e na modinha. Fred cantou e Cló, instada pelo doutor André, cantou também. O
automóvel não tinha chegado; elatinha tempo...
Dona Isabel acompanhou; e a moça, pondo tudo o que havia desedução na sua voz,
nos seus olhos pequenos e castanhos, cantou a "Canção da Preta Mina":
Pimenta de cheiro, jiló, quibombô;
Eu vendo barato, mi compra ioiô!
Ao acabar, era com prazer especial, cheia de dengues nos olhose na voz, com um
longo gozo intimo que ela, sacudindo as ancas e pondo as mãos dobradas pelas
costas na cintura, curvava-se para o doutor André e dizia vagamente:Mi compra
ioiô!
E repetia com mais volúpia, ainda uma vez:Mi compra ioiô!
HUSSEIN BEN-ÁLI AL-BÁLEC E MIQUÉIAS HABACUC(Conto argelino)
Ao senhor Cincinato Braga
Antes da conquista francesa, havia, na Argélia, uma famíliacomposta de um velho
pai doente e seis filhos varões. Desde muito que o pai, devido aos achaques da
idade, não se entregava diretamente aos trabalhos da sua lavoura; mas, sempre
que o seu estado de saúde lhe permitia, tinha o cuidado de correr as suas
terras com plantações, que eram de tâmaras, alfa, oliveiras, laranjeiras,
havendo somente uma parte que era destinada à criação de ovelhas, cabras e
bezerros. As plantações e a criação estavam entregues a cinco dos seus filhos,
pois o mais velho, ele o tinha mandado ao Cairo, para estudar profundamente, na
respectiva universidade, a lei do Profeta e vir a ser um ulemá digno e sábio no
Corão.
Áli Bâlec Al-Bâlec era o nome desse filho do velho árabe eesteve de fato no
Cairo; mas, bem depressa, abandonou o estudo das santas leis de Alâ e do
Profeta e procurou a sociedade dos infiéis.
Foi ter nas suas aventuras à Grécia, onde se demorou muitotempo e adquiriu dos
gregos muitos hábitos, costumes e vícios. Não se pode em confiança dizer que os
atuais sejam bem netos dos antigos; mas são aparentados. A finura e sagacidade
dos últimos paraabstrações filosóficas, para especulações científicas, para a
análise dos sentimentos e paixões, do que dão provas as suas obras defilosofia,
as suas criações científicas e as suas grandes obras literárias, empregam nos
nossos dias os atuais na mercancia, no tráfico, noescambo, em que sempre
procuram, com a máxima habilidade esabedoria enganar não só os estrangeiros,
como os seus própriospatrícios.
No Oriente, só há um traficante que não seja enganado pelogrego: é o armênio.
Diz-se mesmo lá: o judeu é enganado pelo grego, mas o armênio engana ambos.
Os turcos, de onde em onde, matam estes últimos aos milheiros,não tanto por
motivos religiosos, mas por ódio do comprador cavalheiresco, do homem leal e
crédulo, que se vê enganado despudoradamente, e sente que não há, no outro que
o ludibriou, nenhum princípio de honra, de lealdade, de honestidade, que as
relações entre os homens o exigem.
Ali Bálec AI-Bálec, apesar de ser muçulmano, foi atraído para omeio dos gregos
e, com eles, aprendeu as suas espertezas, maroscas e habilidades para enganar
os outros.
E assim foi que ele andou fora da casa paterna, fazendo oescambo dos mares do
Levante, indo de Alexandria paraConstantinopla, dai para Jafa, deste porto para
Salônica, desta cidade para Corfu, perlustrando todos aqueles mares azuis,
cheios de história, de lenda, de sangue e piratas, comerciando e mesmo
pirateandoquando a ocasião se lhe oferecia.
Ao saber da morte do pai, vendeu logo a feluca que possuia ecorreu a receber a
herança. Coube-lhe uma grande data de terra,coberta de pés de tâmaras, enquanto
os irmãos tinham as suas cultivadas com alfa, com laranjeiras, oliveiras e um
mesmo recebeu a sua parte em terrenos de pastagens magras, onde pasciam
rebanhos enfezados deovelhas e cabras.
Todos, porém, ficaram contentes com a partilha e iam vivendo.
Áli Bálec Al-Bálec trouxera como sua mulher uma israelitaque renegara o Talmude
pelo Corão, mas, apesar disso, tinha omaior desprezo pelos muçulmanos, aos
quais considerava grosseiros, convencendo de tal cousa o marido a ponto dele
não dar maisimportância aos seus próprios irmãos.
Logo ao voltar ainda os atendia e os visitava; mas a mulher lhedizia sempre:
- Esses teus irmãos são uns brutos! Parecem mochos! Unsbobos! Que sandálias! O
pano das suas chéchias é barato e sempreestá sujo! Deixa-os lá!
Aos poucos, devido aos conselhos de sua mulher, Salisa, da suainsistência, ele
deixou de procurar os irmãos, fez-lhes má cara, embora os filhos deles viessem
de quando em quando, à casa do tio, para ver o primo Hussein, que se ia criando
mais pérfido que o pai e mais orgulhoso que a mãe.
Em pouco, Ali ficou inteiramente convencido da sua imensasuperioridade sobre os
seus humildes e resignados irmãos.
Por ter na sua sala um tapete de Esmirna, serem as suas armasde aço de Damasco,
tauxiadas de ouro, julgava os seus manos, que se tinham habituado á
simplicidade e à modéstia, como inferiores, iguais aos das tribos negras que
viviam para além do deserto. Julgando-os assim, esquecia-se que, enquanto ele
viajava, enquanto ele aprendia aquelas cousas finais, os irmãos plantavam,
ceifavam e colhiam, para ele aprender.
Além disso, Áli, como falasse alguns patoás levantinos, julgava-se muito mais
que todos os do vilaiete e também, por possuir jóias de ouro e pedras caras,
valendo muitas piastras, imaginava que tudo podia.
Por esse tempo, chegaram os franceses e o caid apelou paratodos, a fim de
socorrer o bei com homens e valores. Áli ofereceu uma das jóias do seu tesouro
e quase por isso foi empalado. O joalheiro do palácio verificou que as jóias
eram inteiramente falsas e, vindo o bei a saber disso, tomou a cousa como
afronta e mandou castigarseveramente o doador.
Salisa, sua mulher, ficou, ao conhecer a notícia, no mais completo desespero,
não porque o marido estivesse em risco de vida, mas pelo fato que a fortuna
representada por aquelas jóias não era mais que fumaça.
Ali foi solto e jurou que havia de enriquecer de novo. Aceitousem resistência a
dominação francesa e, com alegria, viu que essa dominação trazia uma grande
alta para as tâmaras que o seu terreno produzia prodigiosamente.
Seus irmãos, a seu exemplo, aceitaram os francos e continuaramna sua modéstia,
observando muito religiosamente as leis do Corão.Áli, já habituado, em pouco se
misturou com os infiéis a quem vendia as tâmaras por bom preço e gastava o
grosso do rendimento que iatendo em bebidas, apesar da proibição do Corão, em
orgias com os ofidais e funcionários franceses. Construiu um palácio que ele
pretendia parecido com aquele do grande califa. Harum Al-Raxid, em
Bagdá,conforme é descrito no livro de histórias da princesa Xerazade.
Vendo que as tâmaras eram muito procuradas pelos francosque, por elas, pagavam
bom dinheiro, por toda a parte começaram a plantar tâmaras; os irmãos de Áli,
porém, não quiseram fazer tal, pois sabiam por experiência de seu pai, que,
desde que houvesse muitas tâmaras para vender e, não se precisando desse fruto
para o nosso comer diário, não era possível que muita gente as quisesse comprar
tão caro. Abundando tinham que vendê-las mais barato, para atingir e provocar
os compradores mais pobres.
Continuaram com a sua alfa, as suas laranjeiras, a pascer os seus rebanhos, sem
nenhuma inveja do irmão que parecia rico e os desprezava.
Os seus sobrinhos, de quando em quando, iam às terras do tioe ele, por
ostentação, por vaidade e para mostrar riqueza, lhes dava uma libra turca e as
crianças voltavam para casa dos pais, dizendo:
- Tio Ali é que é gente! Tem tudo! Como ele é rico, por Alá!
Os seus pais respondiam:
- Cada um se deve conformar com o que Alá lhe dá! É bom queprospere, pois tem
família... Deus é Deus e Maomé é seu profeta.
Veio a morrer Áli, quando as tâmaras começaram a cair depreço. Herdou-lhe os
bens, além da mulher, o seu único filho Hussein Ben-Áli Al-Bálec que tinha
todos os defeitos do pai aumentados com os de sua mãe.
Era vaidoso, presunçoso, ávido, desprezando os parentes, paraos quais era
somítico e avaro, desprezando-os como se fossem animais imundos e tidos em
maldição pelas Leis do Profeta. Com os franceses, entretanto, era mais pródigo
do que o pai e fingia ter as suas maneiras e usos.
Nas gazetas que começaram a aparecer em Argel, HusseinBen-Áli AI-Bálec era
gabado e, apesar das leis do Corão proibirem a reprodução da figura humana, uma
delas lhe publicou o retrato. As tâmaras começaram a descer; e, como Hussein
tivesse notícias que, duas léguas próximas, um outro muçulmano possuia uma
grandeplantação delas, começou a pensar que era esta que fazia descer o preço
das suas.
Em Argel, sobretudo no vilaiete de Hussein, personificam-sesempre os fenômenos
e a sutileza de um plantador de tâmaras nãopode bem conhecer, apesar de raça
árabe, o filigranado das induções da economia política...
Imaginou logo destruir a plantação e mesmo toda aquela queaparecesse na
redondeza. Supôs de bom alvitre ir com alguns homens e queimar os coqueiros. O
dono certamente queixar-se-ia ao caide às autoridades francas; e seria uma
complicação. Homem de expedientes, lembrou-se de conseguir do capitão francês
da guarnição, AL-Durand OU Al-Burhant, a destruição do plantio rival.
Habitualmente, fez-se amigo do rume, encheu-o de presentes, de festas, de
bebidas, pois seguia o exemplo de seu pai nesse tocante; e o "cão do
cristão" se fez afinal seu amigo. Um dia, depois de uma festa, o militar,
que pisava indignamente a terra onde estavam os ossos do seu pai, após muitas
queixas de Áli, apiedado do árabe, apressou-se em ir à plantação do vizinho e
castigá-lo. Assim fez, com os seus soldados e os ferozes serviçais de Hussein.
Houve queixa; o capitão foi punido; mas o saas de tâmaras não subiu nem meio
gourde.
As suas finanças iam de mal a pior, a casa magnífica ia dandomostras de ruína e
os seus móveis e alfaias deterioravam-se com o tempo. Sua mãe não cessava de
censurar-lhe pelas faltas que não lhe cabiam. Ela, com aquela arrogância muito
sua e inveja também muito sua, repreendia-o:
- Vês: as tâmaras caem de preço e tu não tomas providênciaalguma. Os meus não
são assim... Mas tens o sangue de teu pai... E verdade que teus tios estão
vendendo alfa, oliveiras, gado e laranjas e ganham... Se tu não fizeres esforço
algum, ficarás como eles, uns macacos a viver em tocas e a dormir em pelegos de
cameiro... Xmed, o teu segundo tio, ganhou duzentas piastras em azeitonas e
ficou contente. Queres ser como ele?
- Que hei de fazer, mãe?
- Pensa; e não fiques aí a chorar como mulher. Saúl chorou?Davi chorou? Só o
Deus dos cristãos chorou: Jeová não ama o choro. Ele ama a guerra e o combate,
até o extermínio. Lê os livros, os que foram os meus e os teus que são também
agora os meus. Lembra-tede Débora e de Judite e eram mulheres!
Hussein Ben-Ali AI-Bálec não podia dormir com a impressão daspalavras de sua
mãe. O saas de tâmaras continuava a descer degourde em gourde, e ele só se
lembrava de Áli, de Ornar, de todos aqueles de sua raça que as tinham levado em
meio século, do Ganges ao Ebro. Mas o saas de tâmaras parecia não temer aquelas
sombrasaugustas e ferozes. Descia sempre.
Certo dia, apareceu-lhe um homem que queria falar a sua mãe,Salisa. Era o irmão
dela, Miquéias Habacuc. A irmã e o sobrinhoacolheram muito bem tão próximo
parente e lhe falaram na baixa das tâmaras que os atormentava. Miquéias, que
era homem esperto emnegócios, disse para o sobrinho:
- Filho de minha irmã, tens meu sangue, mas não a minha fénos livros santos da
sinagoga; mas teus avós Isaac, Baruc, Daniel, Azaf, Etã, Zabulon, Neftali e
tantos outros mandam que eu te auxilie nesse transe da tua vida que é preciosa
a eles e a mim, pois ela é deles e também minha. Portanto, tal forem os
presentes que tu me fizeres, eu posso purificar-me de ter socorrido um ente que
não é de Israel. Dize-o que o rabino me perdoará.
Hussein ficou de pensar e, à noite, conferenciou com sua mãeSalisa.
- Filho, dá-lhe alguns cequins turcos e aquelas jóias falsas quequase custaram
a morte de teu pai. Porque - ouve bem - o conselho dele pode ser falaz.
Despertando Miquéias, logo Hussein foi ter com ele e propôs-lheo escambo. O
israelita, ao ver as jóias, nem olhou mais os cequins. Ficou com os olhinhos
fosforescentes de tigre na escuridão. Era como se fosse dar um salto de felino.
Contou então ao sobrinho como devia proceder.
- Tu que tens o sangue de minhas avós Micaia, que era da tribode Jeroboão, e de
Azarela, que era da casa de Leedã, ouve, comprarás todas as tâmaras que houver
na redondeza, mesmo antes deamadurecerem, ficando elas nos pés. Quando for
época de colhê-las, colhê-las-ás todas, guardando em surrões nos armazéns de
tua casa e não venderás senão quando te oferecerem um lucro que dê a fartarpara
gastares...
- Tio amado e sábio: elas não apodrecerão?
- Não importa. As poucas "medidas" em que isto acontecerdarão
prejuízo, mas tu marcarás o lucro de modo que o cubras.
Hussein Ben-Ali Al-Bálec descansou um instante a cabeça sobreo peito, depois a
ergueu de repente e exclamou:
- Falas com a sabedoria do Profeta, Miquéias Habacuc. QueAlá seja contigo!
Miquéias Habacuc, filho de Uriel de Sepetai, não se quis demorarmais e partiu
despedindo-se da irmã Salisa e do sobrinho HusseinBen-Áli AI-Bálec com lágrimas
nos olhos, canastras pesadas com os cequins turcos e as jóias falsas com que o
sobrinho lhe pagara o seu profundo conselho de economia política hebraica.
Hussein fez o que lhe foi aconselhado; e as tâmaras começarama ter mais oferta
de preço. Vendeu-as com grande lucro no primeiro ano; no segundo, se sentia uma
certa resistência no mercado, ele as reteve em grande parte; mas, no terceiro
ano, ele teve que comprar a produção e viu que ia aumentando o estoque do que,
se pode chamar de valorização das tâmaras. Viu bem que se continuasse a comprar
a produção, ficaria com ele demasiado aumentado, a sua fortuna comprometida e
que fez? Cedeu. As tâmaras começaram a descer gourdea gourde. Teve uma idéia
que um sargento francês lhe indicou. Vendo que elas encalhavam nos seus
armazéns e os pedidos cresciam lentamente; vendo, pouco a pouco, os seus
coquinhos perdendo o valor, alugou alguns gritadores que berrassem, nas ruas de
Argel, a guerreira:
- Vivam as tâmaras! Não há cousa melhor que as tâmaras deHussein Ben-Áli
Al-Bálec!
Nas gazetas, ele pagava anúncios das suas tâmaras, mas nãovendia mais que
dantes. Deu-as de graça e, como toda cousa dada de graça, elas só agradavam
desse modo.
Em se tratando de vendê-las, nada! Os surrões de tâmarasaumentavam nos seus
armazéns, pois teimava em comprá-las eguardá-las, para que elas não viessem
afinal a não valer nada.
O tapete de Esmirna que o pai lhe deixara desfiava-se, empenhouas armas
preciosas, também a herança do pai, para comprar mais sacas de tâmaras. Comprou
um tapete falso e umas armas vagabundas deum cabila mais vagabundo ainda, para
pôr no lugar das antigas preciosidades. Os outros plantadores, que se tinham
limitado a colher e vender, iam vivendo das suas modestas plantações; ele,
HusseinBen-Áli AI-Bálec, corria para a ruína certa.
Foi por ai que, novamente, lhe apareceu Miquéias Habacuc, seutio, homem hábil e
esperto nos negócios. Hussein ficou espantado, mas o tio lhe disse:
- Rebento da minha querida irmã, pelo Deus de Abraão, deIsrael e de Jacó, não
te amedrontes: vendi as jóias por um bom preço a um grego, com o que ganhei
duas cousas: dinheiro e a glória de ter enganado um cão dessa espécie. Mas,
pelo Eterno! Esta idéiade pagar-me o conselho em jóias falsas não é tua... Isto
tem dedo de pessoa inteiramente da minha raça de Mardoc e Malaquias... Isto é
de minha irmã! Não foi tua mãe quem...
- Foi. E que fizeste do dinheiro, tio amado da minha alma;socorro da minha
vida?
- Emprestei-o aos turcos com bons juros e quando os cobrei,quase me esfolaram.
Muito tem sofrido a raça de Israel; mas o que sofri deles, nem contar te posso
- ó descendente do grande Al-Bâlec, companheiro de Musa - conquistador das
Espanhas!
Acabava de dizer estas palavras, quando entra no aposento emque estavam Salisa,
a feroz Judite, a eloqüente Débora - que, ao dar com o irmão, se põe em
prantos, exclamando:
- Irmão do coração, sábio Miquéias! Tu que descendes como eude Micaia, da tribo
de Jeroboão, e de Azarela, que era da casa de Leedã, salva-me pelo nosso Deus
de Abraão, de Israel e de Jacó - salva-me!
E a feroz Judite e eloqüente Débora chorou não a sua dor, nema dos outros, mas
o dinheiro que se sumia.
Contou, então, Hussein ao tio, como a ruína se aproximava;como a valorização
das tâmaras, no começo dando tão bom resultado, viera a acabar, no fim, em
desastre completo.
O velho Miquéias, filho de Uriel de Sepetai, coçou as barbas hirsutas; os seus
olhinhos luziram naquele quadro de pêlos cerdosos; depois, faiscando-os
malignamente, perguntou ao sobrinho:
- Com que dinheiro tu, sobrinho meu; com que dinheirofizeste a operação?
Hussein disse-lhe que fora com o dinheiro dele e o da sua mãe.Miquéias Habacuc,
judeu de Salônica, homem esperto e hábil emnegócios, sorriu com gosto e demora,
dizendo após:
- Tolo que és!
- Por quê?
Habacuc assim falou de súbito, logo imediatamente á pergunta:
- Que me darás em troca pela explicação?
- A última bolsa de cequins de ouro que me resta.
- És generoso e grande, sobrinho meu, filho de Salisa, minhairmã, guarda-a.
Ganharemos mais. Fizeste mal em empregar o teudinheiro e o da tua mãe. Devias
empregar o dos outros.
- Como, tio Miquéias?
- Tu não sabes, meu sobrinho, essas operações de câmbio e debanco. Eu as sei.
Nós agora vamos organizar a defesa das tâmaras, isto é, impedir que
especuladores reduzam à miséria e à desolação esta rica região do Magreb, como
dizia o teu grande avô, Al-Bálec.Vamos pedir dinheiro aos seus habitantes, para
que não morram defome e não pereçam à míngua por falta de trabalho.
- Não me darão, tio.
- Dar-te-ão, sobrinho do meu coração; dar-te-ão. Chama teustios, irmãos de teu
pai, e os filhos, e convence-os que devem dar as economias que têm, em moeda,
para poderes lutar com os que querem acabar com as plantações de tâmaras do
vilaiete. Dize-lhes que se não o fizerem as plantações morrerão, os habitantes
fugirão, aqui ficará tudo deserto, sem água e sem pastagens; e os bens deles
nada valerão e serão também eles obrigados a fugir, perdendo muito, senão tudo.
- E em troca?
- Tu lhes darás vales que vencerão juros e pagarás os vales emcerto prazo.
- Mas...
Nada objetes, meio do meu sangue de Sepetai, mas meu sobrinhointeiramente. Não
sabes o que é a cobiça; não sabes o que é querer terdinheiro sem trabalhar.
Eles aceitarão na certa e, não sendo ricos em breve precisarão de dinheiro. Eu
vou pôr um "bazar" com o saco de cequins d'ouro que te resta e farei
saber que desconto esses vales teus, em dinheiro ou em mercadoria. O pouco
dinheiro que tens atrairá o deles, tu comprarás tâmaras, mas pagarás em vales
que vencerão o juro de dois por cento, mas que eu descontarei a vinte, trinta e
mais por cento.
- Se não quiserem descontar, tio que és sábio como o maissábio dos ulemás, como
há de ser?
- Tens o dinheiro dos teus parentes. Em começo, pagarás tudoem dinheiro. Mas
teus parentes, precisando de dinheiro, irão, como tedisse, procurar-me. Eu os
atenderei imediatamente. A fama correrá eninguém temerá receber os teus vales.
- Compreendo. E as tâmaras?
- Irás vendendo a bom preço e guardando o dinheiro, deixandoque uma grande
parte apodreça. Tu viverás na pompa, na grandeza,e um belo dia, em vez de eu
descontar vales, adquiro-os com ágio. Toda a gente quererá os teus vales e
encheremos as arcas de dinheiro.
- E no fim, no pagamento, como será?
- Marcarás um prazo longo, pela festa do Beirão, e daqui atélá teremos tempo de
agir.
Hussein Ben-Áli AI-Bálec empregou todas as lábias que lhe ensinou Miquéias
Habacuc. Seus tios e primos entregaram-lhe as economias, pois ficaram muito
contentes que ele se lembrasse de defendê-los, de impedir a ser completa a
miséria. Tio e sobrinho encheram os simplórios homens de todos os afagos, de
todas as blandícias, e iniciaram a defesa das tâmaras, que era a própria defesa
do vilaiete.
Um único não quis entregar as terras de pastagem. Foi o tio queherdara as
terras de pastagem. Dissera o velho:
- As tâmaras não são do gosto de todo o mundo e as que secolhem são de sobra
para os que gostam delas. Hão de se as vender barato por força, pois são
demais.
Hussein Ben-Áli AI-Bálec, porém, deu inicio à sua obra degrande eficácia para
todo o vilaiete, ostentando uma riqueza, um luxo e uma magnificência que
reduziram, fascinaram a imaginação do povo do lugar e das circunvizinhanças.
O seu palácio foi aumentado; as suas estrebarias ficaram cheias de soberbos
ginetes do Hedjaz, nas suas piscinas só corriam águas perfumadas - tudo ficou
sendo um encanto no seu alcâçar e dependências.
A fama de sua riqueza corria por toda a parte e até, em Argel, abranca, a
guerreira, seu nome era falado. Dizia a boca do povo:
- Se todos fossem como Hussein Ben-Ali AI-Bâlec conquistaríamos todo o Magreb,
expulsando os rumes.
O seu crédito ficou sendo tal que todo o dinheiro que havianaquelas terras
entrou para as suas arcas.
As tâmaras subiram de preço, de fato; mas pouco. Entretanto,enquanto vendia um
terço, guardava dous. Miquéias Habacuc exultava, com os descontos que fazia e
com o dinheiro que era trazido para as mãos do sobrinho. Só a irmã, a feroz
Salisa, temia o fim e perguntava ao irmão:
- Como pagaremos tantos vales, se já gastamos o dinheirodeles e temos mais
tâmaras guardadas que vendidas?
- Cala-te, irmã que és minha. Ai é que está a minha grandesabedoria.
O dinheiro amoedado desapareceu e os vales de Hussein corriamcomo moeda. No
começo equivaliam ao seu valor em cequins; mas,bem depressa, para se comprar
com eles um saas de trigo, tinha-se de gastar o duplo do que se gastava
antigamente. O povo começava adesconfiar, quando veio rebentar a guerra de
Abdelcáder, emir deMascara. Andava ele precisando de homens e víveres. O emir,
que sabia do prestígio de Hussein naquele vilaiete, oferece-lhe alguns milhares
de libras turcas, para que mandasse homens.
Miquéias, que sabe do caso, intervém, e propõe que o sobrinhoaceite, contanto
que o emir lhe compre as tâmaras. O emir acede,paga as mil libras turcas,
compra as tâmaras de que não precisava.
E Hussein convence os parentes que devem partir para osgoums. Para isso falou
como um santo marabute.
Antes da festa do Beirão, época que era marcada para o vencimento dos vales,
fugia, com a mãe, a feroz Salisa, o tio MiquéiasHabacuc, homem hábil e esperto
em negócios - cheios todos deouro, ricos de apodrecer.
No vilaiete a população caiu na miséria, menos aquele tio deHussein Ben-Áli
Al-Bálec, que não quis entrar na defesa das tâmaras.
Durante muito tempo, pastoreou as suas ovelhas e tosou os seuscarneiros. Os
seus netos ainda hoje fazem a mesma cousa naquelelugarejo argelino, onde as
inocentes tamareiras, se não constituem objeto de maldição, são tidas como
simples árvores de adorno.
AGARICUS AUDITAEA
João Luis Ferreira
Alexandre Ventura Soares tinha seus vinte e cinco anos,bacharel em ciências
físicas e naturais, era preparador do Museu de História Natural, cargo que,
obtido em concurso, lhe dera direito a uma viagem à Europa, nos tempos em que
as subvenções para issolargamente se distribuíam, razão pela qual eram
eqüitativa e sabiamente feitas. De volta, por acaso, viera a morar defronte de
umhomem de idade, venerável, que vivia, pelo jardim de sua vasta casa, a catar
pedrinhas no chão. Curioso com os trejeitos do homem, pôs-se a observá-lo, a
fim de descobrir o que significavam. Visou a Ásia e encontrou no caminho a
América. El Levante por el Poniente... Afilha do ancião, muito naturalmente,
pouco afeita a curiosidadessobre o seu jardim que não tivessem a ela por
objeto, supôs que o doutor estivesse apaixonado por ela. Nenê, era o seu
apelido familiar, sabia que o rapaz era dado a cousas de botânica; que
pertencia ao museu; que o tratavam de doutor; logo não se podia tratar senão de
um médico.
A nossa mentecapta inteligência nacional, de que não fazemparte só as mulheres,
não admite que tratem de botânica senão osmédicos; e de matemática os
engenheiros; quando, em geral, nemuns nem outros se preocupam em tais cousas.
Ela, porém, vivendo em círculo restrito, não tendo estudos especiais, convivências
outras que não essa da sociedade, fossilizadas decérebro e com receitas de
formulário na cabeça, não podia ter outra opinião que a geral na nossa terra,
de cima a baixo. Aquele moço era por força doutor em medicina ou, no mínimo,
estudante. Quando soube que não, teve uma ponta de despeito; e custou-lhe a
crer que fosse tão formado como outro qualquer doutor. Foi o próprio pai quem a
convenceu.
Oh! filha! filha! Pois não sabias disso? Pois eu estimo muito saber que tenho
na vizinhança um sábio.
O desembargador Monteiro, pai da Nenê, estava aposentado etinha a mania da
mineralogia. Ele mal conhecia o primeiro sistema de cristalografia; mas não lhe
deixava a teima. Tinha um laboratório onde não havia nem uma balança de Jolly,
nem um maçarico, nemum bico de Bunsen, nem um reativo, nem um pedaço de
carvãovegetal; mas quando mostrava aos visitantes, exclamava ufano:
- Vejam como tenho livros! Vejam! Tenho o Haüy, as suas duasobras; a Estrutura
dos cristais e a Mineralogia, primeiras edições...Olhem aqui Delafosse! Seis
volumes! Hein?
E assim mostrava toda a sua biblioteca de mineralogia sistemática e descritiva.
Chegava a um canto, onde havia uma pequena bigornade ourives, montada em um
forte soco de pau, tendo a um dos lados um pesado martelo de carpinteiro; e
observava:
- É aqui que trabalho há anos... Ainda não consegui isolar umagranada de
granito... No entanto, eu as vejo em quase todas as pedras da rua sobre que
ponho os pés.
Foi esta mania de procurar granadas nas pedras da rua quechamou a atenção do
jovem naturalista seu vizinho. Se Monteirolobrigava uma granada por menor que
fosse, nas pedras soltas do seu caminho, logo apanhava o pedregulho, levando-o
para casa, emartelava-o naquela bigorna de fazer pulseiras, à cata da pedrinha
vermelha-rubra; mas, fosse por isso ou por aquilo, a granada seescafedia e o
nosso mineralogista ficava desolado. Só os paralelepípedos do pavimento das
ruas lhe escapavam; mas, assimmesmo, quando estivessem ajustados aos outros; se
soltos, ele pagava a algum moleque para levar um ou outro à sua casa.
Sua filha, dona Nenê, ficou muito contente; e o jovem botanistanão teve nenhuma
dificuldade em obter a sua mão. O velho desembargador disse-lhe unicamente:
- Bem. Não há dúvida. O doutor tem com certeza um futurobrilhante; mas, ainda
não demonstrou para que veio ao mundo. Jáescreveu uma "memória"?
- Não, senhor.
- Faz mal. Na Alemanha, é muito usado... A "memória"
demonstrasagacidade para o novo, para o detalhe inédito, inexplorado, umponto
de vista que houvesse escapado aos sábios e grandes mestres... Eu queria que
meu futuro genro merecesse minha filha dessamaneira, porque, na Alemanha...
- Mas o senhor desembargador há de me permitir uma pergunta?
- Pois não.
- A que sociedade ou academia deveria eu apresentar a minhamemória?
- Não há negá-lo: a sua objeção procede. Não havendo entre nósacademias
especiais a semelhantes ciências, havia, portanto, embaraço em achar quem
julgasse o mérito ou demérito do seu trabalho. As que há, ou são de uns
ignorantes literatos que nunca viram uma granada em uma pedra, ali, da pedreira
no rio Comprido, ou são formadas por uns médicos faladores que têm pretensões a
literatos. Mas... acontece que os senhores não conhecem bem o Brasil, senão
saberiam que existe uma academia respeitável e egrégia, não só pelos vários
ramos de ciências naturais nela cultivados, como também pelo número de sábios
mortos e vivos a ela pertencentes, que mereciam ser conhecidos pelo senhor que
governa a sua mocidade nobre pela inteligência e pelo estudo. Então não conhece
o senhor a "Academia dos Esquecidos"?
- Não!
- É de admirar! Pois, creia-me, dela, além dos atuais, fizeram efazem parte
ainda: Alexandre Ferreira, Conceição Veloso, Gomes de Sousa, o doutor José
Mauricio Nunes Garcia, Domingos Freire, Tito Lívio de Castro, Morais e Vale,
José Bonifácio...
-José Bonifácio, dos Esquecidos!
- Sim! Aquele mineralogista que depois foi político. E como não?
- Ah!
- Compreende-me, agora? Pois bem. Atualmente, presido eu aacademia, disse o
desembargador com ênfase; e espero que, comoum paladino, ofereça à sua noiva a
árdua vitória de fazer parte dela: Está aqui a minha mão, Nenê...
Os três sábios despediram-se tocantemente; faltou porém, oquarto sábio. Talvez
fosse o único que não levasse n'alma enganocego; mas a pequena levou, creio,
durante o primeiro ano.
Na rua, monologava Soares: um caso novo, um detalhe original,onde hei de
buscá-los? Fui bom estudante e, talvez, por isso, nunca supus que, na ciência,
houvesse novidade. Tudo já estava feito e, quando não estava, quando se queria
cousa nova, compravam-se asrevistas estrangeiras e lá estava a cousa
digeridinha. E - que diabo! - para que havia eu de aumentar a dificuldade dos
estudantes? Nãobastavam os europeus, os tais alemães? Já que era preciso
descobrir ou inventar para casar, vá lá! Mas não era já suficiente ser
"doutor" para casar? Ainda mais esta! Até o que se havia de pedir
para casar bem! Ora bolas! Estou quase desistindo... Não! É preciso ter-se urna
posição decente na sociedade, um bom casamento, se não rico, pelo menos
semi-rico... Se não descubro, forjico qualquer cousa e a ciência que se
amole... A ciência é um enfeite; é assim como este anel de safira.
E olhou para a pedra quase tão dura como o diamante, a qualnão esmaeceu em nada
ao seu olhar feroz de cupidez...
Resolveu-se Soares a escrever sobre mineralogia: Rochasmetamórficas do Brasil
ou O veio de petrossílex do Corcovado; mas isto, considerava, não é novo e
muito menos é meu. O jovem sábio foidormir, julgando ter perdido a menina rica,
a importância de genro do desembargador Monteiro, e a sua entrada na Academia
dos Esquecidos.
Buffon afirmou alhures que alguns volumes da sua monumentalHistória natural,
ele os devia ao seu criado. Soares deveu a sua"memória" e a sua
felicidade ao seu criado José. Despertou-o este bem cedo, muito a contragosto
dele. Leu os jornais, de princípio a fim; leu a notícia dos rolos que houvera
no Teatro Lírico, tomou outra xícara de café, fumou e, de súbito, sentou-se à
mesa e escreveu em bastardo:
Agaricus auditae
Mais em baixo, ao lado direito, pôs à guisa de epígrafe:
Memória apresentada à Academia dos Esquecidos, secular evetusta como as demais
congêneres, pelo bacharel em ciências físicas e naturais da Escola Politécnica
do Rio de Janeiro AlexandreVentura Soares.E então começou:
"Senhores Acadêmicos. Seduziu-me desde moço a doutrina darwiniana; e eu,
com Lyell, a sorvi em grandes haustos na sua aplicação à geologia. Concordei
que o mundo atual era resultante e resultado de várias, lentas, pequeninas
transformações seriadas cujos termos não têm origem; com Huxley, depois daquela
sua célebre demonstração por que tem passado o cavalo através das idades (T.
Huxley- L'Évolution et l'origine des espèces - tradução francesa., 1892, págs.
232 e segs.) - com Huxley, dizia, acreditei que o Megatherium e o mamute, como
plenipotenciários seus, tivessem acreditado entre nós a hórrida preguiça e o
informe elefante. Sustentei que, sob o império inexorável da seleção natural e
da adaptação ao meio, marchássemos nós, pedras e homens, nessa sucessão de
modificações, passo moroso e graduado com que vai a variável, de estádio em
estádio, se aproximando do limite para nunca atingi-lo, como nós para o nosso
perfeito destino desconhecido (Haeckel, passim)".
- Bem começado! exclamou o nosso Alexandre. Os períodosse sucedem como uma
falange de teoremas e deles tirarei legiões decorolários. Festina lente.. Mas
continuemos:
"E, certo nestas idéias, parecia impossível, e de fato é, que, em plena
vida contemporânea, existissem exemplares da fauna e da flora dos primórdios da
Terra. Houve, não obstante ser inconseqüente com os verdadeiros princípios da
ciência, alguém que pretendeu ter visto fósseis 'vivos', mas, se é possível
isto no mundo das inteligências, fora do mundo do pensamento, tal como o dos
artistas, dos poetas, dos soclólogos, dos escritores, dos arquitetos, dos
jornalistas, dos músicos, tal não permite a evolução em geral".
"Deveis lembrar-vos, senhores acadêmicos, dos Pterodactyluslongisrostris,
que alguns viajantes (poetas naturalmente) julgaramlobrigar por entre as
florestas ralas da Nova Zelândia, mas que, após visitas de verdadeiros
cientistas, foram arrastados para a voragem dos desmentidos da excelsa
ciência".
Soares não se conteve e exclamou bem alto:
- Muito bem! Excelsa ciência! Admirável! Naturalmente odesembargador Monteiro
há de apreciar esta bela frase: excelsa ciência! Não há dúvida! Esta minha
memória traz no seu bojo toda umasíntese das minhas qualidades e das minhas
audácias fáceis!Assentarei a minha fama de naturalista; entrarei para a
Academia dos Esquecidos; demonstrarei o vigor do meu estilo e, por cima de
tudo, uma pequena semi-rica! Arre! Como é bom ter-se um bom curso naEscola
Politécnica do Rio de Janeiro! Nenê, como te amo! Socorre-me nesse transe, como
me vais socorrer a vida toda! A mulher foi feita para sustentar homem... Aquele
burro do Comte! Era por isso queele detestava a geologia, a paleontologia!
Burro! Nenê!... E não é que estou mesmo parecendo o Paulo, o tal da Virgínia?
Ora bolas!Adiante:
"II - Amigo meu e consumado sábio, J. C. Kramer, exímio geólogo e
professor da mesma cadeira da Harvard University, USA, em conversa comigo, há
dias, no Museu de História Natural desta capital - conversa amável de sábios -
comunicou-me que, há tempos, porocasião de estudar, no Rio de Janeiro, a
hipótese da glaciação do Brasil", de Agassiz, observou vegetando nesta
cidade de assaz estranha casta de tortulhos - a que as crianças chamam
'mijo-de-sapo' e'orelha-de-burro' que ele julgava, apesar do disparatado dos
caracteres, exemplares da flora do período triássico da época secundária.
"Óbvio será dizer-vos, senhores acadêmicos, que uma tal comunicação me
encheu de imenso júbilo, patriótico e científico.
"Cavaqueando comigo o doutor Kramer, da Harvard University,USA,
admirava-se, sorrindo com mofa e desculpando-se amável, que, vivendo os tais
cogumelos tão próximos dos nossos estabelecimentos de ciências, não houvéssemos
ainda notado a sua singular estrutura. É bastante explicável - desculpava-se
agora mal - vosso país é muito novo. E, na continuação da palestra, não se
media, ás vezes, de contentamento e satisfação. Deixava sempre transparecer
nesses sentimentos a utilidade científica da perspicácia e subtileza do sábio
yankee; e o que parecia acrescer ainda mais a sua maligna satisfação, era que
tais Agaricus fossem além dos nomes das crianças que tinham, também conhecidos
vulgarmente por 'diletantes', nome que, dado o seu explicável e previsto mau
ouvido para as línguas do sul da Europa, creio tratar-se de dilettanti"
Nisto, o José chega á porta do gabinete do sábio Alexandre e grita:
- "Seu dotô"! O almoço na mesa!
- Oh! Já?
Olhou o relógio na parede e concordou:
- Você tem razão... E verdade! Já são dez horas... Almoço, vouao museu,
consulto as notas da besta do Kramer e, antes do fim do mês, tenho a
"pequena" e o resto... E, se alguns céticos, pessimistase despeitados
disserem que a ciência, no Brasil, não leva longe, nãodá fortuna,
independência, eu posso dizer bem alto: aqui estou eu!
E bateu, com força, no peito, como se dissesse para a escolta dofuzilamento:
atirem que eu não preciso de ficar amarrado, nem vendado. Sei morrer!
No dia seguinte, completamente armado com as notas dofamoso geólogo yankee, o
notável brasileiro Alexandre VenturaSoares, homem grave e sábio, tanto mais
grave e mais sábio por ser jovem, continuou a sua memória casamenteira assim:
"III - O habitat de tais 'orelhas-de-burro', como lhes chamam as crianças
do Rio de Janeiro, é um barracão úmido e quente que fica ao sopé do morro de
Santo Antônio, no centro da cidade, e serve as mais das vezes de depósito de
jornais europeus de modas e jóias de aluguel que correm, em vários corpos, as
capitais de segunda ordem do globo, exibindo-as como riquezas próprias".
- Diabo! exclamou Soares, compulsando as notas. Este Kramertem cada idéia! Isto
é impossível! Adiante, pois é preciso! Enfimponho umas aspas e vai a cousa por
conta dele:
"Convém - e com humildade vos peço, senhores acadêmicos- que vos esqueçais
(não fôsseis Esquecidos) das mais comezinhasnoções de botânica, pois o nosso
excêntrico sábio vai desvendarórgãos pouco fáceis de aceitar em 'mijos-de-sapo'
"
- Está salva a minha responsabilidade, monologou o notávelpreparador do Museu
de História Natural. Vamos! E preciso nãoesquecer o teu ideal científico! A
Nenê está ali! Vamos! Esta "memória" é a tua sorte grande!E tomando
fôlego, continuou:
"Eles deveriam ser análogos aos criptógamos que formavamcom outros a flora
do período carbonífero; e, para justificar isto, encontraram-se entre eles
alguns exemplares do Lepidodendronelegans, do gênero Atanephae.
"Parecia a pessoas pouco versadas em geologia e paleontologia,que tais
criptógamos não alcançassem, nos nossos dias, mais do que alguns centímetros de
altura; mas, a vós, que delas sabeis mais do que eu, não parecerá estranho que
afirme tê-los visto com 1,50 m e 1,80 m de altura.
"Sob a forte objetiva de um microscópio de Zeiss, encontrou odoutor
Kramer, na parte mínima do disco superior que possuem tais tortulhos, alguma
cousa semelhante ao cérebro humano.
"Analisando esse pedacito de cabeça pacientemente, com apaciência
característica de um professor da Harvard College, se lhe depararam, ao doutor
Kramer, coroando as suas fatigantes pesquisas, em estado rudimentar, os nervos
óptico, auditivo, olfativo, gustativo etc. e, de todos esses, o mais rudimentar
e grosseiro, era o auditivo. Usando, então, de um paradoxo fácil, o sábio de
Cambridge (USA)denominou-os cogumelos auditivos (Agaricus auditae).
"Das bossas (o singular Kramer ainda admite a teoria de Gall),só lhes
restava a da memória. As funções da vida vegetativa tinhamneles um completo e
pleno desenvolvimento, tanto assim que, apesar de agáricos, sabiam comer
demasiadamente.
"O que toma tais cogumelos dignos de nota, além de outros caracteres -
observa o doutor Kramer -, é que possuem sexos. Há-osmachos e os há fêmeas.
Embora fiel aos ditames da ciência, no entretanto, por honestidade científica,
julgo-me obrigado a transcrever aqui essa blasfêmia. Mas, se ela foi irrogada à
ciência, por um sábio com o distinto professor do Harvard University, claro é
que nós não devemos senão acatá-la, embora assim parecendo ser. Se não
nosparece verdade inconcussa, partindo de onde parte, néscios comosomos, temos
o dever de tomá-la como tal.
"Diz o professor americano que há os exemplares de uma coloração negra,
intensamente negra, tendo na parte superior um canudo também negro, lustroso,
como uma espécie de rabo de ave - são osmachos; e os outros claros, róseos,
cabeludos, seminus, cheios de pedrarias - são as fêmeas.
"Nessas diferenças, todas superficiais, que o extraordinário professor
julga traduzirem sexos, no choque delas, no seu atrito é que reside a agitação,
a fermentação daquele principado vegetal dosAgaricus auditae.
"Tocando isto à sociologia dos 'orelhas-de-burro', em que nãosou versado,
não me animo a discutir a questão e adio o debate para mais tarde..."
- Que é, José?
- Esta carta da casa do doutor Monteiro.
O criado retirou-se e o sábio, apud Kramer, abriu o bilhete e leu:"Meu
querido:
Já não apareces, não te vejo mais. Deixa essa história de memória'. Papai é
maníaco, isto não é preciso. É melhor que arranjes um soneto, uns versos,
enfim, que talvez façam o mesmo efeito; e, se quiseres, manda-los-ei fazer por
um poeta discreto que anda na precisão de dez mil-réis. Queres? Que tal?
Responde.
Nenê".
O sábio Alexandre, luzeiro da ciência brasileira, respondeu:Nenê.Tem fé em mim
e na Ciência.Alexandre".
Em seguida, o original cientista Ventura considerou de si para si:
- Bem, por hoje, basta. Amanhã irei determinar a origem e, nosábado, lerei a
memória ao desembargador; e, ainda, não foram passados dous meses! A ciência
brasileira tem os seus lados notáveis e singulares - continuou Alexandre na sua
meditação - e um deles é essa presteza nos seus trabalhos. Isto é devido ao
fato que, para os outros sábios, o objeto da ciência está no mundo, exigindo
pesquisas, observações e experiências demoradas; nós, porém, pouco nos
importamos com o mundo. Há livros; fazemos ciência. Com eles, revistas,memórias
dos outros, sem ir diretamente á natureza, estudam-se detalhes, arquiteta-se
uma teoria nova que escapou aos grandes mestres das grandes obras. A questão é
combinar um com outro, emboraantagônicos... Oh! Este Brasil não é um país perdido!
E um grande país!
Na quinta-feira, tinha o nosso bacharel concluído a sua memóriae fé-lo de modo
feliz e completo. Ei-lo:
"IV - Escusado será dizer que, desde logo, procurei motivar edeterminar as
origens de tão estranha vegetação; e sem nada encontrar, já desesperava, quando
o acaso, constante amigo dos sábios, auxiliou-me eficazmente, como quando foi
ao encontro de Newton,com a maçã, e de Galileu, com a lâmpada da catedral de
Pisa.
"V- Há um ano pouco mais, andando eu na Itália, em comissãodo governo, vi,
na praia de Nápoles onde flanava, brotando sobre unsandrajos sujos e
abandonados de um lazzarone, uns cogumelos deum cromatismo vário e minúsculos.
Naturalista, impressionaram-meeles e tive o capricho de trazer a policrônica
aglomeração dospequeninos tortulhos, com os competentes andrajos, para o Rio
deJaneiro. Aqui chegado, depositei-os em um quarto contíguo ao do meu criado
José, que, ora tocando em uma flauta de bambu ou em sanfona valsas e polcas
mais em voga; ora, lendo noticias de fitas de cinema, distraía-se, sem
esquecer, de quando em quando, de entoar com indecifrável voz, árias das óperas
da moda, que ele ouvia trauteadas pelas ruas. Sem que tal saiba bem explicar, a
não ser a flauta, o cantochão as crônicas do José, as 'orelhas-de-burro' napolitanas
começaram amedrar, a crescer e têm atualmente quase meio metro de altura.
"VI - Atributo, portanto, senhores acadêmicos Esquecidos, aosportentosos
Agaricus do doutor Kramer as mesmas origens que osmeus e o seu desenvolvimento
às mesmas causas que os daqueles trazidos por mim da Itália, tanto mais que
perto do habitat dos primeiros existe a banda de música da Brigada Policial e o
Teatro Lírico".
O doutor Alexandre Ventura Soares, bacharel em ciências físicase naturais pela
Escola Politécnica do Rio de Janeiro, preparador, porconcurso, do Museu de
História Natural do Rio de Janeiro, terminando a memória, levou-a ao
desembargador Monteiro que gastou seismeses em lê-la e meditar sobre ela. Ao
fim dos quais, mandou chamá-lo e, logo que veio, apresentando-o à filha, assim
falou:
- Nenê, é este o teu noivo que, pelo seu talento e pela suaerudição, acaba de
penetrar na Academia Brasileira dos Esquecidos. Casados, desejo que vocês
continuem o número deles, para grandeza e fama do Brasil.
Casaram-se e a primeira cousa que fizeram, graças ao dote dela,foi comprarem um
chalé na "curiosa floresta" dos Agaricus auditae.
ADÉLIA
- A nossa filantropia moderna feita de elegância e exibições édas cousas mais
inúteis e contraproducentes que se pode imaginar.Entre todas as pessoas do povo
aqui, no Rio de Janeiro, há uma condenação geral para as raparigas que se
casam, no dia de santa Isabel, e saem da Casa de Expostos. Isto se dá para uma
casa semi-religiosa, que só visa, penso eu, não a felicidade terrena, mas o resgate
de almas das garras do demônio. Agora, imagina tu o que de transtorno na vida
de tantos entes não vão levar esses "dispensários", essas creches
etc. que lhes amparam os primeiros anos de vida e, depois, os abandonam à sua
sorte!... Antes a sala do banco da Misericórdia que receita remédios de uma cor
única e cuja dieta só varia na inversão dos pratos... É sempre a mesma... Essa
caridade é espúria e perversa... Antes deixar essa pobre gente entregue á sua
sorte...
- És mau... E impossível que ela não aproveite muitos.
- Alguns, talvez; mas muitos, ela estraga e desvia do seu destino, que talvez
fosse alto. Nélson legou Lady Hamilton à Inglaterra; e tu sabes quais foram os
começos dela. Chegaria até isso se andasse em creches, dispensários?
- Não sei; mas não nos devemos guiar por exceções.
- É uma frase; mas vou contar-te uma história bem singela queespero não me
interromperás. Prometes?
- Prometo.
- Vou contar.
- Conta lá.
O narrador fez uma pausa e encetou vagarosamente:
- Quando a portuguesa Gertrudes, que "vivia" com o italianoGiuseppe,
um amolador ambulante, apresentou Adélia, sua filha, àsublimada competência do
doutor Castrioto, do dispensário, a criança era só um olhar. As pernas lhe eram
uns palitos, os braços descamados, esqueléticos, moviam-se nas convulsões de
choro sinistramente. Com tais membros e o ventre ressequido e a boca umedecida
de uma baba viscosa, a criança parecia premida por todas as forças universais,
físicase espirituais. O seu olhar, entretanto, era calmo. Era azul-turquesa,
edoce, e vago. No meio da desgraça do seu corpo, a placidez do seuolhar tinha
um tom zombeteiro. O doutor melhorou-a muito; mas,assim mesmo, até à puberdade,
foi-lhe o corpo um frangalho e oolhar sempre o mesmo, a ver caravelas ao longe
que a viessem buscar para países felizes. Depois de adolescente, porém, no fim
das grandes concentrações íntimas, o brilho hialino das pupilas
turbava-se,estremecia. Ninguém descobriu-lhe o olhar - quem repara no olharde
uma menina de estalagem? Olham-se-lhe as formas, os quadris eos seios; ela não
os tinha opulentos, contudo casou-se. O casamentorealizou-se a pé e a garotada
assoviou pelo caminho. A noiva comcalma estúpida olhou-os. Por quê? Casava-se a
pé; era ignóbil. Opadrinho não lhe notou modificação sensível. Não chorara,
nãosoluçara, não tremera; unicamente mudou num instante de olhar, que ficou
duro e perverso. O primeiro ano de casamento fez-lhe bem. A intensa vida sexual
arredondou-lhe as formas, disfarçou as arestas e as anfractuosidades -
emprestou-lhe beleza. Demais, o ócio desseprimeiro ano afinou-a, melhorou-a;
mas sempre com aquele olharfora do corpo e das cousas reais e palpáveis. No fim
de dois anos de casada, o marido começou a tossir e a escarrar, a escarrar e a
tossir. Não trabalhava mais. Adélia rogou, pediu, chorou. Andou por aqui e por
ali. Encontrou alguém amável que a convidou:
- Vamos até lá, é perto.
- Ó... Não... "Ele"...
- "Ele"!... Vamos!... "Ele" não sabe; não pode mais. Vamos.
"Foi, e foi muitas vezes; mas sempre sem pesar, sem compreender bem o que
fazia, à espera das caravelas sonhadas.
Ia e voltava. O marido tossia e tomava remédios.
- Trouxeste?
- Sim; trouxe.
- Quem te deu?
- O doutor.
- Como ele é bom.
"Aos poucos, infiltravam-se-lhe gostos novos. Um sapato deabotoar, um chapéu
de plumas, uma luva... Morreu o marido. O enterro foi fácil e o luto ficou-lhe
bem. O seu olhar vago, fora dos homens e das cousas, atravessava o véu negro
como um firmamento com umaúnica estrela no engaste de um céu de borrasca. Um
ano depois corria confeitarias, à tarde; mas o seu olhar não pousava nunca nos
espelhos e nas armações. Andava longe dela, longe daqueles lugares.
- Toma vermute?
- Sim.
- É melhor coquetel.
- É.
- Antes cerveja.
- Vá cerveja.
Não custou a embriagar-se um dia. Meteram-lhe num carro.Estava que nem uma
pasta mole e desconjuntada.
- Que tem você?
- Nada, não vejo.
- Você por que não abre mais os olhos?
- Não posso, não vejo!
- Lá vão os Fenianos... Você não vê?
- Ouço a música.
Teve carros. Freqüentou teatros e bailes duvidosos, mas seuolhar sempre saía
deles, procurando coisas longínquas e indefinidas.Recebeu jóias. Olhava-as.
Tudo lhe interessou e nada disso amou.Parecia em viagem, a bordo. A mobília e a
louça do paquete não lhe desagradavam; queria a riqueza, talvez; mas era só.
Nada se acorrentava na sua alma. Correu cidades elegantes e as praias.
- Hoje, ao Leme.
- Sim, ao Leme.
A curva suave da praia e a imensa tristeza do oceano prendiam-na. Defronte do
mar, animava-se; dizia cousas altas que passavam pelas cabeças das
companheiras, cheias de mistério, como o vôo longo de patos selvagens, à hora
crepuscular.
Veio um ano que se examinou. Estava quase magra, quaseesquálida. Foi-se fanando
dai por diante. Diminuíram-se-lhe as jóias e os vestidos. Morreu aos trinta e
poucos anos como a criança que se fora: um frangalho de corpo e um olhar vago e
doce, fora dela e das cousas. Que é que adiantou o dispensário?"
Calou-se o que narrava, e o outro só soube dizer:
- Vou-me embora... Até amanhã.
O FEITICEIRO E O DEPUTADO
Nos arredores do "Posto Agrícola de Cultura Experimental dePlantas
Tropicais", que, como se sabe, fica no município Contra-Almirante Doutor
Frederico Antônio da Mota Batista, limítrofe donosso, havia um habitante
singular.
Conheciam-no no lugar que, antes do batismo burocrático, tivera o nome doce e
espontâneo de Inhangá, por "feiticeiro"; o mesmo certa vez a ativa
polícia local, em falta do que fazer, chamou-o a explicações. Não julguem que
fosse negro. Parecia até branco e não fazia feitiços. Contudo, todo o povo das
redondezas teimava em chamá-lo de "feiticeiro".
É bem possível que essa alcunha tivesse tido origem no mistériode sua chegada e
na extravagância de sua maneira de viver.
Fora mítico o seu desembarque. Um dia apareceu numa daspraias do município e
ficou, tal e qual Manco Capac, no Peru,menos a missão civilizadora do pai dos
incas. Comprou, por algumas centenas de mil-réis, um pequeno sitio com uma
miserável choça,coberta de sapê, paredes a sopapo; e tratou de cultivar-lhe as
terras, vivendo taciturno e sem relações quase.
À meia encosta da colina, o seu casebre crescia como umcômoro de cupins; ao
redor, os cajueiros, as bananeiras e as laranjeiras afagavam-no com amor; e cá
embaixo, no sopé do morrote, em tomo do poço de água salobra, as couves
reverdesciam nos canteiros, aos seus cuidados incessantes e tenazes.
Era moço, não muito. Tinha por aí uns trinta e poucos anos; eum olhar doce e
triste, errante e triste e duro, se fitava qualquer cousa.
Toda a manhã viam-no descer à rega das couves; e, pelo dia emfora, roçava,
plantava e rachava lenha. Se lhe falavam, dizia:
- "Seu" Ernesto tem visto como a seca anda "brava".
- É verdade.
- Neste mês "todo" não temos chuva.
- Não acho... Abril, águas mil.
Se lhe interrogavam sobre o passado, calava-se; ninguém se atrevia a insistir e
ele continuava na sua faina hortícola, à margem da estrada.
À tarde, voltava a regar as couves; e, se era verão, quando astardes são
longas, ainda era visto depois, sentado à porta de suachoupana. A sua biblioteca
tinha só cinco obras: a Bíblia, o DomQuixote, a Divina comédia, o Robinson e o
Pensées, de Pascal. Oseu primeiro ano ali devia ter sido de torturas.
A desconfiança geral, as risotas, os ditérios, as indiretas certamente
teriam-no feito sofrer muito, tanto mais que já devia ter chegado sofrendo
muito profundamente, por certo de amor, pois todo sofrimento vem dele.
Se se é coxo e parece que se sofre com o aleijão, não é bem esteque nos provoca
a dor moral: é a certeza de que ele não nos deixa plenamente...
Cochichavam que matara, que roubara, que falsificara; mas apalavra do delegado
do lugar, que indagara dos seus antecedentes,levou a todos confiança no moço,
sem que perdesse a alcunha e a suspeita de feiticeiro. Não era um malfeitor;
mas entendia de mandingas. A sua bondade natural para tudo e para todos acabou
desarmando a população. Continuou, porém, a ser feiticeiro, mas feiticeiro bom.
Um dia Sinhá Chica animou-se a consultá-lo:
- "Seu" Emesto: viraram a cabeça de meu filho... Deu "pa
bebê"... "Tá arrelaxando"...
- Minha senhora, que hei de eu fazer?
- O "sinhô" pode, sim! "Conversa cum" santo...
O solitário, encontrando-se por acaso, naquele mesmo dia, com ofilho da pobre
rapariga, disse-lhe docentemente estas simples palavras:
- Não beba, rapaz. É feio, estraga - não beba!
E o rapaz pensou que era o Mistério quem lhe falava e nãobebeu mais. Foi um
milagre que mais repercutiu com o que contou o Teófilo Candeeiro.
Este incorrigível bebaço, a quem atribuíam a invenção do tratamento das sezões,
pelo parati, dias depois, em um cavaco de venda, narrou que vira, uma tardinha,
aí quase pela boca da noite, voar do telhado da casa do "homem" um
pássaro branco, grande, maior doque um pato; e, por baixo do seu vôo rasteiro,
as árvores todas se abaixavam, como se quisessem beijar a terra.
Com essas e outras, o solitário de Inhangá ficou sendo como umpríncipe
encantado, um gênio bom, a quem não se devia fazer mal.
Houve mesmo quem o supusesse um Cristo, um Messias. Era aopinião do Manuel
Bitu, o taverneiro, um antigo sacristão, que dava a Deus e a César o que era de
um e o que era de outro; mas o escriturário do posto, "Seu" Almada,
contrariava-o dizendo que se o primeiroCristo não existiu, então um segundo!...
O escriturário era um sábio, e sábio ignorado, que escrevia emortografia
pretensiosa os pálidos ofícios, remetendo mudas de laranjeiras e abacateiros
para o Rio.
A opinião do escriturário era de exegeta, mas a do médico erade psiquiatra.
Esse "anelado" ainda hoje é um enfezadinho, muito lido emlivros
grossos e conhecedor de uma quantidade de nomes de sábios;e diagnosticou: um
puro louco.
Esse "anelado" ainda hoje é uma esperança de ciência...
O "feiticeiro", porém, continuava a viver no seu rancho sobranceiro a
todos eles. Opunha às opiniões autorizadas do doutor e do escriturário o seu
desdém soberano de miserável independente; e ao estulto julgamento do bondoso
Mané Bitu, a doce compaixão de suaalma tema e afeiçoada...
De manhã e à tarde, regava as suas couves; pelo dia em fora,plantava, colhia,
fazia e rachava lenha, que vendia aos feixes, aoMané Bitu, para poder comprar
as utilidades de que necessitasse.Assim, passou ele cinco anos quase só naquele
município deInhangá, hoje burocraticamente chamado -
"Contra-AlmiranteDoutor Frederico Antônio da Mota Batista".
Um belo dia foi visitar o posto o deputado Braga, um elegantesenhor, bem posto,
polido e céptico.
O diretor não achava, mas o doutor Chupadinho, o sábio escriturário Almada e o
vendeiro Bitu, representando o "capital" da localidade, receberam o
parlamentar com todas as honras e não sabiamcomo agradá-lo.
Mostraram-lhe os recantos mais agradáveis e pinturescos, aspraias longas e
brancas e também as estranguladas entre morrossobranceiros ao mar; os
horizontes fugidios e cismadores do alto das colinas; as plantações de
batatas-doces; a ceva dos porcos...
Por fim, ao deputado que já se ia fatigando com aqueles dias, apassar tão cheio
de assessores, o doutor Chupadinho convidou:
- Vamos ver, doutor, um degenerado que passa por santo oufeiticeiro aqui. E um
dementado que, se a lei fosse lei, já há muito estaria aos cuidados da ciência,
em algum manicômio.
E o escriturário acrescentou:
- Um maníaco religioso, um raro exemplar daquela espécie degente com que as
outras idades fabricavam os seus santos.
E o Mané Bitu:
- É um rapaz honesto... Bom moço - é o que posso dizer dele.
O deputado, sempre cético e complacente, concordou emacompanhá-los à morada do
feiticeiro. Foi sem curiosidade, antesindiferente, com uma ponta de tristeza no
olhar.
O "feiticeiro" trabalhava na horta, que ficava ao redor do poço,na
várzea, à beira da estrada.
O deputado olhou-o e o solitário, ao tropel de gente, ergueu obusto que estava
inclinado sobre a enxada, voltou-se e fitou os quatro. Encarou mais firmemente
o desconhecido e parecia procurar reminiscências. O legislador fitou-o também
um instante e, antes quepudesse o "feiticeiro" dizer qualquer cousa,
correu até ele e abraçou-o muito e demoradamente.
- És tu, Ernesto?
- És tu, Braga?
Entraram. Chupadinho, Almada e Bitu ficaram à parte e os doisconversaram
particularmente.
Quando saíram, Almada perguntou:
- O doutor conhecia-o?
- Muito. Foi meu amigo e colega.
- É formado? indagou o doutor Chupadinho.
- É.
- Logo vi, disse o médico. Os seus modos, os seus ares, amaneira com que se
porta, fizeram-me crer isso; o povo, porém...
- Eu também, observou Almada, sempre tive essa opinião íntima; mas essa gente
por aí leva a dizer...
- Cá para mim, disse Bitu, sempre o tive por honesto. Pagasempre as suas contas.
E os quatro voltaram em silêncio para a sede do "Posto Agrícolade Cultura
Experimental de Plantas Tropicais".
UMA NOITE NO LÍRICO
Poucas vezes, ia ao antigo Pedro II e as poucas em que lá fui,era das galerias
que assistia ao espetáculo.
Munido do competente bilhete, às oito horas, entrava, subia,procurava o lugar
marcado e nele mantinha-me, durante a representação. De forma que aquela
sociedade brilhante que eu via formigar nos camarotes e nas cadeiras, me
parecia distante, colocada muito afastada de mim, em lugar inacessível, no
fundo de cratera de vulcão extinto. Cá do alto, debruçado na grade, eu sorvia o
vazio da sala com a volúpia de uma atração de abismo. As casacas corretas, os
uniformes aparatosos, as altas toaletes das senhoras, semeadas entreeles,
tentavam-me, hipnotizavam-me. Decorava os movimentos, osgestos dos cavalheiros
e procurava descobrir a harmonia oculta entre eles e os risos e os ademanes das
damas.
Nos intervalos, encostado a uma das colunas que sustentam oteto, observando os
camarotes, apurava o meu estudo do hors-ligne,do distinto, com os espectadores
que ficavam nas lojas.
Via correrem-se-lhes os reposteiros, e os cavaleiros bemencasacados, juntarem
os pés, curvarem ligeiramente o corpo,apertarem ou mesmo beijarem a mão das damas
que se mantinhameretas, encostadas a uma das cadeiras, de costas para a sala,
com o leque em uma das mãos caídas ao longo do corpo. Quantasvezes não tive
ímpetos de ali mesmo, com risco de parecer doidoao polícia vizinho, imitar
aquele cavalheiro?
Quase tomava notas, desenhava esquemas da postura, dasmaneiras, das mesuras do
elegante senhor...
Havia naquilo tudo, na singular concordância dos olhares egestos, dos ademanes
e posturas dos interlocutores, uma relaçãooculta, uma vaga harmonia, uma
deliciosa equivalência que mais do que o espetáculo do palco, me interessavam e
seduziam. E tal era o ascendente que tudo isso tinha sobre o meu espírito que,
ao chegar em casa, antes de deitar, quase repetia, com o meu velho chapéu de
feltro, diante do meu espelho ordinário, as performances do cavalheiro.
Quando cheguei ao quinto ano do curso e os meus destinos meimpuseram, resolvi
habilitar-me com uma casaca e uma assinatura de cadeira do Lírico. Fiz
consignações e toda a espécie de agiotagemcom os meus vencimentos de
funcionário público e para lá fui.
Nas primeiras representações, pouco familiarizado com aquelemundo, não tive
grandes satisfações; mas, por fim, habituei-me.
As criadas não se fazem em instantes duquesas? Eu me fiz logohomem na
sociedade.
O meu colega Cardoso, moço rico, cujo pai enriquecera naindústria das
indenizações, muito concorreu para isso.
Fora simples a ascensão do pai à riqueza. Pelo tempo do governoprovisório, o
velho Cardoso pedira concessão para instalar unspoucos de burgos agrícolas, com
colonos javaneses, nas nascentes doPurus; mas, não os tendo instalado no prazo,
o governo seguinte cassou o contrato. Aconteceu, porém, que ele provou ter
construído lá um rancho de palha. Foi para os tribunais que lhe deram ganho de
causa, e recebeu de indenização cerca de quinhentos contos.
Encarregou-se o jovem Cardoso de me apresentar ao "mundo",de me
informar sobre toda aquela gente. Lembro-me bem que, certanoite, me levou ao
camarote dos viscondes de Jacarepaguá. A viscondessa estava só; o marido e a
filha tinham ido ao bufê. Era a viscondessa uma senhora idosa, de traços
empastados, sem relevoalgum, de ventre proeminente, com um pince-nez de ouro
trepadosobre o pequeno nariz e sempre a agitar o cordão de ouro que prendia um
grande leque rococó.
Quando entramos, estava sentada, com as mãos unidas sobre oventre, tendo o
fatal leque entre elas, o corpo inclinado para trás e acabeça a repousar sobre
o espaldar da cadeira. Mal desmanchou aposição em que estava, respondeu
maternalmente aos cumprimentos,e interrogou o meu amigo sobre a família.
- Não desceram de Petrópolis, este ano?
- Meu pai não tem querido... Há tanta bexiga...
- Que medo tolo! Não acha, doutor? dirigindo-se a mim.
Respondi:
- Penso assim também, viscondessa.
Ela ajuntou então:
- Olhe, doutor... como é a sua graça?
- Bastos, Frederico.
- Olhe, doutor Frederico; lá em casa havia uma rapariga... umanegra... boa
rapariga...
E, por aí, desandou a contar a história vulgar de uma pessoa quetrata de outra
atacada de moléstia contagiosa e não apanha a doença, enquanto a que foge vem a
morrer dela.
Depois da sua narração, houve um curto silêncio; ela, porém, oquebrou:
- Que tal o tenor?
- E bom, disse o meu amigo. Não é de primeira ordem, mas seo pode ouvir...
- Ah! O Tamagno! suspirou a viscondessa.
- O câmbio está mau, refleti; os empresários não podem trazernotabilidades.
- Nem tanto, doutor! Quando estive na Europa, pagava porum camarote quase a
mesma cousa que aqui... Era outra cousa! Quediferença!
Como houvessem anunciado o começo do ato seguinte, des-pedimo-nos. No corredor,
encontramos o visconde e a filha.Cumprimentamo-nos rapidamente e descemos para
as cadeiras.
Meu companheiro, segundo a praxe elegante e desgraciosa, nãoquis entrar logo.
Era mais chique esperar o começo do ato... Eu,porém, que era novato, fui
tratando de abancar-me. Ao entrar na sala,dei com o Alfredo Costa, o que me
causou grande surpresa, por sabê-lo, apesar de rico, o mais feroz inimigo
daquela gente toda.
Não foi durável o meu espanto. Juvenal tinha posto a casaca ecartola, para
melhor zombar, satirizar e estudar aquele meio.
- De que te admiras? Venho a este barracão imundo, feio,pechisbeque, que faz
todo o Brasil roubar, matar, prevaricar, adulterar, a fim de rir-me dessa gente
que tem as almas candidatas ao pez ardente do inferno. Onde estás?
Disse-lhe eu, ao que ele me convidou:
- Vem para junto de mim... Ao meu lado, a cadeira está vazia eo dono não virá.
E a do Abrantes que me avisou disso, pois, no fim do primeiro ato, me disse que
tinha de estar em certo lugar especial... Vem que o lugar é bom para observar.
Aceitei. Não tardou que o ato começasse e a sala se enchesse...Ele, logo que a
viu assim, falou-me:
- Não te dizia que, daqui, tu poderias ver quase toda a sala?
- É verdade! Bela casa!
- Cheia, rica! observou o meu amigo com um acento sarcástico.
- Há muito que não via tanta gente poderosa e rica reunida.
- E eu há muito tempo que não via tantos casos notáveis danossa triste
humanidade. Estamos como que diante de vitrinas de um museu de casos de
patologia social.
Estivemos calados, ouvindo a música; mas, ao surgir na boca deum camarote, à
minha direita, já pelo meio do ato, uma mulher, alta, esguia, de grande porte,
cuja tez moreno-claro e as jóias rutilantes saíam muito friamente do fundo
negro do vestido, discretamente decotado em quadrado, eu perguntei:
- Quem é?
- Não conheces? A Pilar, a "Espanhola".
- Ah! Como se consente?
- É um lugar público... Não há provas... Demais, todas as "outras" a
invejavam... Tem jóias caras, carros, palacetes...
- Já vens tu...
- Ora! Queres ver? Vê o sexto camarote de segunda ordem,contando de lá para cá!
Viste?
- Vi.
- Conheces a senhora que lá está?
- Não, respondi.
- É a mulher de Aldong, que não tem rendimentos, sem profissãoconhecida ou com
a vaga de que trata de negócios. Pois bem: há mais de vinte anos, depois de ter
gasto a fortuna da mulher, ele a sustenta como um nababo. Adiante, embaixo, no
camarote de primeira ordemvês aquela moça que está com a família?
- Vejo. Quem é?
É a filha do doutor Silva a quem, certo dia, encontraram, emuma festa
campestre, naquela atitude que Anatole France, num dosBergerets, diz ter alguma
cousa de luta e de amor... E os homensnão ficam atrás...
- És cruel!
- Repara naquele que está na segunda fila, quarta cadeira,primeira classe.
Sabes de que vive?
- Não.
- Nem eu. Mas, ao que corre, é banqueiro de casa do jogo. Eaquele general,
acolá? Quem é?
- Não sei.
- O nome não vem ao acaso; mas sempre ganhou as batalhas...nos jornais. Aquele
almirante que tu vês, naquele camarote, possuitodas as bravuras, menos a de
afrontar os perigos do mar. Mais além, está o desembargador Genserico...
Costa não pôde acabar. O ato terminava: palmas entrelaçavam-se,bravos soavam. A
sala toda era uma vibração única de entusiasmo.Saímos para o saguão e eu me pus
a ver todos aqueles homens emulheres tão maldosamente catalogados pelo meu
amigo. Notei-lhesas feições transtornadas, o tormento do futuro, a certeza da
instabilidade de suas posições. Vi todos eles a arrombar portas, arcas,
sôfregos, febris, preocupados por não fazer bulha, a correr à menorque fosse...
E ali, entre eles, a "Espanhola" era a única que me apareciacalma,
segura dos dias a vir, sem pressa, sem querer atropelar os outros, com o brilho
estranho da pessoa humana que pode e não seatormenta...
UM MÚSICO EXTRAORDINÁRIO
Quando andávamos juntos no colégio, Ezequiel era um franzinomenino de quatorze
ou quinze anos, triste, retraído, a quem osfolguedos colegiais não atraiam. Não
era visto nunca jogando "barra, carniça, quadrado, peteca", ou
qualquer outro jogo dentre aqueles velhos brinquedos de internato que hoje não
se usam mais. O seugrande prazer era a leitura e, dos livros, os que mais
gostava, eram os de Júlio Verne. Quando todos nós líamos José de Alencar,
Macedo, Aluísio e, sobretudo, o infame Alfredo Gallis, ele lia a Ilha
misteriosa, o Heitor Servadac, as Cinco semanas em um balão e, com mais afinco,
as Vinte mil léguas submarinas.
Dir-se-ia que a sua alma ansiava por estar só com ela mesma,mergulhada, como o
Capitão Nemo do romance vernesco, no seiodo mais misterioso dos elementos da
nossa misteriosa Terra.
Nenhum colega o entendia, mas todos o estimavam, porque erabom, tímido e
generoso. E porque ninguém o entendesse nem as suasleituras, ele vivia consigo
mesmo; em quando não estudava as liçõesde que dava boas contas, lia seu autor
predileto.
Quem poderia pôr na cabeça daquelas crianças fúteis pela idadee cheias de
anseios de carne para a puberdade exigente, o sonho queo célebre autor francês
instila nos cérebros dos meninos que seapaixonam por ele, e o bálsamo que os
seus livros dão aos delicadosque prematuramente adivinham a injustiça e a
brutalidade da vida?
O que faz o encanto da meninice não é que essa idade seja melhorou pior que as
outras. O que a faz encantadora e boa é que, duranteesse período da existência,
nossa capacidade de sonho é maior e maisforça temos em identificar os nossos
sonhos com a nossa vida. Penso, hoje, que o meu colega Ezequiel tinha sempre no
bolso um canivete,no pressuposto de, se viesse a cair em uma ilha deserta,
possuir à mãoaquele instrumento indispensável para o imediato arranjo de sua
vida; e aquele meu outro colega Sanches andava sempre com uma nota dedez
tostões, para, no caso de arranjar a "sua" namorada, ter logo emseu
alcance o dinheiro com que lhe comprasse um ramilhete.
Era, porém, falar ao Ezequiel, em Heitor Servadac, e logo ele sepunha
entusiasmado e contava toda a novela do mestre de Nantes.Quando acabava,
tentava então outra; mas os colegas fugiam um a um,deixavam-no só com o seu
Júlio Verne, para irem fumar um cigarro às escondidas.
Então, ele procurava o mais afastado dos bancos do recreio, e deixava-se ficar
lá, só, imaginando, talvez, futuras viagens que haviam de fazer, para as
aventuras de Roberto Grant, de Hatteras, de Passepartout, de Keraban, de Miguel
Strogoff, de Cesar Cascavel, de Phileas Fogg e mesmo daquele curioso doutor
Lindenbrock, que entra pela crateraextinta de Sueffels, na desolada Islândia, e
vem à superfície da terra,num ascensor de lavas, que o Estrômboli vomita nas
terras risonhasque o Mediterrâneo afaga...
Saímos do internato quase ao mesmo tempo e, durante algum,ainda nos vimos; mas,
bem depressa, perdemo-nos de vista.
Passaram-se anos e eu já havia de todo esquecido, quando, noano passado, vim a
encontrá-lo em circunstâncias bem singulares.
Foi em um domingo. Tomei um bonde da Jardim, aí, na avenida,para visitar um
amigo e, com ele, jantar em família. Ia ler-me umpoema; ele era engenheiro
hidráulico.
Como todo o sujeito que é rico ou se supõe ou quer passarcomo tal, o meu amigo
morava para as bandas de Botafogo.
Ia satisfeito, pois de há muito não me perdia por aquelas bandas dacidade e me
aborrecia com a monotonia dos meus dias, vendo as mesmaspaisagens e olhando
sempre as mesmas fisionomias. Fugiria, assim, poralgumas horas, à fadiga visual
de contemplar as montanhas desnudadasque marginam à Central, da estação inicial
até Cascadum. Morava eu nossubúrbios. Fui visitar, portanto, o meu amigo,
naquele Botafogo catita,Meca das ambições dos nortistas, dos sulistas e dos...
cariocas.
Sentei-me nos primeiros bancos; e já havia passado o Lírico eentrávamos na rua
Treze de Maio, quando, no banco de trás do meu, se levantou uma altercação com
o condutor, uma dessas vulgaresaltercações comuns nos nossos bondes.
- Ora, veja lá com quem fala! dizia um.
- Faça o favor de pagar sua passagem, retorquia o recebedor.
- Tome cuidado, acudiu o outro. Olhe que não trata com nenhumcafajeste! Veja
lá!
- Pague a passagem, senão o carro não segue.
E como eu me virasse por esse tempo a ver melhor tão patuscocaso, dei com a
fisionomia do disputador que me pareceu vagamenteminha conhecida. Não tive de
fazer esforços de memória. Como umaducha, ele me interpelou desta forma:
- Vejas tu só, Mascarenhas, como são as cousas! Eu, um artista,uma celebridade,
cujos serviços a este país são inestimáveis, vejo-me agoramaltratado por esse
brutamonte que exige de mim, desaforadamente, apaga de uma quantia ínfima, como
se eu fosse da laia dos que pagam.
Aquela voz, de súbito, pois ainda não sabia bem quem mefalava, reconheci o
homem: era o Ezequiel Beiriz. Paguei-lhe a passagem, pois, não sendo
celebridade, nem artista, podia perfeita-mente e sem desdouro pagar quantias
ínfimas; o veículo seguiupacatamente o seu caminho, levando o meu espanto e a
minhaadmiração pela transformação que se havia dado no temperamentodo meu
antigo colega de colégio. Pois era aquele parlapatão, o tímido Ezequiel?
Pois aquele presunçoso, que não era da laia dos que pagam, era ocismático
Ezequiel do colégio, sempre a sonhar viagens maravilhosas, aJúlio Veme? Que
teria havido nele? Ele me pareceu inteiramente são, no momento e para sempre.
Travamos conversa e mesmo a procurei, para decifrar tão interessante enigma.
- Que diabo, Beiriz! Onde tens andado? Creio que há bemquinze anos que não nos
vemos - não é? Onde andaste?
- Ora! Por esse mundo de Cristo. A última vez que nos encontramos... Quando foi
mesmo?
- Quando eu ia embarcar para o interior do estado do Rio, visitar a família.
- É verdade! Tens boa memória... Despedimo-nos no largo doPaço... Ias para
Muruí - não é isso?
- Exatamente.
- Eu, logo em seguida, parti para o Recife a estudar direito.
- Estiveste lá este tempo todo?
- Não. Voltei para aqui, logo de dous anos passados lá.
- Porquê?
- Aborrecia-me aquela "chorumela" de direito... Aquela vidasolta de
estudantes de província não me agradava... São vaidosos... A sociedade lhes dá
muita importância, daí...
- Mas que tinhas com isso? Fazias vida à parte...
- Qual! Não era bem isso o que eu sentia... Estava era aborrecidíssimo com a
natureza daqueles estudos... Queria outros...
- E tentaste?
- Tentar! Eu não tento; eu os faço... Voltei para o Rio a fim deestudar
pintura.
- Como não tentas, naturalmente...
- Não acabei. Enfadou-me logo tudo aquilo da Escola de Belas-Artes.
- Por quê?
- Ora! Deram-me uns bonecos de gesso para copiar... Já visteque tolice? Copiar
bonecos e pedaços de bonecos... Eu queria a cousaviva, a vida palpitante...
- É preciso ir às fontes, começar pelo começo, disse eu sen-tenciosamente.
- Qual! Isto é para toda gente... Eu vou de um salto; se erro, soucomo o tigre
diante do caçador - estou morto!
- De forma que...
- Foi o que me aconteceu com a pintura. Por causa dos taisbonecos, errei o
salto e a abandonei. Fiz-me repórter, jornalista, dramaturgo, o diabo! Mas, em
nenhuma dessas profissões dei-me bem... Todas elas me desgostavam... Nunca
estava contente com o que fazia... Pensei, de mim para mim, que nenhuma delas
era a da minha vocação e a do meu amor; e, como sou honesto intelectualmente,
não tive nenhuma dor de coração em largá-las e ficar à toa, vivendo ao
deus-dará.
- Isto durante muito tempo?
- Algum. Conto-te o resto. Já me dispunha a experimentar ofuncionalismo,
quando, certo dia, descendo as escadas de uma secretaria, onde fui levar um
pistolão, encontrei um parente afastado que as subia. Deu-me ele a notícia da
morte do meu tio rico que me pagava colégio e, durante alguns anos, me dera
pensão; mas ultimamente a tinha suspendido, devido, dizia ele, a eu não
esquentar lugar, isto é, andar de escola em escola, de profissão em profissão.
- Era solteiro, esse seu tio?
- Era, e, como já não tivesse mais pai (ele era irmão de meupai), ficava sendo
o seu único herdeiro, pois morreu sem testamento. Devido a isso e mais
ulteriores ajustes com a Justiça, fiquei possuidor de cerca de duas centenas e
meia de contos.
- Um nababo! Hein?
- De algum modo. Mas escuta, filho! Possuidor dessa fortuna,larguei-me para a
Europa a viajar. Antes - é preciso que saibas - fundei aqui uma revista
literária e artística - Vilbara - em que apresentei as minhas idéias budistas
sobre a arte, apesar do que nela publiquei as cousas mais escatológicas
possíveis, poemetos ao suicídio, poemas em prosa à Venus Genitrzx, junto com
sonetos, cantos, glosas de cousas de livros de missa de meninas do colégio de
Sion.
- Tudo isto de tua pena?
- Não. A minha teoria era uma e a da revista outra, mas publicava as cousas
mais antagônicas a ela, porque eram dos amigos.
- Durou muito a tua revista?
- Seis números e custaram-me muito, pois até tricromiaspubliquei e hás de
adivinhar que foram de quadros contrários ao meuideal búdico. Imagina tu que
até estampei uma reprodução dosHorácios, do idiota do David!
- Foi para encher, certamente?
- Qual! A minha orientação nunca dominou a publicação...Bem! Vamos adiante.
Embarquei quase como fugido deste país emque a estética transcendente da
renúncia, do aniquilamento do desejoera tão singularmente traduzida em versos
fesceninos e escatológicose em quadros apologéticos da força da guerra. Fui-me
embora!
- Para onde?
- Pretendia ficar em Lisboa, mas, em caminho, sobreveio umatempestade; e deu-me
vontade, durante ela, de ir ao piano. Esperava que saísse o "bitu";
mas, qual não foi o meu espanto, quando de sob os meus dedos, surgiu e ecoou o
tremendo fenômeno meteorológico,toda a sua música terrível... Ah! Como me senti
satisfeito! Tinha encontrado a minha vocação... Eu era músico! Poderia
transportar, registrar no papel e reproduzi-los artisticamente, com os
instrumentos adequados, todos os sons, até ali intraduzíveis pela arte, da
Natureza. O bramido das grandes cachoeiras, o marulho soluçante das vagas, o
ganido dos grandes ventos, o roncar divino do trovão estalido do raio - todos esses
ruídos, todos esses sons não seriam perdidos para aArte; e, através do meu
cérebro, seriam postos em música, idealizadostranscendentalmente, a fim de mais
fortemente, mais intimamenteprender o homem à Natureza, sempre boa e sempre
fecunda, vária eondeante; mas...
- Tu sabias música?
- Não. Mas, continuei a viagem até Hamburgo, em cujo conservatório me
matriculei. Não me dei bem nele, passei para o deDresden, onde também não me
dei bem. Procurei o de Munique, quenão me agradou. Freqüentei o de Paris, o de
Milão...
- De modo que deves estar muito profundo em música?
Calou-se meu amigo um pouco e logo respondeu:
- Não. Nada sei, porque não encontrei um conservatório queprestasse. Logo que o
encontre, fica certo que serei um músico extraordinário. Adeus, vou saltar.
Adeus! Estimei ver-te.
Saltou e tomou por uma rua transversal que não me pareceu sera da sua
residência.
A BIBLIOTECA
A Pereira da Silva
À proporção que avançava em anos, mais nítidas lhe vinham asreminiscências das
cousas da casa patema. Ficava ela lá pelas bandas da rua do Conde, por onde
passavam então as estrondosas e fagulhentas "maxambombas" da Tijuca.
Era um casarão grande, de dous andares,rés-do-chão, chácara cheia de fruteiras,
rico de salas, quartos, alcovas,povoado de parentes, contraparentes, fâmulos,
escravos; e a escadaque servia os dous pavimentos, situada um pouco além da
fachada, adesdobrar-se em toda a largura do prédio, era iluminada por umagrande
e larga clarabóia de vidros multicores. Todo ele era assoalhadode peroba de
Campos, com vastas tábuas largas, quase da largura datora de que nasceram; e as
esquadrias, portas, janelas, eram demadeira de lei. Mesmo a cachoeira e o
albergue da sege eram de boamadeira e tudo coberto de excelentes e pesadas
telhas. Que cousascuriosas havia entre os seus móveis e alfaias? Aquela mobilia
dejacarandá-cabiúna com o seu vasto canapé, de três espaldares, ovaladose
vastos, que mais parecia uma cama que mesmo um móvel de sala;aqueles imensos
consolos, pesados, e ainda mais com aquelesenormes jarrões de porcelana da
índia que não vemos mais; aquelesdesmedidos retratos dos seus antepassados, a
ocupar as paredes dealto a baixo - onde andava tudo aquilo? Não sabia.. Vendera
ele,aqueles objetos? Alguns; e dera muitos.
Umas cousas, porém, ficaram com o irmão que morrera cônsulna Inglaterra e lá
deixara a prole; outras, com a irmã que se casarapara o Pará... Tudo, enfim,
desaparecera. O que ele estranhava terdesaparecido eram as alfaias de prata, as
colheres, as facas, o coadorde chá... E o espevitador de velas? Como ele se
lembrava desse utensílio obsoleto, de prata! Era com temura que se recordava
dele, nasmãos de sua mãe, quando, nos longos serões, na sala de jantar, àespera
do chá - que chá - ele o via aparar os morroes das velas docandelabro, enquanto
ela, sua mãe, não interrompia a história doPríncipe Tatu, que estava
contando...
A tia Maria Benedita, muito velha, ao lado, sentada na estreitacadeira de
jacaranda, tendo o busto ereto, encostado ao alto espaldar,ficava do lado, com
os braços estendidos sobre os da cadeira, o tam-borete aos pés, olhando atenta
aquela sessão familiar, com o seuagudo olhar de velha e a sua hierática pose de
estátua tebana tumular.Eram os nhonhôs e nhanhãs, nas cadeiras; e as crias e
molecotes acocorados no assoalho, a ouvir... Era menino...
O aparelho de chá, o usual, o de todo o dia, como era lindo!Feito de uma louça
negra, com ornatos em relevo, e um discretoesmalte muito igual de brilho -
donde viera aquilo? Da China, da Índia?
E a gamela de bacurubu em que a Inácia, a sua ama, lhe davabanho - onde estava?
Ah! As mudanças! Antes nunca tivesse vendidoa casa paterna...
A casa é que conserva todas as recordações de família. Perdidaque seja, como
que ela se vinga fazendo dispersar as relíquias familiares que, de algum modo,
conservavam a alma e a essência das pessoasqueridas e mortas... Ele não podia,
entretanto, manter o casarão... Foi o tempo, as leis, o progresso...
Todos aqueles trastes, todos aqueles objetos, no seu tempo demenino, sem grande
valia, hoje valeriam muito... Tinha ainda o bule do aparelho de chá, um
escumador, um guéridon com trabalho deembutido... Se ele tivesse (insistia)
conservado a casa, tê-los-ia todoshoje, para poder rever o perfil aquilino,
duro e severo do seu pai, tal qual estava ali, no retrato de Agostinho da Mota,
professor de academia; e também a figurinha de Sèvres que era a sua mãe em
moça, mas que os retratistas da terra nunca souberam pôr na tela. Mas não pôde
conservar a casa... A constituição da família carioca foi insensivelmente se
modificando; e ela era grande de mais para a sua. De resto, o inventário, as
partilhas, a diminuição de rendas, tudo isso tirou-a dele. A culpa não era sua,
dele, era da marcha da sociedade em que vivia...
Essas recordações lhe vinham sempre a cada vez mais fortes,desde os quarenta e
cinco anos; estivesse triste ou alegre, elas lheacudiam. Seu pai, o conselheiro
Femandes Carregal, tenente-coroneldo Corpo de Engenheiros e lente da Escola
Central, era filho do sargento-mor de engenharia e também lente da Academia
Real Militarque o conde de Linhares, ministro de Dom João VI, fundou em 1810,
no Rio de Janeiro, com o fim de se desenvolverem entre nós os estudos de
ciências matemáticas, físicas e naturais, como lá diz o ato oficial que a
instituiu. Desta academia todos sabem como vieram a surgir a atual Escola
Politécnica e a extinta Escola Militar da Praia Vermelha. O filho de Carregai,
porém, não passara por nenhuma delas; e, apesar de farmacêutico, nunca se
sentira atraído pela especialidade dos estudos dopai. Este dedicara-se a seu
modo e ao nosso jeito, à química. Tinhapor ela uma grande mania...
bibliográfica. A sua biblioteca a esserespeito era completa e valiosa. Possuía
verdadeiros "incunábulos" seassim se pode dizer, da química modema.
No original ou em tradução,lá havia preciosidades. De Lavoisier, encontravam-se
quase todas asmemórias, além do seu extraordinário e sagacíssimo Traité
élémentairede chimie, présenté dans un ordre et d'après les découvertes
modernes.
O velho lente, no dizer do filho, não podia pegar nesserespeitável livro que
não fosse tomado de uma grande emoção.
- Veja só, meu filho, como os homens são maus! Lavoisier publicou esta
maravilhosa obra no início da Revolução, a qual ele sinceramente aplaudiu...
Ela o mandou para o cadafalso - sabe você por quê?
- Não, papai.
- Porque Lavoisier tinha sido uma espécie de coletor ou cousaparecida no tempo
do rei. Ele o foi, meu filho, para ter dinheiro comque custeasse as suas
experiências. Veja você como são as cousas ecomo é preciso ser mais do que
homem, para bem servir aos homens...
Além desta gema que era a sua menina dos olhos, o conselheiroCarregai tinha
também o Proust, Novo sistema de filosofia química; oPriestley, Expériences sur
les différentes espèces d'air; as obras deGuyton de Morveau; o Traité de
Berzelius, tradução de Hoefer eEsslinger; a Statique chimique, do grande
Berthollet; a Químicaorgânica, de Liebig tradução de Gerhardt - todos livros
antigos esólidos, sendo dentre eles o mais modemo as Lições de
filosofiaquímica, de Wúrtz, que são de 1864; mas, o estado do livro dava
aentender que nunca tinham sido consultadas. Havia mesmo algumasobras de
alquimia, edições dos primeiros tempos da tipografia,enormes, que exigem ser
lidas em altas escrivaninhas, o leitor de pé,com um burel de monge ou
nigromante; e, entre os desta natureza, láestava um exemplar do - Le livre des
figures hiéroglyphiques que atradição atribui ao alquimista francês Nicolau
Flamel.
Sobravam, porém, além destes, muitos outros livros de diferentenatureza, mas
também preciosos e estimáveis: um exemplar daGeometria de Euclides, em latim,
impresso em Upsala, na Suécia, nos fins do século XVI; os Principia de Newton,
não a primeira edição, mas uma de Cambridge muito apreciada; e as edições
princeps daMécanique analytique, de Lagrange, e da Géométrie descriptive, de
Monge.
Era uma biblioteca rica assim de obras de ciências físicas ematemáticas que o
filho do conselheiro Carregal, há quarenta anospara cinqüenta, piedosamente
carregava de casa em casa, aos azares das mudanças desde que perdera o pai e
vendera o casarão em queela quietamente tinha vivido durante dezenas de anos, a
gosto e à vontade.
Poderão supor que ela só tivesse obras dessa especialidade;mas tal não
acontecia, Havia-as de outros feitos de espírito.Encontravam-se lá os clássicos
latinos; a Voyage autour du monde,de Bougainville; uma Nouvelle Héloise, de
Rousseau, com gravurasabertas em aço; uma linda edição dos Lusíadas, em
caracteres elzevirianos; e um exemplar do Brasil e a Oceania, de Gonçalves Dias,
com uma dedicatória, do próprio punho do autor, ao conselheiroCarregal.
Fausto Carregal, assim era o nome do filho, até ali nunca se separara da
biblioteca que lhe coubera como herança. Do mais que herdara, tudo dissipara,
bem ou mal; mas os livros do conselheiro, ele os guardava intactos e
conservados religiosamente, apesar de não os entender. Estudara alguma cousa,
era até farmacêutico, mas, sempre vivera alheado do que é verdadeiramente a
substância dos livros - o pensamento e a absorção da pessoa humana neles.
Logo que pôde, arranjou um emprego público que nada tinha aver com o seu
diploma, afogou-se no seu oficio burocrático, esqueceu-se do pouco que
estudara, chegou a chefe de seção, mas nãoabandonou jamais os livros do pai que
sempre o acompanharam, e assuas velhas estantes de vinhático com incrustação de
madrepérola.
A sua esperança era que um dos seus filhos os viesse a entenderum dia; e todo o
seu esforço de pai sempre se encaminhou para isso.O mais velho dos filhos, o
Álvaro, conseguiu ele matriculá-lo noPedro II; mas logo, no segundo ano, o
pequeno meteu-se emcalaçarias de namoros, deu em noivo e, mal fez dezoito anos,
empregou-se nos correios, praticamente pro rata, casando-se daí empouco.
Arrastava agora uma vida triste de casal pobre, moço, cheio defilhos, mais
triste era ele ainda porquanto, não havendo alegria naquele lar, nem por isso
havia desarmonia. Marido e mulher puxavam ocarro igualmente...
O segundo filho não quisera ir além do curso primário.Empregara-se logo em um
escritório comercial, fizera-se remador de um clube de regatas, ganhava bem e
andava pelas tolas festasdomingueiras de esporte, com umas calças sungadas
pelas canelas e um canotier muito limpo, tendo na fita uma bandeirinha idiota.
A filha casara-se com um empregado da Câmara Municipal deNiterói e lá vivia.
Restava-lhe o filho mais moço, o Jaime, tão bom, tão meigo e tãoseu amigo, que
lhe pareceu, quando veio ao mundo, ser aquele queestava destinado a ser o
inteligente, o intelectual da família, o dignoherdeiro do avô e do bisavô. Mas
não foi; e ele se lembrava agoracomo recomendava sempre à mulher, nos primeiros
anos de vida docaçula, ao ir para a repartição:
- Irene, cuida bem do Jaime! Ele é que vai ler os papéis do meu pai.
Porque o pequeno, em criança, era tão doentinho, tão mirrado,apesar dos seus
olhos muito claros e vivos, que o pai temia fosse comele a sua última esperança
de um herdeiro capaz da biblioteca doconselheiro.
Jaime tinha nascido quando o mais velho entrava nos doze anos;e o inesperado
daquela concepção alegrava-lhe muito, mas inquietaraa mãe.
Pelos seus quatro anos de idade, Fausto Carregal já tinha podidover o
desenvolvimento dos dous outros seus filhos varões e haviadesesperado de ver
qualquer um deles entender, quer hoje ou amanhã,os livros do avô e do bisavô,
que jaziam limpos, tratados, embalsamados, nos jazigos das prateleiras das
estantes de vinhático, à espera deuma inteligência, na descendência dos seus
primeiros proprietários,para de novo fazê-los voltar à completa e total vida do
pensamento eda atividade mental fecunda.
Certo dia, lembrando-se de seu pai em face das esperanças quedepositava no seu
filho temporão, Fausto Carregal considerou que,apesar do amor de seu genitor à
química, nunca ele o vira coméprouvettes, com copos graduados, com retortas.
Eram só livros, queele procurava. Com os velhos sábios brasileiros, seu pai
tinha horrorao laboratório, à experiência feita com as suas mãos, ele mesmo...
O seu filho, porém, o Jaime, não seria assim. Ele o queria com omaçarico, com o
bico de Bunsen, com a baqueta de vidro, com ocopo de laboratório...
- Irene, tu vais ver como o Jaime vai além do avô! Farádescobertas.
Sua mulher, entretanto, filha de um clínico que tivera famaquando moço, não
tinha nenhum entusiasmo por essas cousas. Avida, para ela, se resumia em viver
o mais simplesmente possível.Nada de grandes esforços, ou mesmo de pequenos,
para se ir além docomum de todos; nada de escaladas, de ascensões; tudo terra à
terra,muito cá embaixo... Viver, e só! Para que sabedorias? Para quenomeadas?
Quase nunca davam dinheiro e quase sempre desgostos.Por isso, jamais se
esforçou para que os seus filhos fossem além doler, escrever e contar; e isso
mesmo, a fim de arranjarem um empregoque não fosse braçal, pesado ou servil.
O Jaime cresceu sempre muito meigo, muito dócil, muito bom;mas com venetas
estranhas. Implicava com uma vela acesa em cimade um móvel porque lhe pareciam
os círios que vira em tomo de umdefunto, na vizinhança; quando trovejava ficava
a um canto calado,temeroso; o relâmpago fazia-o estremecer de medo, e logo
após, ria-sede um modo estranho... Não era contudo doente; com o
crescimento,até adquirira certa robustez. Havia noites, porém, em que tinha
umaespécie de ataque, seguido de um choro convulso, uma cousa inexplicável que
passava e voltava sem causa, nem motivo, Quandochegou aos sete anos, logo o pai
quis pôr-lhe na mão a cartilha,porquanto vinha notando com singular satisfação
a curiosidade dofilho pelos livros, pelos desenhos e figuras, que os jomais e
revistastraziam. Ele os contemplava horas e horas, absorvido, fixando
nasgravuras os seus olhos castanhos, bons, leais...
Pôs-lhe a cartilha na mão:
- "A-e-i-o-u" - diga: "a".
O pequeno dizia: "a"; o pai seguia: "e"; Jaime repetia:
"e"; masquando chegava a "o", parecia que lhe invadia um
cansaço mental,enfarava-se subitamente, não queria mais atender, não obedecia
maisao pai e, se este insistia e ralhava, o filho desatava a chorar:
- Não quero mais, papaizinho! Não quero mais!
Consultou médicos amigos. Aconselharam-no esperar que acriança tivesse mais
idade. Aguardou mais um ano, durante o qual,para estimular o filho, não cessava
de recomendar:
- Jaime, você precisa aprender a ler. Quem não sabe ler, nãoarranja nada na
vida.
Foi em vão. As cousas se vieram a passar como da primeira vez.Aos doze anos,
contratou um professor paciente, um velho empregadopúblico aposentado, no
intuito de ver se instalava na inteligência dofilho o mínimo de saber ler e
escrever. O professor começou comtoda a paciência e tenacidade; mas, a criança
que era incapaz de ódioaté ali, perdeu a doçura, a meiguice para com o
professor.
Era falar-lhe no nome, a menos que o pai estivesse presente, eledesandava em
descomposturas, em doestos, em sarcasmos ao físico eàs maneiras do bom velho.
Cansado, o antigo burocrata, ao fim dedous anos, despediu-se tendo conseguido
que Jaime soletrasse e contasse alguma cousa.
Carregal meditou ainda um remédio, mas não encontrou.Consultou médicos, amigos,
conhecidos. Era um caso excepcional;era um caso mórbido, esse de seu filho.
Remédio, se um houvesse,não existia aqui; só na Europa... Não podia, o pequeno,
aprenderbem, nem mesmo ler, escrever, contar!... Oh! Meu Deus!
A conclusão lhe chegou sem choque, sem nenhuma brusca violência; chegou
sorrateiramente, mansamente, pé ante pé, devagar,como uma conclusão fatal que
era.
Tinha o velho Carregal, por hábito, ficar na sala em que estavamos livros e as
estantes do pai, a ler, pela manhã, os jornais do dia. Aproporção que os anos
se passavam e os desgostos aumentavam-lhen'alma, mais religiosamente ele
cumpria essa devoção à memória dopai. Chorava, às vezes de arrependimento,
vendo aquele pensamento todo, ali sepultado, mas ainda vivo, sem que,
entretanto, pudessefecundar outros pensamentos... Por que não estudara?
Dava-se assim, com aquela devoção diária, a ele mesmo, ailusão de que, se não
compreendia aqueles livros profundos e antigos, os respeitava e amava como a
seu pai, esquecido de que paraamá-los sinceramente, era preciso compreendê-los
primeiro. Sãodeuses, os livros, que precisam ser analisados, para depois
seremadorados; e eles não aceitam a adoração senão dessa forma...
Naquela manhã, como de costume, fora para a sala dos livros,ler os jornais; mas
não os pôde ler logo.
Pôs-se a contemplar os volumes nas suas molduras de vinhático.Viu o pai, o
casarão, os moleques, as mucamas, as crias, o fardão deseu avô, os retratos...
Lembrou-se mais fortemente de seu pai e viu-olendo, entre aquelas obras,
sentado a uma grande mesa, tomando de quando em quando rapé, que ele tirava às
pitadas de uma boceta de tartaruga, espirrar depois, assoar-se num grande lenço
de Alcobaça,sempre lendo, com o cenho carregado, os seus grandes e estimados
livros.
As lágrimas vieram aos olhos daquele velho e avô. Teve desustê-las logo. O
filho mais novo entrava na dependência da casa emque ele se havia recolhido.
Não tinha Jaime, porém, por esse tempo,um olhar de mais curiosidade para
aqueles veneráveis volumes avoengos. Cheio dos seus dezesseis anos, muito
robusto, não havia nelenem angústias, nem dúvidas. Não era corroido pelas
idéias e era bemnutrido pela limitação e estreiteza de sua inteligência. Foi
logo falando,sem mais detença, ao pai:
- Papai, você me dá cinco mil-réis, para eu ir hoje ao futebol?
O velho olhou o filho. Olhou a sua adolescência estúpida eforte, olhou seu mau
feitio de cabeça; olhou bem aquele último frutodireto de sua carne e de seu
sangue; e não se lembrou do pai. Respondeu:
- Dou, meu filho. Dentro em pouco, você terá.
E em seguida como se acudisse alguma cousa deslembrada queaquelas palavras lhe
fizeram surgir à tona do pensamento, acrescentoucom pausa:
- Diga a sua mãe que me mande buscar, na venda, uma lata dequerosene, antes que
feche. Não se esqueça, está ouvindo!
Era domingo. Almoçaram. O filho foi para o futebol; a mulherfoi visitar a filha
e os netos, em Niterói; e o velho Fausto Carregal ficousó em casa, pois a
cozinheira teve também folga.
Com os seus ainda robustos setenta anos, o velho FaustoFemandes Carregal, filho
do tenente-coronel de engenharia, conselheiroFemandes Carregal, lente da Escola
Central, tendo concertado maisuma vez o seu antigo cavanhaque inteiramente
branco e pontiagudo,sem tropeço, sem desfalecimento, aos dous, aos quatro, aos
seis, elesó, sacerdotalmente, ritualmente, foi carregando os livros que
tinhamsido do pai e do avô, para o quintal da casa. Amontoou-os em
váriosgrupos, aqui e ali, untou de petróleo cada um, muito cuidadosamente, e
ateou-lhes fogo sucessivamente.
No começo a espessa fumaça negra do querosene não deixavaver bem as chamas
brilharem; mas logo que ele se evolou, o clarãodelas, muito amarelo, brilhou
vitoriosamente com a cor que o povo diz ser a do desespero...
LI VIA
E todos os dias quando ela, de manhã cedo, ia, ainda morrinhenta da cama,
preparar o café matinal da família, ia toda envolvida num nevoeiro de sonhos,
sonhados durante um demorado dormirde oito horas a fio. Por vezes - lá na
cozinha, só, vigiando pacientemente a água que fervia - ao lhe chegarem as
reminiscências delesem tumulto, juntas, borbulhava-lhe nos lábios uma
interjetiva qualquer,eco desconexo do muito que lhe falavam por dentro.
De quando em quando, sofreando um gesto glorioso de satisfação, dizia - é ele -
e isso de leve traduzia a grande carícia que lheera dado gozar naquele
instante, refazendo aquele sonho bom - tãobom e acariciador que bem lhe parecia
um inebriamento de capitososperfumes a se evolar do Mistério vagarosamente,
suavemente...Depois, logo que o café se aprontava e, na sala de jantar, todos
aoredor da mesa se punham a sorvê-lo, mastigando o pão de cada dia- ela,
d'olhos parados, presos a uma linha do assoalho, levandocompassadamente a
xícara aos lábios, ficava a um canto a pensar,remoendo a cisma, procurando
decifrar naqueles traços nebulosos - tão mal grudados pela memória - a figura
viva daquele com quem,em sonhos, se vira indo de braço dado ruas em fora.
Esforço a esforço, de evocação em evocação, aparecia-lhe aospoucos a sua
figura, o seu ar; e, após esse paciente trabalho dereconstrução, lhe vinha,
anunciado por um sorriso reprimido que lheencrespava radiosamente o semblante,
o seu nome sílaba por sílaba...Go-do-fre-do. Então com volúpia, ela lhe pesava
os recursos: ganhava cento e vinte, no emprego da Central, talvez, em breve,
viesse a termais. Quarenta para casa e o resto para o vestuário e alimentos.
Era pouco - convinha - mas servia, pois, assim ficaria livre datirania do
cunhado, das impertinências do pai; teria sua casa, seusmóveis e, certamente, o
marido lhe dando algum dinheiro, ela -quem sabe! - que tão bons sonhos tinha,
arriscando no "bicho",aumentaria a renda do casal; e, quando assim
fosse, havia de comprar um corte de fazenda boa, um chapéu, de jeito que,
sempre, peloCarnaval, iria melhorzinha à rua do Ouvidor, assistir passarem as
sociedades.
O café já se havia acabado; e ela ficara ainda distraída e sentada, quando soou
de lá da sala de visitas a voz vigorosa do cunhado:
- Lívia! Traz o meu guarda-sol que ficou atrás da poita do quarto.Depressa!...
Anda que faltam só oito minutos para o trem!
E como se demorasse um pouco, o Marques, redobrando devigor no timbre, gritou:
- Oh! Cos diabos! Você ainda não achou! Safa! Que gente mole!Humildemente,
Lívia lá foi aos pulos, como uma corça domesticada, entregar o objeto pedido,
para lhe ser arrancado bruscamente das mãos...
Envolvida ainda naquele sonho que lhe soubera tão bem amanhã, ela, através das
frinchas da veneziana viu o cunhado atravessara rua e se perder por entre o
dédalo de casas.
Certificada disso, abriu a janela. O subúrbio todo despertavalanguidamente.
As montanhas, verde-negras, quase desnudas de vegetação,confusamente surgiam do
seio da cerração tênue e esgarçada. Ascasas listravam de branco e ocre o
pardacento geral, enquanto bocadosde neblina, finos, adelgaçados, flutuavam
sobre elas como sombras erradias.
As ruas descalças e enlameadas eram atravessadas por algunstranseuntes
cabisbaixos, mal vestidos, andando céleres em busca do embarcadouro.
Corria, de resto, como sempre, morosamente o viver diário; e aLívia, sacudida
pelo silvo agudo de uma locomotiva, levantou derepente os olhos, até ali fitos
na estação que emergia do ambientepardo a clarear-se, para pregá-los numa nesga
do céu que o sol abria, por entre a névoa, furiosamente, vitoriosamente.
A súbitas, sua alma voou, asas abertas, vôo rasgado, para outrasbandas, outras
regiões. Voou para a cidade de luxo e elegância que,ao fim daquelas fitas de
aço, refulgia e brilhava.
Representaram-se-lhe os teatros de luxo, os bailes do tom, a ruada moda onde
triunfavam as belezas. Ao considerar isso, viu-se alitambém, ela, sim! ela, que
não era feia, tendo o seu porte flexível elongo, envolvido de rendas, a
desprender custosas essências e aquelesseus dedos de unhas de nácar, ornados de
ouro e pérolas, escolhendo,na mais chique loja, cassas, baptistes, voiles...
Numa galopada de sonhos, supós maiores cousas e - lembrando-se do que lhe
contara a madrinha (oh! como era rica!) - imaginoua Europa, aquelas terras
soberbas, por onde a "Dindinha" passeava asua velhice e o seu
egoísmo.
Doidamente revolvia a alma e as cismas... Calculou-se lá também,na alameda de
um soberbo jardim, de landau, com ricas vestes aocorpo unidas, ressaltando
delas o esplendor de suas formas e o esguiopatrício de seu corpo. Imaginou que,
através de um caro chapéu depalhinha branca, se coasse a luz macia do sol da
Europa, polvilhando-lhea tez de ouro, em cujo fundo brilhassem muito os seus
olhos vivos,negros e redondos.
- Oh! que bom! Quem me dera! - quase exclamou por esse tempo.
De reviravolta, Lívia adivinhou outra cousa no sonho. Não pensara bem; era
outro que não o Godofredo, o rapaz que imaginara.
Aquele nariz grosso, aquela testa alta, o bigode ralo, não eramdele; eram antes
do Siqueira, estudante de farmácia, filho do agente.Esse poderia lhe dar aquilo
- a Europa, o luxo - pois que formadoganharia muito.
Dessa forma - resolvera- "amarraria a lata" no Godofredo
e"pegaria" com o Siqueira. E era muito melhor! O Siqueira, afinal,
iaformar-se, seria um marido formado, ao braço do qual, se não fosse àEuropa,
viria a gozar de maior consideração...
Demais a Europa era desnecessária - para quê? Era querermuito. Quem muito quer
nada tem; e ela para ter alguma cousa deviaquerer pouco. Bastava pois que lhe
tirassem dali, fosse esse, fosseaquele; mas... se em todo o caso pudesse ser um
mais assim... seria muito melhor.
E desde quando vinha ela querendo aquilo? Havia muitos anos;havia dez talvez.
Desde os doze que namorava, que "grelava" só paraaquele fim;
entretanto, apesar de haver tido mais de quinze namorados,ainda ali estava,
ainda ali ficava, sob o mando do cunhado.
Quinze namorados!
Quinze! De que lhe serviram?
Um levara-lhe beijos, outro abraços, outro uma e outra cousa; esempre,
esperando casar-se, isto é, libertar-se, ela ia languidamente,passivamente
deixando. Passavam um, dous meses, e os namoradosiam-se sem causa. Era feio,
diziam; mas que fazer? como casar-se? Porconsequência, como viver? A sua
própria mãe não lhe aconselhava?Não lhe dizia: "Filha, anda com isso;
preciso ver esta letra vencida"?
De resto, o amor lhe desculparia, pois não é o amor o máximotirano? Não é a
própria essência da vida, das cousas mudas, dos seres, enfim?
Porventura ela os amara? Teria ela amado aquela legião denamorados? Amara um,
sequer? Não sabia...
- O que é amar? interrogava fremente.
Não é escrever cartas doces? Não é corresponder a olhares? Nãoé dar aos
namorados as ameaças da sua carne e da sua volúpia?
- Se era isso, ela amara a todos, um a um; se não era, a nenhumamara...
E o que era amar? Que era então?
Ao lhe chegar essa interrogação metafisica, para o seu entendimento, ela se
perdeu no próprio pensamento; as idéias se baralharam, turbaram-se; e, depois,
fatigada, foi passando vagarosamente a mãoesquerda pela testa, correu-a
pacientemente pela cabeça toda até à nuca.
Por fim, como se fosse um suspiro, concluiu:
- Qual amor! Qual nada! A questão é casar e para casar,namorar aqui, ali,
embora por um se seja furtada em beijos, por outro em abraços, por outro...
- Ó Lívia! Você hoje não pretende varrer a casa, rapariga? Quefazes há tanto
tempo na janela?!
Obedecendo ao chamado de sua mãe, Lívia foi mais uma vezretomar a dura tarefa,
da qual, ao seu julgar, só um casamento haviade livrá-la para sempre,
eternamente...
MÁGOA QUE RALAI
Dos chefes de Estado que tem tido o Brasil, o que mais amou,e muito
profundamente, o Rio de Janeiro, foi sem dúvida, Dom JoãoVI; e a população da
cidade e arredores ainda tem na memória, nosdias contemporâneos, mais de um
século após a sua chegada a estasplagas, a lembrança do seu nome. Nas
freguesias afastadas do antigoMunicípio Neutro, que conservam até hoje uma
forte feição roceira, arecordação do rei bondoso e bonachão é mais viva e o seu
nome épronunciado pela gente mais humilde de tais lugarejos, sofrendo
umaabreviatura singular - "Dom Sexto". Os que o precederam e
nosgovernaram como vice-reis e governadores gerais portaram-se nacapital da
ilimitada colônia portuguesa como simples funcionários,executores de ordens dos
reis, ministros, conselhos, mesas disto edaquilo, sem olhar sequer as árvores,
o céu, as cenas que os cercavame muito menos a gente da terra. Acredito que,
com a sua empáfia defidalgos avariados, muitos deles duvidassem da humanidade
dessaúltima e se aborrecessem com a natureza local, pululante e grandiosa.Não
se pareciam com as cousas semelhantes de Portugal e não sepodiam medir pelo
estalão delas; não prestavam, portanto. A gente,para eles, um pouco mais que
animais, eram uns negros à-toa; e anatureza, um flagelo de mosquitos e
cascavéis, sem possuir uma proporcionalidade com o homem, como a de Portugal,
que parecia umjardim, feito para o homem. Mesmo os nossos poetas mais
velhosnunca entenderam a nossa vegetação, os nossos mares, os nossosrios; não
compreendiam as nossas coisas naturais e nunca lhespegaram a alma, o
substractum; e se queriam dizer alguma coisasobre ela caiam no lugar-comum
amplificado e no encadeamento deadjetivos grandiloqüentes, quando não voltavam
para a sua arcadianae livresca floresta de álamos, plátanos, mirtos, com
vagabundíssimasninfas e faunos idiotas, segundo a retórica e a poética
didáticas dassuas cerebrinas escolas, cheias de pomposos tropos, de rapé, de
latim,e regras de catecismo literário.
Se, nos poetas, o sentimento da natureza era esse de paisagensde poetas
latinos, numa diluição já tão exaustiva que fazia que osautores do decalque se
parecessem todos uns com os outros, como sepoderia exigir de funcionários,
fidalgos limitados, na sua própriaprosápia, uma maior força original de
sentimento diante dos novosquadros naturais que a luminosa Guanabara lhes dava,
cercando aságuas de mercúrio de suas harmoniosas enseadas?
Dom João VI, porém, nobre de alta linhagem e príncipe do séculode Rousseau, mal
enfronhado na literatura palerma dos árcades, dosdesembargadores e repentistas,
estava mais apto para senti-los deprimeira mão, diretamente. Podia ele,
perfeitamente, amar o passaredoalegre na plumagem e triste no canto, a
gravidade alpestre decenários severos, os morros cobertos de árvores de
insondável verde-escuro, que descem pelas encostas amarradas umas às outras, peloscipós
e trepadeiras, até o mar fosco que muge ao sopé deles.
O sucesso de Rousseau entre a alta fidalguia do seu tempo foium estranho
acontecimento que hoje surpreende a todos nós, tantomais que não se passa uma
geração e vem ele a ser amaldiçoadopelos filhos e netos dos que o festejaram,
como sendo um dos autoresdo 89 e do rubro 93.
Antes disso foi ele o enfant gâté da grande nobreza e dagrande burguesia que
àquela se assemelhava nos gestos, nos gostos, nos vestuários, em tudo, enfim,
até no modo de assinar o nome.
Depois dos seus primeiros sucessos musicais e literários, mesmoantes com a sua
mãe-amante, Mme de Warens, Jean-Jacques foi o mimo,o autor predileto da alta
nobreza e da grande burguesia, que esperavama guilhotina da Grande Revolução
lendo as suas declamações e objurgatórias contra a civilização. Sempre lido por
elas, sempre por elasagraciado e socorrido, ambas sorveram com lágrimas nos
olhos aspalavras do genebrino, cujas obras deviam inspirar e sustentar oânimo
do sumo pontífice da guilhotina - Robespierre. E Rousseau,nas festanças e
bailes do rico financeiro Dupin, avô ou coisa parecidade George Sand que, numa
edição das Confessions, prefaciada porela, se confessa fiel ao espírito do
comensal de seu avô, naquelelacustre castelo de Chenonceaux, erguido a capricho
sobre as águasdo Cher; é Mme d'Épinay, é a marechala de Luxembourg, é o
marquêsde Girardin, é o príncipe de Conti, é Frederico II, é o marechal,
governador de Neuchâtel, em nome deste último, e tantos outros magnatas do
tempo.
Dom João VI devia tê-lo lido e, sendo desgraçado três vezes,como filho, como
marido e como rei, havia de encontrar a sua almabem aberta para lhe receber as
lições e compreender de modo maisamplo a natureza, de modo a ser solicitado
para um convívio maisíntimo com as árvores, com os regatos, com as cascatas,
fossem elas civilizadas, bárbaras ou selvagens.
Fugindo do seu reino, trazendo consigo a mãe louca, que pedia,ao embarcar em
Lisboa, andassem mais devagar, para não parecerque fugiam; obrigado pelo seu
nascimento e as condições particulares do seu estado, a suportar uma mulher que
perdera toda a conveniência, todo o pudor e todo o respeito a si própria, nos
seus desregramentos sexuais - o pobre rei, gordo, glutão, tido como
estúpido,desconfiado da sua paternidade oficial, só encontrava na música enos
aspectos naturais derivativos para a sua muito humana necessidade de efusões
sentimentais.
Na sua vida de grandes mágoas e profundas dores, o seudesembarque no Rio com
certeza foi para a sua alma uma aleluia. A augusta beleza do cenário natural, a
sua originalidade imprevista egrandiosa - sem atingir o incompreensível do
desmedido e do colossal,a efusão filial de toda uma bizarra população de
brancos, índios,negros e mulatos, quase toda a chorar, provocaram muito
naturalmente a simpatia, fizeram-lhe logo brotar no coração uma grandeafeição
pelo lugar, animaram-no novamente a viver, sentir-se rei defato - Rei - o chefe
aceito voluntariamente, como pai e senhor, por todos aqueles súditos longínquos
que o viam pela primeira vez.
Dom João, diz Oliveira Lima, caminha sereno, com a melancoliaa fundir-se ao
calor da simpatia que o estava acolhendo.
Para bem ver a terra, então, ele se esqueceu das quinze mil pessoas que o
acompanhavam desde as margens do Tejo, daquelesquinze mil "desembargadores
e repentistas, peraltas e sécias, frades, e freiras, monsenhores e castrados -
enxame de parasitas imundos", como diz Oliveira Martins, que aportava em
São Sebastião para esvair quotidianamente a Ucharia Real e enchê-la em troca de
zumbidos de intrigas, mexericos e alcovitices.
E o rei pagou bem o carinho filial com que o Rio de Janeiro orecebeu; foi
grato. Tratou logo de arranjar uma nobreza da terra, queele mesmo dizia não ser
"nobreza" mas "tafetá"; protegeu JoséMaurício e autorizou
que a sua desgraciosa mas sagrada figura de rei,de nobre da mais alta e pura
fidalguia, apesar da filha do Barbadão,fosse pintada na tela por um pobre
pintor mulato, José Leandro, quenunca vira a Itália, nem museus, nem academias,
e talvez até nemtivesse mestres.
Mas, não foi só aí que mostrou a sua gratidão para os afagosrecebidos por ele,
na sociedade da Guanabara; não o foi também,unicamente, nas instituições de
ensino e outras que criou; foi para aterra que o seu agradecimento se voltou,
foi para a sua beleza de quese enamorou, onde quis deixar as marcas e o penhor
do grande amor que ela lhe inspirara.
De fato, não há lugar no Rio de Janeiro que não tenha uma lembrança do
simplório rei erisipeloso e gordo. De Santa Cruz à ilha doGovernador, numa
distância de vinte léguas, as há por toda parte; dailha do Governador à Gávea,
também; e no centro da cidade são inúmeras.
Com as más entradas daqueles tempos, talvez pouco piores queas de hoje, é
incrível como esse homem, tido por preguiçoso, indolente, vadio, vencesse tão
grandes distâncias, andando de um lado para o outro, só para gozar os
pinturescos e pitorescos recantos desua improvisada capital ultramarina.
Hoje, com bondes elétricos, automóveis e o mais, os nossosgrandes burgueses,
alguns, dados todos os descontos, mais ricos doque o príncipe regente, só sabem
amontoar-se em Botafogo, empalacetes de um gosto afetado, pedras falsas de
arquitetura, com astabuletas idiotas de "vilas" (sic) disto ou
daquilo.
E não era só o rei; a própria rainha foi-se para Botafogo,
hoje"melindroso" e "encantador" mas, naquele tempo, roça
perfeita; VonLangsdorff, cônsul geral da Rússia, tinha uma fazenda na raiz da
serra,onde cultivava em larga escala a mandioca; Chamberlain,
tambémcônsul-geral, mas da Inglaterra, era proprietário de uma chácara emSanta
Tereza, para caçar borboletas e plantar café; um emigradopolítico, o conde de
Hogendrop foi morar como simples roceiro daterra, nas Águas Férreas; e o pintor
Taunay, membro do Instituto deFrança, que veio com a missão artística de
Lebreton, foi residir comtoda a família, nas proximidades da cascatinha da
Tijuca.
A nossa burguesia atual, porém, é panurgiana e, por isso, banalizatudo em que
toca ou de que se utiliza. Darwin, quando passou poraqui, em 1832, habitou
durante os belos meses cariocas de maio ejunho uma pequena casa de roça, nas
cercanias da baía de Botafogo.É impossível, diz ele, sonhar nada mais delicioso
do que essa residênciade algumas semanas em país tão admirável! Hoje, se ele
visse essesubúrbio do Rio de Janeiro, com as suas casas quase todas iguais
empacholice; com os seus jardins econômicos de terra e, mais do queisso,
avaros; com a sua aristocracia de melindrosas desfrutáveis eencantadoras com o
espírito nas pontas dos dedos, ambos, machos efêmeas, estetas de cinemas; com
os seus verdadeiros e falsos ricos,arrogantes e ávidos; com os seus lacaios e
badauds do luxo depacotilha que lá impera; como não se recordaria da meiguice
primitivado lugar, quando por ali ele caçava "planárias", classificadas
porCuvier como vermes intestinais, mas que, por sinal, não se encontram nos
intestinos de qualquer animal; como lhe dariam saudades amúsica vesperal e
dissonante iniciada pelas cigarras estridentes, eseguida pelo coaxar de rãs e
sapos e pelo chiar dos grilos, com a iluminação instantânea dos pirilampos?
Mas, a nuvem pardo-azul, quenos grandes dias de luz funde ao longe as cores e
as nuanças, observada pelo sábio inglês, ainda se pode ver aquele célebre
recanto doRio de Janeiro. Os burgueses não se erguem da terra; não escalam
océu. Isso é coisa para titãs... A nossa plutocracia, como a de todos ospaíses,
perdeu a única justificação da sua existência como alta classe,mais ou menos
viciosa e privilegiada, que era a de educadora dasmassas, propulsora do seu
alevantamento moral, artístico e social.Nada sabe fazer de acordo com o país,
nem inspirar que se faça. Ela copia os hábitos e opiniões uns dos outros,
amontoa-se num lugar só,e deixa os lindos recantos do Rio de Janeiro
abandonados aos carvoeiros ferozes que, afinal, saem dela mesma.
Encarando a burguesia atual de todo gênero, os recursos eprivilégios de que
dispõe, como sendo unicamente meios de alcançarfáceis prazeres e baixas
satisfações pessoais, e não se compenetrandoela de ter, para com os outros,
deveres de todas as espécies, falseia asua missão e provoca a sua morte. Não
precisará de guilhotina...
É bom lembrar, porém, já que falávamos em Darwin, que ele -e não podia deixar
de fazê-lo - se refere também ao JardimBotânico; e este recanto do Rio de
Janeiro, tão peculiar á cidade queé até um dos seus emblemas, fala ainda de Dom
João VI. Até bempouco tempo, era o lugar predileto para os passeios burgueses
efamiliares. Era o lugar dos piqueniques ou convescotes; e, aos domingos e dias
de festas, quem lá fosse, encontraria, sombra das suasveneráveis árvores,
famílias e convivas, criados e mucamas e noivos,a comer o leitão assado e o
peru recheado, votivos á boa harmonia efelicidade dos lares, em dias de
sacrifício doméstico do nosso cultoaos penates. Foram proibidos, e o Jardim
Botânico só ficou lembradopor causa de uma casa rústica que havia defronte
dele, espécie dehospedaria disfarçada em que, à noite, se realizavam pândegas
alegresde rapazes e raparigas que não tinham o que perder. Assim
mesmo,entretanto, ele não se agüentou na memória dos cariocas passeadores. Como
Silvestre, a Tijuca e o modemo Sumaré, passou da moda. Hoje é em Copacabana e
adjacências que se realizam as pândegas e se epilogam tragédias ou comédias
conjugais. O Jardim Botânico, porém, ficou sossegado, quieto entre o mar bem
próximo ea selva verde-negra que cobre os contrafortes do Corcovado aofundo,
polvilhada de prata após as grandes chuvas, lançando sobre osque o abandonaram
o desdém de suas palmeiras altivas e titanicamente para o céu, á espera de que,
para as suas alfombras, voltem asfamílias em festança honesta e os amorosos
irregulares em transportessagrados, a fim de abençoar, quer umas, quer outros,
debaixo dasarcaicas góticas dos seus bambus veneráveis.
Conquanto tenha tido a primazia de nortear, para o seu portão,a primeira linha
de bondes que se construiu no Rio de Janeiro, de unstempos a esta parte o
jardim deixou de ser falado nos jornais, nascrônicas elegantes, não mais foi
escolhido para festividades mundanas a estrangeiros de distinção efêmera; e a
massa dos cariocasdesabituando-se de lhe ouvir o nome, nem vendo a sua alameda
senhorial de palmeiras nas notas do Tesouro, esqueceu-se daquele pedaçoda
cidade, que é bem e só ele mesmo, ele unicamente, sem semelhançacom outro.
Um belo dia de anos passados, porém, nas primeiras horas damanhã, logo após o
café, abrindo os jornais, deram os cariocas com aprimeira página de quase todos
os quotidianos ocupada com umalonga notícia, entremeada de gravuras macabras e
fisionomias satisfeitas de policiais em diligência.
Cada qual das gazetas tinha mais títulos e subtítulos e cada qualdestes era
mais campanudo e inexplicável. Leram a notícia e, emsuma, tratava-se do
seguinte: tendo fechado o jardim, os guardas,conforme mandava o regulamento,
passaram revista a todo ele.Davam-na por acabada, quando um deles encontrou, na
borda de umgramado, um punhal esquisito, "esquinado", dizia ele, com
umainscrição na face da lâmina. Era simples e em espanhol o mote: Soyyo! O
achado intrigou-o, esquadrinhou melhor os arredores e veio adar, dissimulado em
uma moita, com o cadáver de uma mulher como rosto arroxeado e congestionado,
inteiramente vestida, só comchapéu fora do lugar, mas, posto por outra mão ao
lado dela. Pareciaestrangeira. De súbito e de forma tão tétrica, foi arrancado
do esquecimento a lembrança do velho jardim real; e ele surgiu a todos dacidade
com uma auréola de martírio, feita da ingratidão de toda umapopulação a cujos
país e avós, sem nada lhes pedir, ele soubera dartantos instantes de alegria e
amor.
Os jornais lembraram a sua história, a sua fundação pelo reiDom João VI, os
benefícios que havia prestado com fornecimentos desementes de plantas úteis ou
"mudas" de variedades de cana-de-açúcar;lembraram a plantação de chá
que lá houvera, sem esquecer de louvaras esguias e majestosas palmeiras, uma
das quais, plantada pelaspróprias mãos do rei, estava morrendo de velha.
O inquérito veio a correr, ou melhor, a arrastar-se sem esperança de resultado;
e a inscrição em espanhol, no punhal, fazia queas autoridades policiais
prendessem, não só todos os súditos do rei daEspanha que encontravam à mão,
como também colombianos,argentinos, chilenos, e até um filipino azeitonado foi
preso, apesar deser um simples e inofensivo malaio vagabundo e cabeludo, que viviaa
catar ervas medicinais para vendê-las aos herbanários da rua Largae aos chefes
de macumbas e "candomblés" dos subúrbios longínquos.Tudo em pura
perda.
A vítima foi identificada. Era uma criada alemã, arrumadeira deum grande hotel
de luxo do Silvestre ou de Santa Tereza, que, nosseus dias de folga ou licença,
gostava de passear pelos arredores dacidade e beber cerveja em toda parte.
Todos os freqüentadores de casasde chopes conheciam aquela pequena alemã, de
Baden, rechonchudinha, polpuda que nem um repolho, com os malares sempre
rosados,possuidora de um perfeito aspecto de boneca alemã de carregação,que
bebia mais do que os patrícios, rindo e estalando as palavras noduro e gutural
alemão, cuja família diziam ser de camponeses de umlugarejo do grão-ducado. Os
seus papéis eram cartas dos pais, deirmãos e parentes, além de lembranças de
uns e outros, comoretratos, sem mais outro traço sentimental que não este da
família; esobre o seu cadáver foram encontradas as jóias que a sua
modestacondição permitia possuir: um anel de pouco preço, umas bichas deouro e
brilhantes mas de valor pouco considerável, um par de pulseiras, algum dinheiro
e mais nada.
II
O doutor Matos Garção era quem conduzia o inquérito; masesse moço, feito
delegado de polícia, por empenhos de políticos do interior e sendo ele mesmo de
São Sebastião de Passa Quatro, pecavapor inteiro desconhecimento do Rio de
Janeiro, de forma que, apesarde ter alguma inteligência, andou dando por paus e
por pedras, cego,tonto, numa descontinuidade de esforços de causar riso e pena.
Houve até uma diligência que, inspirada por ele, pareciaencaminhá-lo para a
descoberta do assassino da pequena GraübenHunderbrok; mas que ele não a soube
aproveitar. Tendo observadoque muitos desses imigrantes espontâneos chegam ao
Rio de Janeiro,com passagem por Buenos Aires, conseguiu obter da polícia
argentinainformações a respeito da alemãzinha assassinada. De lá, noticiaramque
ela estivera naquela cidade do Prata, havia já quatro anos, quando,tendo vinte
e três de idade, viera de França, de Paris, acompanhandouma família rica
argentina, como criada. Meses depois, poucos, quatro,se tanto, despedira-se
bruscamente e subitamente embarcara para aGuanabara. Era o que informaram as
pessoas da família Avendaña,com a qual aportara em Buenos Aires. Um casal de
alemães, cujomarido tinha um emprego secundário nas oficinas da
CervejariaBrama, sem ser solicitado, depôs perante o delegado. O que havia
deimportante, no depoimento dele, era que Graüben tinha na sua com-panhia um
filho de quatro anos, a que dera à luz alguns meses apósa sua chegada de Buenos
Ayres. O exame médico-legal tinha já indicado essa maternidade que ela parecia
querer ocultar.
O punhal foi bem examinado; mas apesar de parecer a todosuma arma de luxo e
antiga, cabo de prata lavrada, guarda de aço comarabescos tauxiados e a tal
inscrição sibilina - Soy yo! na lâmina tambémtauxiada de arabescos, nenhum dos
armeiros, chamados para quesitos, se animavam a dizê-lo autêntico, hesitavam na
determinação de suaprocedência, uns queriam-na toledana, outros italiana das
primitivasarmas da Renascença e alguns mesmo chegaram a pensar em umaimitação,
para "engazopar" os colecionadores "rastas" da América
doSul. A bainha não foi encontrada; a adaga estava imaculada desangue, pois a
morte se dera por estrangulamento, tendo o assassinosimplesmente esganado a
rapariga com ambas as mãos.
Ia assim o inquérito, cansando todos: delegado, escrivão, comissários, guardas,
agentes, polícias de farda, "encostados", jornalistas eo público; e
já o doutor Matos, de São Sebastião de Passa Quatro, seresolvera a fechar a
semana "espanhola" e inaugurar a "germânica"com a detenção
de muitos alemães, quando a 22 de junho, isto diasdepois do assassínio, surge
na delegacia um rapaz de vinte e poucosanos de idade, boa aparência, que se
acusa como autor do homicídiodo jardim.
Chamava-se ele Lourenço da Mota Orestes e era empregado nosTelégrafos, em um
modesto lugar, sendo muito estimado peloschefes, superiores e colegas, pela sua
reserva, sua assiduidade e obediência. Fora, antes, empregado no comércio, onde
seu pai era também muito estimado e considerado, pela sua honestidade e rigor
nocumprimento das suas obrigações. Tinha este um grande "bazar"muito
apregoado, pelas bandas do Estácio de Sá, onde comerciavacom toda a lisura, não
tendo por isso grande fortuna, empregandoquase toda a renda da loja nas suas
despesas de família.
Lourenço, ao entardecer daquele úmido dia de junho de...,chegou à delegacia e
disse precisar falar ao delegado sobre o assassínio da alemãzinha. Estava já a
autoridade muito enfarada com ocaso e demorou razoavelmente em recebê-lo.
Devido à insistência dorapaz, veio a ser ouvido duas horas depois de sua
chegada. Logo quese aproximou do doutor Matos, disse-lhe sem mais detença que
confessava ser ele o matador de Graüben. O jovem bacharel de SãoSebastião de
Passa Quatro estremeceu na ampla cadeira, levantou-secomo se fosse impelido por
uma mola, e, acompanhando a fala com umolhar desvairado, perguntou ao rapaz,
para quem tinha a mão direitaestendida, apontando-o dramaticamente, com o dedo
indicador:
- Foste tu, então?
- Fui, doutor, disse o rapaz serenamente.
Tocou o delegado a campainha, chamou os seus auxiliares, aosquais disse em tom
de grande satisfação:
- Está ali (apontou) quem matou a alemã no jardim.
Todos exclamaram a um só tempo:
- Este!
O delegado, de novo apontando para o rapaz, confirmou:
- Sim; é este.
Perguntou em seguida ao Lourenço:
- Não foste tu?
- Fui, doutor.
Determinou, então, o doutor Matos Garção que o metessem noxadrez; que o
vigiassem muito e não deixassem conversar comninguém. Logo que o rapaz se
encaminhou para a prisão da delegacia,onde estavam os xadrezes, ordenou ao
prontidão que telegrafasse aochefe, aos auxiliares, à Associação de Imprensa, a
todos os jornais,convidando todos para assistir à confissão do criminoso.
Com tal notícia, a cidade teve um contentamento de alívio ealguns, curiosos de
ver o assassino e talvez ouvir-lhe a confissão quea nova estampada à porta dos
jornais tinha feito encaminharem-separa o posto policial longínquo, tiveram que
esperar até quase àsonze horas da noite o momento de serem satisfeitos e dele
saíram nasimediações da madrugada.
O chefe e os policias graúdos chegaram às nove horas, osrepórteres dos
principais jornais pouco depois, mas faltava o do OArauto do Povo, um jomal
ainda novo, mas de grande venda, quechegou pelas proximidades das onze horas e
foi esperado devido àsordens do chefe, pois O Arauto fazia-lhe uma oposição
cega e queria ele provar à sua redação o quanto eram infundados os seus
artigos.
Tendo chegado, afinal, o repórter, seguido de fotógrafo comoalguns outros, o
criminoso foi introduzido.
Antes, tinham os jornalistas tirado aspectos da "mesa", como chefe de
polícia, auxiliares, delegados, escrivão, sentados, e, de pé, às costas destes,
inspetores, guardas, polícias, etc.
O moço entrou e puseram-no em uma cadeira próxima ao delegado distrital que
esperou, para tomar por termo a confissão, que os fotógrafos
"batessem" a chapa à luz da explosão do magnésio.
No começo, correu tudo em ordem e o acusado, com voz firme,articulando
distintamente palavra por palavra, disse o seu nome, a suafiliação, ter vinte e
cinco anos de idade, etc., etc. Narrou como se derao crime. Tendo, todos os
anos, quando podia gozar férias, aí pelo mêsde junho, o hábito de vir passar os
quinze dias delas em casa de seuamigo Leopoldo Martins Barroca, nos arredores
da praia do Pinto, dalagoa Rodrigo de Freitas, viera como de costume naquele
ano.Gostava de passá-los aí, pois, com a sua família, até aos quatorzeanos,
antes de estabelecer-se seu pai, ao deixar de ser feitor dojardim, ele residira
naquelas redondezas das quais guardava as maissuaves recordações. Naquele dia,
14 de junho de..., o do assassínio,tendo almoçado com a mulher e os filhos do
seu amigo, sem ele,pois o fazia mais cedo para não perder o seu ponto no
Arsenal deMarinha, onde era escrevente, saiu e foi ler o Jornal do Comérciona
venda do "seu" Eduardo, que ficava justamente na praia,
fazendoesquina com a rua do Pau, em que estava a casa do seu hospedeiro amigo.
Lera a folha vagarosamente e dera-lhe vontade de ir ao jardimpassear. Assim
fizera e, vagando pelas alamedas, naquele dia desemana, silenciosas e desertas,
encontrara com aquela alemã que, sóagora, pela leitura dos jornais, soube
chamar-se Graüben. Travara,a propósito não se lembra de quê, conversa com ela.
Ria-se muitoa moça, com um riso estreito e de pouca duração, com propósitoou
não, e pareceu-lhe, por diversos gestos, ter-se ela apaixonadopor ele. Em um
dado momento, quis beijá-la, ela o repeliu, mas continuou a conversar com ele
como se nada tivesse havido, no seu mau português.
Chegando a um lugar mais sombrio, repetiu a tentativa deabraçá-la e beijá-la e
repetiu com mais força e decisão. Ela, a alemãse enfureceu e arrancou não sabia
de que dobra do vestido, o punhalque foi encontrado, tentando feri-lo. Foi por
esse tempo que,desvairado pela luxúria, pelo despeito, pelo medo - tudo isto
misturado e multiplicado levou-o a agarrar a rapariga pelo pescoço, comambas as
mãos, cheio de frenesi apertou-o loucamente, cegamente e,quando pôde refletir,
viu que ela estava morta. Vendo-a assim, ocultouo cadáver em uma moita e saiu
muito naturalmente, aí pelas três horasda tarde. Foi para a casa de que era
hóspede e, ao dia seguinte, nonoturno, embarcava para São Paulo, onde estivera
até à vésperadaquele dia 22.
Essa parte principal do depoimento correu bem, mas logo que oacusado deu por
finda a acusação que fazia a si mesmo, todoscomeçaram a interrogá-lo, quase a
um só tempo - chefe, delegados,comissários, jornalistas, homens do povo e até
polícias.
Apesar da barafunda, a todos respondia com calma e precisão,mesmo porque, em
geral, as perguntas eram as mais idiotas possíveisou não tinham relação alguma
com o torpe crime do Jardim Botânico.
No dia seguinte, os jornais, pejados de retratos e outras gravuras,traziam
longas notícias, com os comentários do costume e alguns elogiavam o chefe,
outros calavam-se a tal respeito; mas, todos eramacordes em tachar de
revoltante o criminoso, tipo verdadeiramentelombrosiano, pelas feições e pela
cínica calma dos delinqüentes natos.
A não ser a calma, não havia nada de verdade nisso. O rapaz erabem parecido e
conformado de corpo e rosto, mais alto que baixo,branco sem jaça, robusto mais
do que a média; e tinha um olharagudo, por vezes agudíssimo, mas sempre meigo e
triste, onde haviamuito de vago e de melancolia.
No dia seguinte, começaram a interrogar as pessoas aludidas naconfissão pelo
criminoso. Dous guardas do jardim reconheceram-no;um, porém, dizia que o vira
entrar na véspera do crime, no dia desanto Antônio; entretanto, o outro jurava
que ele estivera no jardim, a14, por sinal que o avistara, nas proximidades do
chafariz, quando iao visitante dobrar a alameda à esquerda e perpendicular à
principalda entrada.
Este depoimento, se bem que fosse confirmado, mais tarde e emacareação como
protagonista da tragédia, estava em contradição commuitos outros. Dona Zilda, a
mulher do amigo em cuja casa Lourençoestivera hospedado, depôs dizendo que, no
dia do crime, o seu hóspede lhe chegara à casa, aí pelas três horas e pelos
fundos, pois era seuhábito, depois de ler o jornal na venda, descer a praia,
embrenhar-sena restinga, chupar cambuim, pitangas, frutas de cardo,
mexerica,qualquer fruta silvestre e voltar para a casa pelos fundos que
davampara a restinga do Leblon. Perguntada se era costume dele ir ao
jardim,disse que sim, parecendo-lhe até que, no dia de santo Antônio, lá fora.
O proprietário da venda, o senhor Eduardo Silveira, mais oumenos confirmou o
depoimento de dona Zilda. Disse que, deixandoo senhor Lourenço de ler o
Comércio pelas duas horas, o vira descerà praia, como era do seu hábito,
procurar um atalho que levava árestinga; e não acreditava que tivesse ido ao
jardim, naquele dia, poraquelas horas, pois estava sem colarinho nem gravata,
não se entrando,como é sabido, naquele logradouro público sem esses
complementosdo vestuário.
O marido de dona Zilda, o amigo de Lourenço, pouco sabia,mas asseverava que ele
fora ao jardim, a 13, dia de santo Antônio,pois, tendo ficado em casa para
remendar uma cerca e concertar ogalinheiro, o vira sair completamente vestido,
convidando-o, a ele,depoente, a acompanhá-lo, o que não fez, e com isso
desculpou-se,por ter de executar aqueles servicinhos caseiros.
Reinquirido, à vista do depoimento do vendeiro, a respeito decomo tinha podido
entrar no jardim sem colarinho, nem gravara,explicou Lourenço que obtivera
esses dous objetos no caminho deJorge Turco, nas Três-Vendas, e os colocara no
pescoço, nos fundosdo botequim do canto da estrada de Dona Castorina.
Jorge Turco, convidado a depor, afirmou nunca ter vendido umalfinete ao rapaz,
que conhecia, entretanto, por lhe passar pela portado negócio em companhia do
"seu" Leopoldo da rua do Pau, um dosseus bons fregueses e a mulher
também.
O dono do botequim dissera que, de fato, um dia destes da semanapassada, tinha
consentido que ele fosse aos fundos do seu negócio,mas não sabia ao certo o dia
e não podia garantir que, para lá entrassesem colarinho e gravata. Com eles,
saiu; disso, tinha memória.
Apesar de toda essa confusão de depoimentos que resultava emmostrar não ter ele
co-participação nem ser autor do crime, Lourençocontinuava a afirmar com a mais
convincente das firmezas que eraautor do assassínio; que fora só ele quem
matara a alemã; que mereciacastigo e ajuntava detalhes elucidativos da sua luta
com a alemã quedizia ter morto, nas condições do seu primitivo depoimento.
Vindo a saber-se que os dias que mediaram entre o do crime eo da confissão, não
estivera ele em São Paulo, mas, na barra daGuaratiba, em casa de uns antigos
serviçais de seu pai, muito chegadosà família, sendo ele até padrinho de um dos
filhos deles - vindo asaber-se disso, explicava a falsidade, do seu primeiro
depoimentonessa parte, como tendo por fito não querer comprometer aquelespobres
pretos aos quais muito estimava e amava.
Toda a sua confissão ia assim se desmoronando com as informações que traziam as
pessoas conceituadas no seu meio peculiar, eindicadas tácita ou explicitamente
nos depoimentos do acusado, asquais procuradas para elucidar os passos dados
por ele naquele sinistroposmerídio de 14 de junho de..., vinham todas elas
mostrar ainverossimilhança de suas afirmações, fazendo-o claramenteinocente.
Não se sabia o que pensar de tão esquisito caso...
O pai, como informante, depôs longamente sobre o caráter e oshábitos do filho.
O seu depoimento foi tocante e longo. Era um velhoportuguês forte e firme, com
um olhar ladino, mas bondoso, inspirando toda a sua pessoa, retidão e franqueza.
Contou ele que desdeuns cinco ou seis anos para cá o gênio do seu filho se
transformara.Até aos vinte anos, era alegre, até folgazão, gostava de regatas,
de festas, de vestuário e atavios. Logo, aos dezesseis anos, pedira-lhe que
oempregasse, porque não tinha propensão para os estudos. Ele, pois,se
entristecera, porquanto o julgava, como todos os seus mestres,inteligente e
aplicado. Fazendo-lhe a vontade, apesar de isso desgostá-loe também à mulher,
empregara-o em uma casa comercial, por atacado,onde fez carreira, sendo de ano
para ano aumentado de vencimentos.Deu em morar fora da casa paterna, sob o
pretexto de ficar mais pertodo clube de regatas de que era sócio, e não
precisar acordar-se tãocedo para comparecer aos "ensaios". Não se opôs,
já por julgá-loajuizado, já por apreciar o seu desenvolvimento físico e o ar de
saúdeque ia ganhando.
Aos dezenove anos para os vinte, sem explicação alguma (aí asua voz tremeu),
soube que o seu filho tinha abandonado o empregoe fugira não sabia para onde.
Fora ao patrão, pagou-lhe uns pequenos adiantamentos que fizera a casa ao rapaz
e, quase dois anos depois, veio a saber que o filho estava na maior miséria em
São Paulo,exercendo os duros e humildes ofícios de varredor e carregador deuma
venda de arrabalde. A instâncias de sua mulher, partiu paraaquela capital,
trouxe-o e, um ano inteiro, Lourenço lhe ficou emcasa, trocando raras palavras
com ele e os irmãos, só se expandindomais longamente com a mãe. Não atinava com
a mágoa do filho etemia que se matasse. Vivia a ler livros de religião e
espiritas, cujos títulos ele, o pai, não sabia repetir. Não queria ver jornais,
nem revistas.Seus cuidados com a integridade mental do filho eram grandes,
tantomais que, várias vezes, lhe dissera a mulher que, quase sempre, quandoia
ao quarto, o encontrava a chorar ou com a fisionomia de quemtinha acabado de
fazer isso. Por intermédio dela, sempre lhe forneciadinheiro, para as suas
pequenas necessidades; e, longe de empregá-loconsigo, seu filho dava a maior
parte aos criados da casa, às criançasda vizinha, só reservando uma pequena e
diminuta quantia para acompra de cigarros ordinaríssimos e fósforos. Quisera-o
mandar paraa Europa, e ele não aceitara, dizendo à mãe que tinha medo dooceano.
Preferia que lhe arranjassem um pequeno emprego públicomodesto; com as suas
relações, conseguira ele, o pai, obter; e, desdeque o exercia, como que tinha
melhorado de estado de espírito.Quanto ao crime, não sabia nada; mas não
julgava seu filho capaz detanta maldade, antes o supunha louco, com a mania do
martírio e, emtempo, havia requerido o competente exame de sanidade mental.
A parte do depoimento do pai que aludia à fuga do filho paraSão Paulo
impressionou o repórter d'O Arauto, que, daqui e dali, veioa saber e publicou o
motivo dela. Ele abalara para lá, devido a terdado um desfalque na casa em que
era empregado, no valor de doisou três contos, que foram pagos pelo pai.
A policia que já estava disposta a não acreditar na sua confissão, à vista de
tal precedente, voltou à carga, encerrou o inquérito eremeteu-o ao juiz
competente. As contradições e incongruênciasentre a confissão do réu e os
depoimentos de testemunhas e informantes continuaram a encher de mistério o
caso.
O juiz sumariante ficou completamente atrapalhado, doido até,com tal crime e
tal criminoso. Não havia uma hipótese a fazer, quasetodos os depoimentos
levavam à convicção de que a confissão deLourenço era falsa; ele, porém,
confessava com tal firmeza! Que havia de pensar?
Quem sabe se ele não queria despistar a policia, mas com queinteresse? Os seus
amigos do peito eram poucos e todos eles podiamdar numerosas testemunhas como
tinham passado todo o dia 14,quase todo, nas suas repartições. Por dinheiro?
Era absurdo.
O advogado, chamado pelo pai, disse-lhe logo:
- Aceito, mas o meu maior adversário é seu filho... Não cessade confessar que
foi ele e justificar mais ou menos bem os desmentidosàs suas afirmações. Olhe
como se saiu daquela "potoca" de São Paulo.Perfeitamente aceitável...
É o diabo! Mas... aceito!
O advogado, em desespero de causa, pediu exame de sanidademental para o seu
cliente. O juiz com muito contentamento deferiu opedido. Lourenço foi para o
hospício, onde esteve internado doismeses. Da comissão, fazia parte o doutor
Juliano Moreira, que empregou todo o seu saber e toda a sua quente simpatia
para decifrar aqueleangustioso enigma psicológico.
Observado cuidadosamente, virado o seu espírito pelo avesso,interrogado dessa e
daquela forma, escrevendo e falando não revelouqualquer perturbação nas suas
faculdades mentais. Era o homemcomum, o médio, sem nenhuma degenerescência ou
psicose, inferiorou superior, acentuada.
Foi pronunciado; mas, antes que entrasse em júri, uma pequenarevista lembrou um
caso muito semelhante acontecido na Alemanha,em Essen, e contando em um livro
do senhor Hugo Fridlaender eresumido, no Le Temps, por Th. de Wyzewa.
Tratava-se de um talAlfred Land que, tendo praticado uma pequena falcatrua, um
furtodoméstico, se sentiu tão angustiado, tão cheio de mágoa, de ralaçãoíntima
a lhe pedir expiação da falta, que não trepidou em acusar-secomo autor de um
assassínio misterioso, o qual ele estava materialmenteimpossibilitado de
executar.
Citando Wyzewa, o autor do artigo dizia que, em Lourenço, aconsciência de ter
desonrado o seu nome, de ter cometido um crimevil e covarde, de ter injuriado,
maculado a honra dos pais e da família,era o que o roía interiormente, o
desassossegava, o ralava dia e noite,silenciosamente, sem que ele avaliasse bem
a tensão desse estadod'alma, até o dia em que a notícia do assassínio da
pequena alemã,num recanto afastado do Jardim Botânico, sugeriu-lhe a idéia de
resgatar o seu erro de rapazola com uma condenação por assassínio.
Levava-o a júri uma espécie de necessidade de resgatar a suafalta de um modo
"heróico, romanesco e místico" da honestidade;uma premente
determinação de expiação do seu crime de furto,determinação que invadira aos
poucos, insidiosamente, a sua vontade, no silêncio de suas meditações e nas
horas angustiosas doremorso e do arrependimento.
Ninguém aqui, como aquele juiz de instrução do Crime e castigose abalança a ler
as pequenas revistas de rapazes, para estar a par dapsicologia mórbida dos
criminosos cerebrais e inexplicáveis; e, porisso, muito naturalmente, não houve
quem interpretasse de modoplausível a atitude daquele rapaz que parecia desejar
com volúpiauma condenação por crime hediondo e execrando.
Foi a júri e não foi difícil absolvê-lo. Ninguém acreditava na
suacriminalidade, nem o promotor, nem jurados, nem juiz, ninguém!Quando, porém,
o juiz, à vista das respostas do júri, mandou-o pôrem liberdade, se por
"al" não estivesse preso, conforme a linguagemforense, Lourenço se
levantou, pediu vênia ao juiz, e, perante este eos jurados, protestou contra a
sua absolvição, nos seguintes termos:
- Senhor juiz e senhores jurados, eu protesto contra a minhaabsolvição que é
iníqua e injusta, em face da minha consciência. Souum criminoso, ninguém melhor
do que eu pode afirmá-lo; querosofrer, para resgatar-me e poder, então, viver
outra vez com alegria esatisfação, no convívio dos meus semelhantes. Nenhuma
justiça,nenhum homem tem o direito de se opor a esse meu sincero
desejo...Protesto, portanto!
Sentou-se; mas, o promotor não apelou.
CLARA DOS ANJOS
A Andrade Murici
O carteiro Joaquim dos Anjos não era homem de serestas e serenatas, mas gostava
de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta,instrumento que já foi muito
estimado, não o sendo tanto atualmentecomo outrora. Acreditava-se até músico,
pois compunha valsas, tangose acompanhamentos para modinhas.
Aprendera a "artinha" musical na terra de seu nascimento,
nosarredores de Diamantina, e a sabia de cor e salteado; mas não safra daí.
Pouco ambicioso em música, ele o era também nas demais manifestações de sua
vida. Empregado de um advogado famoso, sempre quisera obter um modesto emprego
público que lhe desse direito àaposentadoria e ao montepio, para a mulher e a
filha. Conseguiraaquele de carteiro, havia quinze para vinte anos, com o qual
estavamuito contente, apesar de ser trabalhoso e o ordenado ser exíguo.
Logo que foi nomeado, tratou de vender as terras que tinha nolocal de seu
nascimento e adquirir aquela casita de subúrbio, porpreço módico, mas, mesmo
assim, o dinheiro não chegara e o restopagou ele em prestações. Agora, e mesmo
há vários anos, estava deplena posse dela. Era simples a casa. Tinha dois
quartos, um que davapara a sala de visitas e outro, para a de jantar.
Correspondendo a umterço da largura total da casa, havia nos fundos um puxadito
que eraa cozinha. Fora do corpo da casa, um barracão para banheiro,
tanque,etc.; e o quintal era de superfície razoável, onde cresciam
goiabeirasmaltratadas e um grande tamarineiro copado.
A rua desenvolvia-se no plano e, quando chovia, encharcavaque nem um pântano;
entretanto, era povoada e dela se descortinavaum lindo panorama de montanhas
que pareciam cercá-la de todos oslados, embora a grande distância. Tinha boas
casas a rua. Havia atéuma grande chácara de outros tempos com aquela casa
característicade velhas chácaras de longa fachada, de teto acaçapado, forrada
deazulejos até â metade do pé-direito, um tanto feia, é fato, sem garridice,
mas casando-se perfeitamente com as anosas mangueiras, com as robustas
jaqueiras e com todas aquelas grandes e velhas árvoresque, talvez, os que as
plantaram, não tivessem visto frutificar.
Por aqueles tempos, nessa chácara, se haviam estabelecido
as"bíblias". Os seus cânticos, aos sábados, quase de hora em
hora,enchiam a redondeza. O povo não os via com hostilidade, mesmoalguns
humildes homens e pobres raparigas simpatizavam com eles,porque, justificavam,
não eram como os padres que, para tudo,querem dinheiro.
Chefiava os protestantes um americano, Mr. Sharp, homemtenaz e cheio de uma
eloqüência bíblica que devia ser magnífica eminglês; mas que, no seu duvidoso
português, se fazia simplesmentepitoresca. Era Sharp daquela raça curiosa de
yankees que, de quandoem quando, à luz da interpretação de um ou mais
versículos da Bíblia,fundam seitas cristãs, propagam-nas, encontram adeptos
logo, osquais não sabem bem por que foram para a nova e qual a diferençaque há
entre esta e a de que vieram.
Fazia prosélitos e, quando se tratava de iniciar uma turma, osnoviços dormiam
em barracas de campanha, erguidas no eirado dachácara ou entre as suas velhas
árvores maltratadas e desprezadas. Ascerimônias preparatórias duravam uma
semana, cheia de cânticosdivinos; e a velha propriedade, com as suas barracas e
salmodias,adquiria um aspecto esquisito de convento ao ar livre de mistura
comum certo ar de acampamento militar.
Da redondeza, poucos eram os adeptos ortodoxos; entretanto,muitos lá iam por
mera curiosidade ou para deliciar-se com a oratória de Mr. Sharp.
Iam sem nenhuma repugnância, pois é próprio do nossopequeno povo fazer um
extravagante amálgama de religiões ecrenças de toda sorte, e socorrer-se desta
ou daquela, conforme ostranses de sua existência. Se se trata de afastar
atrasos de vida, apelapara a feitiçaria; se se trata de curar uma moléstia
tenaz e resistente,procura o espírita; mas não falem à nossa gente humilde em deixar
debatizar o filho pelo sacerdote católico, porque não há quem não sezangue: Meu
filho ficar pagão! Deus me defenda!
Joaquim não fazia exceção desta regra e sua mulher, a Engrácia,ainda menos.
Eram casados há quase vinte anos, mas só tinham uma filha, aClara. O carteiro
era pardo claro, mas com cabelo ruim, como se diz;a mulher, porém, apesar de
mais escura, tinha o cabelo liso.
Na tez, a filha puxava o pai; e no cabelo, à mãe. Na estatura,ficara entre os
dois. Joaquim era alto, bem alto, acima da médiaombros quadrados; a mãe, não
sendo muito baixa, não alcançava amédia, possuindo uma fisionomia miúda, mas
regular, o que nãoacontecia com o marido que tinha o nariz grosso, quase chato.
A filha,a Clara, tinha ficado em tudo entre os dois; média deles, era bem
afilha de ambos. Habituada às musicatas do pai, crescera cheia devapores das
modinhas e enfumaçara a sua pequena alma de raparigapobre com os dengues e a
melancolia dos descantes e cantarolas.
Com dezessete anos, tanto o pai como a mãe tinham por elagrandes desvelos e
cuidados. Mais depressa ia Engrácia à venda de"seu" Nascimento,
buscar isto, ou aquilo, do que ela. Não que a vendade "seu"
Nascimento fosse lugar de badernas; ao contrário: as pessoasque lá faziam
"ponto" eram de todo o respeito.
O Alípio, uma delas, era um tipo curioso de rapaz, que, conquanto pobre, não
deixava de ser respeitador e bem comportado.Tinha um aspecto de galo de briga;
entretanto, estava longe de possuir a ferocidade repugnante desses galos
malaios de apostas, nãopossuindo - é preciso saber - nenhuma.
Um outro que aparecia sempre lá era um inglês, Mr. Persons,desenhista de uma
grande oficina mecânica das imediações. Quandosaía do trabalho, passava na
venda, lá se sentava naqueles característicos tamboretes de abrir e fechar, e
deixava-se ficar até ao anoitecerbebericando ou lendo os jornais do senhor
Nascimento. Silenciosoquase taciturno, pouco conversava e implicava muito com
quem otratava por mister.
Havia lá também o filósofo Meneses, um velho hidrópico, quese tinha na conta de
sábio, mas que não passava de um simples dentista clandestino, e dizia tolices
sobre todas as cousas. Era um velho branco, simpático, com um todo de imperador
romano, barbas alvase abundantes.
Aparecia, às vezes, o J. Amarante, um poeta, verdadeiramentepoeta, que tivera o
seu momento de celebridade em todo o Brasil, seainda não a tem; mas que,
naquela época, devido ao álcool e a desgostos íntimos, era uma triste ruína de
homem, apesar dos seus dezvolumes de versos, dez sucessos, com os quais todos
ganharamdinheiro menos ele. Amnésico, semi-imbecilizado, não seguia umaconversa
com tino e falava desconexamente. O subúrbio não sabiabem quem ele era;
chamava-o muito simplesmente - o poeta.
Um outro freqüentador da venda era o velho Valentim, um por-tuguês dos seus
sessenta anos e pouco, que tinha o corpo curvadopara diante, devido ao hábito
contraído no seu oficio de chacareiroque já devia exercer há mais de quarenta.
Contava 'casos" e anedotasde sua terra, pontilhando tudo de rifões
portugueses do maissaboroso pitoresco.
Apesar de ser assim decente, Clara não ia à venda; mas o pai, emalguns
domingos, permitia que fosse com as amigas ao cinema doMéier ou Engenho de
Dentro, enquanto ele e alguns amigos ficavamem casa tocando violão, cantando
modinhas e bebericando parati.
Pela manhã, logo nas primeiras horas, os companheiros apareciam, tomavam café,
iam em seguida para o quintal, para debaixo dotamarineiro, jogar a bisca, com o
litro de cachaça ao lado; e ai, sem dar uma vista d'olhos sobre as montanhas
circundantes, nuas e empedrouçadas, deixavam-se ficar até à hora do
"ajantarado" que a mulher e a filha preparavam.
Só depois deste é que as cantorias começavam. Certo dia, umdos companheiros
dominicais do Joaquim pediu-lhe licença paratrazer, no dia do aniversário dele,
que estava próximo, um rapaz desua amizade, o Júlio Costa, que era um exímio
cantor de modinhas.Acedeu. Veio o dia da festa e o famoso trovador apareceu.
Branco,sardento, insignificante, de rosto e de corpo, não tinha as tais
melenasdenunciadoras, nem outro qualquer traço de capadócio.
Vestia-seseriamente com um apuro muito suburbano; sob a tesoura de alfaiate de
quarta ordem. A única pelintragem adequada ao seu mister que apresentava
consistia em trazer o cabelo repartido no alto da cabeça, dividido muito
exatamente pelo meio. Acompanhava-o o violão.A sua entrada foi um sucesso.
Todas as moças das mais diferentes cores que, ai, a pobrezaharmonizava e
esbatia, logo o admiraram. Nem César Bórgia,entrando mascarado, num baile à
fantasia dado por seu pai, noVaticano, causaria tanta emoção.
Afirmavam umas para as outras:
-É ele! É ele, sim!
Os rapazes, porém, não ficaram muito contentes com isto; e,entre eles,
puseram-se a contar histórias escabrosas da vida galantedo cantor de modinhas.
Apresentado aos donos da casa e à filha, ninguém notou o olharguloso que deitou
para os seios empinados de Clara.
O baile começou com a música de um "terno" de flauta, cavaquinho e
violão. A polca era a dança preferida e quase todos a dançavam com requebros
próprios de samba.
Num intervalo Joaquim convidou:
- Por que não canta, "seu" Júlio?
- Estou sem voz, respondeu ele.
Até ali, ele tinha tomado parte no "remo"; e, repinicando as cordas,
não deixava de devorar com os olhos os bamboleios de quadris deClarinha, quando
dançava. Vendo que seu pai convidara o rapaz,animou-se a fazê-lo também:
- Por que não canta, "seu" Júlio? Dizem que o senhor canta tãobem...
Esse - "tão bem" - foi alongado maciamente. O cantadoracudiu logo:
- Qual, minha senhora! São bondades dos camaradas...
Concertou a "pastinha" com as duas mãos, enquanto Clara dizia:
- Cante! Vá!
- Já que a senhora manda, disse ele, vou cantar.
Com todo o dengue, agarrou o violão, fez estalar as cordas e anunciou:
- Amor e sonho.
E começou com uma voz muito alta, quase berrando, a modinha,para depois
arrastá-la num tom mais baixo, cheio de mágoa e langor,sibilando os
"ss", carregando os "rr" das metáforas horrendas de
queestava cheia a cantoria. A cousa era, porém, sincera; e mesmo as comparações
estrambóticas levantavam nos singelos cérebros das ouvintes largas perspectivas
de sonhos, erguiam desejos, despertavam anseios e visões douradas. Acabou. Os
aplausos foram entusiásticos e só Clarínha não aplaudiu, porque, tendo sonhado
durante toda a modinha, ficara ainda embevecida quando ela acabou...
Dias depois, vindo à janela por acaso - era de tarde - semgrande surpresa, como
se já o esperasse, Clara recebeu o cumprimento do cantor magoado. Não pôs
malícia na cousa, tanto assim quedisse candidamente à mãe:
- Mamãe, sabe quem passou aí?
- Quem?
- "Seu" Júlio.
- Que Júlio?
- Aquele que cantou nos "anos" de papai.
A vida da casa, após a festança de aniversário do Joaquim, continuou a ser a
mesma. Nos domingos, aquelas partidas de bisca como Eleutério, servente da
biblioteca, e com o Augusto, guarda municipal,acompanhadas de copitos de
cachaça, e o violão, à tarde. Não tardouque se viesse agregar um novo comensal:
era o Júlio Costa, o famosomodinheiro suburbano, amigo íntimo do Augusto e seu
professor detrovas.
Júlio quase nunca jantava, pois tinha sempre convites em todos osquatro pontos
cardeais daquelas paragens. Tomava parte nas partidasde bisca, de parceirada, e
pouco bebia. Apesar de não demorar-sepela tarde adentro, pôde ir cercando a
rapariga, a Clara, cujos seiosempinados, volumosos e redondos fascinavam-lhe
extraordinariamente e excitavam a sua gula carnal insaciável. Em começo foram
sóolhares que a moça, com os seus úmidos olhos negros, grandes,quase cobrindo
toda a esclerótica, correspondia a furto e com medo;depois, foram pequenas
frases, galanteios, trocados às escondidas,para, afinal, vir a fatídica carta.
Ela a recebeu, meteu-a no seio e, ao deitar-se, leu-a, sob a luz davela,
medrosa e palpitante. A carta era a cousa mais fantástica, no quediz respeito à
ortografia e à sintaxe, que se pode imaginar; tinha,porém, uma virtude: não era
copiada do Secretário dos amantes, eraoriginal. Contudo a missiva fez
estremecer toda a natureza virgem deClara que, com a sua leitura, sentiu haver nela
surgido alguma cousade novo, de estranho, até ali nunca sentida. Dormiu mal.
Não sabiabem o que fazer: se responder, se devolver. Viu o olhar severo do
pai;as recriminações da mãe. Ela, porém, precisava casar-se. Não havia deser
toda a vida assim como um cão sem dono... Os pais viriam a morrere ela não
podia ficar pelo mundo desamparada... Uma dúvida lheveio: ele era branco; ela,
mulata... Mas que tinha isso? Tinham-se visto tantos casos... Lembrou-se de
alguns... Por que não havia de ser? Ele falava com tanta paixão... Ofegava,
suspirava, chorava; e os seus seios duros estouravam de virgindade e de
ansiedade de amar...Responderia; e assim fez, no dia seguinte. As visitas de
Costatomaram-se mais demoradas e as cartas mais constantes. A mãedesconfiou e perguntou
à filha:
- Você está namorando "seu" Júlio, Clarinha?
- Eu, mamãe! Nem penso nisso...
- Está, sim! Então não vejo?
A menina pôs-se a chorar; a mãe não falou mais nisso; e Clara,logo que pôde,
mandou pelo Aristides, um molecote da vizinhança,uma carta ao modinheiro,
relatando o fato.
Júlio morava na estação próxima e a situação de sua família erabem superior à
sua namorada. O seu pai tinha um emprego regularna prefeitura e era, em tudo,
diferente do filho. Sisudo, grave, sério,ia até a imponência grotesca do bom
funcionário; e não seria capazde admitir que a namorada do filho dançasse na
sua sala. Sua mulhernão tinha o ar solene do marido, era, porém, relaxada de
modos ehábitos. Comia com a mão, andava descalça, catava intrigas e
"novidades" da vizinhança; mas tinha, apesar disso, uma pretensão
intima de ser grande cousa, de uma grande família. Além do Júlio, tinha três
filhas, uma das quais já era adjunta municipal; e, das outras duas, uma estava
na Escola Normal e a mais moça cursava o Instituto de Música.
Tiravam muito ao pai, no gênio sobranceiro, no orgulho fofo dafamília; e tinham
ambição de casamentos doutorais. Mercedes,Adelaide e Maria Eugênia, eram esses
os nomes, não suportariam denenhuma forma Clara como cunhada, embora
desprezassem soberbamente o irmão pelos seus maus costumes, pelo seu violão,
pelosseus plebeus galos de briga e pela sua ignorância crassa.
Pequeno-burguesas, sem nenhuma fortuna, mas, devido à situaçãodo pai e a terem
freqüentado escolas de certa importância, elas nãoadmitiriam, para Clara, senão
um destino: o de criada de servir.
Entretanto, Clara era doce e meiga; inocente e boa, podia-sedizer que era muito
superior ao irmão delas pelo sentimento, ficandotalvez acima dele pela
instrução, conquanto fosse rudimentar, comonão podia deixar de ser, dada a sua
condição de rapariga pobríssima.Júlio era quase analfabeto e não tinha poder de
atenção suficientepara ler o entrecho de uma fita de cinematógrafo. Muito
estúpido, asua vida mental se cifrava na composição de modinhas delambidas,recheadas
das mais estranhas imagens que a sua imaginação erótica,sufocada pelas
conveniências, criava, tendo sempre perante seusolhos o ato sexual.
Mais de uma vez, ele se vira a braços com a polícia por causa dedefloramento e
seduções de menores.
O pai, desde a segunda, recusara intervir; mas a mãe, dona Inês,a custo de
rogos, de choro, de apelo - para a pureza de sangue dafamília, conseguira que o
marido, o capitão Bandeira, procurasseinfluenciar, a fim de evitar que o filho
casasse com uma negrinha dedezesseis anos, a quem o Júlio "tinha feito
mal".
Apesar de não ser totalmente má, os seus preconceitos junto àestreiteza da sua
inteligência não permitiram ao seu coração queagasalhasse ou protegesse o seu
infeliz neto. Sem nenhum remorso,deixou-o por aí, à toa, pelo mundo...
O pai, desgostoso com o filho, largara-o de mão; e quase não seviam. Júlio
vivia no porão da casa ou nos fundos da chácara ondetinha gaiolas de galos de
briga, o bicho mais hediondo, mais repugnantemente feroz que é dado a olhos
humanos ver. Era a sua indústriae o seu comércio, esse negócio de galos e as
suas brigas em rinhadeiros.Barganhava-os, vendia-os, chocava as galinhas,
apostava nas rinhas;e com o resultado disso e com alguns cobres que a mãe lhe
dava,vivia e obtinha dinheiro para vestir-se. Era o tipo completo dovagabundo
doméstico, como há milhares nos subúrbios e em outrosbairros do Rio de Janeiro.
A mãe, sempre temendo que se repetissem os seus ajustes decontas com a polícia,
esforçava-se sempre por estar ao corrente dosseus amores. Veio a saber do seu
último com a Clara e repreendeu-onos termos mais desabridos. Ouviu-a o filho
respeitosamente, semdizer uma palavra; mas, julgou da boa política relatar, a
seu modo,por carta, tudo à namorada. Assim escreveu:"Queridinha confeço-te
que ontem quando recebi a tua cartaminha mãe viu e fiquei tão louco que
confecei tudo a mamãeque lhe amava muito e fazia por você as maiores
violências,ficaram todos contra mim é a razão porque previno-te que nãoligues
ao que lhe disserem, por isso pesso-te que preze bem omeu sofrimento. Pense bem
e veja se estás resolvida a fazer o que lhe pedi na última cartinha.Saudades e
mais saudades deste infeliz que tanto lhe adora enão é correspondido. O teu
Júlio".
Clara já estava habituada com a redação e ortografia do seunamorado, mas,
apesar de escrever muito melhor, a sua instrução erainsuficiente para desprezar
um galanteador tão analfabeto. Ainda porcima, a sua fascinação pelo modinheiro
e a sua obsessão pelo casamento lhe tiravam toda a capacidade critica que
pudesse ter. A cartaproduziu o efeito esperado por Júlio. Choro, palpitações,
anseios vagos,esperanças nevoentas, vislumbres de céus desconhecidos e
encantados- tudo isso aquela carta lhe trouxe, além do halo de dedicação e
amorpor ela com que Clara fez resplandecer, na imaginação, as pastinhasdo
violeiro. Daí a dias, fez o prometido, isto é, deixou a janela doquarto aberta
para que ele entrasse no aposento. Repetiu a façanhaquase todas as noites
seguidas, sem que ele se demorasse muito no quarto.
Nos domingos, aparecia, cantava e semelhava que entre ambosnão havia nada. Um
belo dia, Clara sentiu alguma cousa de estranhono ventre. Comunicou ao
namorado. Qual! Não era nada, disse ele.Era, sim; era o filho. Ela chorou, ele
acalmou-a, prometendo casamento. O ventre crescia, crescia...
O cantador de modinhas foi fugindo, deixou de aparecer amiúdo; e Clara chorava.
Ainda não lhe tinham percebido a gravidez.A mãe, porém, com auxilio de certas
intimidades próprias de mãepara filha, desconfiou e pó-la em confissão. Clara
não pôde esconder,disse tudo; e aquelas duas humildes mulheres choraram
abraçadasdiante do irremediável... A filha teve uma idéia:
- Mamãe, antes da senhora dizer a papai, deixa-me ir até à casadele, para falar
com a sua mãe?
A velha meditou e aceitou o alvitre:
- Vai!
Clara vestiu-se rapidamente e foi. Recebida com altaneria poruma das filhas,
disse que queria falar à mãe de Júlio. Recebeu-a estarispidamente; mas a
rapariga, com toda a coragem e com sangue-friodifícil de crer, confessou-lhe
tudo, o seu erro e a sua desdita.
- Mas o que é que você quer que eu faça?
- Que ele se case comigo, fez Clara num só hausto.
- Ora, esta! Você não se enxerga! Você não vê mesmo quemeu filho não é para se
casar com gente da laia de você! Ele nãoamarrou você, ele não amordaçou você...
Vá-se embora, rapariga!Ora já se viu! Vá!
Clara saiu sem dizer nada, reprimindo as lágrimas, para que narua não lhe
descobrissem a vergonha. Então, ela? Então ela não se podia casar com aquele
calaceiro, sem nenhum título, sem nenhumaqualidade superior? Por quê?
Viu bem a sua condição na sociedade, o seu estado de inferioridade permanente,
sem poder aspirar a cousa mais simples a que todasas moças aspiram. Para que
seriam aqueles cuidados todos de seuspais? Foram inúteis e contraproducentes,
pois evitaram que ela conhecesse bem justamente a sua condição e os limites das
suas aspirações sentimentais... Voltou para casa depressa. Chegou; o pai ainda
não viera.
Foi ao encontro da mãe. Não lhe disse nada; abraçou-a chorando. A mãe também
chorou e, quando Clara parou de chorar, entre soluços, disse:
- Mamãe, eu não sou nada nesta vida.
UMA VAGABUNDA
É um caso bem curioso o que te vou contar e que me parecedigno de registro.
Para muitos parecerá fantástico; mas, como tusabes, já houve quem dissesse que
a realidade é mais fantástica do que imaginamos.
- Dostoievski?
- Sim; creio que foi ele, embora não afiance que fosse comestas palavras. Sabes
bem como são as palavras dele?
- Não; mas estou certo que não lhe trais o pensamento... Enfim!Isso não vem ao
caso. Conta lá a história.
- Conto-a a ti com todos os detalhes, para que possas tirar delatodo o profundo
sentido que tem. Se se tratasse de outro, havia deabreviá-la, transformá-la-ia
em anedota; mas, tratando-se de ti, não hánada que seja prolixo para a
compreensão de semelhante fato.
Eles estavam no Campo de Sant'Ana e aquelas cutias sempreariscas e aquelas
saracuras de galinheiro, apesar de tudo, não deixavam de dar um toque selvagem
naquele jardim educado.
O narrador continuou:
- Foi isto há alguns anos passados. Bebia eu muito nesse tempo,muito mesmo
porque tinha por divisa ou tudo ou nada. Além dissoadotam uma frase não sei de
que autor, como complemento da divisa.
- Qual é? perguntou o outro.
- "O burguês bebe champanha; o herói bebe aguardente".
- Essas duas sentenças cobiçadas deviam dar resultados surpreendentes.
- Deram como tu sabes, mas eu te quero contar uma que tu não sabes.
- Duvido.
- Pois vais ver.
- Não acredito, pois sei todas as tuas proezas desse tempo.
- Essa proeza, porém, não é minha; é de outro ou de outra.
- Que outra?
- Conheceste a Alzira?
- Sim! Aquela vagabunda que ia á casa do "Guaco", na rua doCarmo.
- É isso mesmo: aquela vagabunda que ia à casa do "Guaco",na rua do
Carmo. É isso.
- Homem! Pelo modo por que falas, parece que tiveste paixãopor ela...
- Não tive paixão, mas sou-lhe grato.
- Por quê?
- Lembras-te bem que ela bebia conosco calistos de "Guaco".
- Lembro-me bem.
- E que ela tivera um passado de lustre, de opulência, no altomundanismo?
- Perfeitamente. Contudo, Frederico, eu penso que ela exageravaum pouco.
- É verdade. Aquele caso que ela nos contou de ter perdidouma noite, não sei em
que jogo, em São Paulo, oitenta contos, não meparece verossímil; entretanto...
- Não é só isso. Todas as sumidades da República haviam sidoseus amantes. Ora,
isso não é possível, porquanto muitas delas, quandocomeçaram, eram pobretões
que não podiam aspirar a semelhante"objeto de luxo".
- Tens razão; mas...
- Uma cousa: quando me recordo da Alzira, só me vem àmente o seu famoso
chapéu-de-chuva de alpaca, com que, às vezes,quando embriagada, desancava um
qualquer e ia parar no xadrez.
- Eu, quando me vem ela à lembrança, com a sua fisionomiatriste, fanada, é com
o seu orgulho de ter tido muito dinheiro, pormeios tão baixos...
- A observação é boa. Ela não parecia ter dor em recordar osbelos dias
passados; parecia antes ter prazer... Afinal, que tem elacom a tua história?
- Estavas fora, lá, para Alagoas. Continuei a freqüentar o"Guaco",
onde ia todas as tardes encontrar os companheiros.Ocasionalmente topava com
Alzira e pagava-lhe um cálice. As nossasrelações eram as mais amistosas
possíveis. Ela me contava as históriasde aventuras passadas, quer as de jogo, quer
as de amor; e eu as ouviapara aprender a vida com aquela mulher batida pela
sorte, peloinfortúnio e pela maldade dos homens. Gostava até da emoção queela
sentia, narrando o seu triunfo, quando, trepada no alto dos carrosde Carnaval,
era aclamada pelas famílias, nas ruas apinhadas poronde passava. Pelo modo que
ela me contava esses episódios, julgueique Alzira nesses dias se supunha
resgatada. Talvez tivesse razão...
- Coitada! fez o outro.
- Bem. Como te contava, ia sempre ao "Guaco" e, em certo diado
pagamento, lá fui. Tinha os vencimentos quase intactos naalgibeira.
Encontrei-a, sentei-me e pedi cerveja. Ela não quis, ficou noseu cálice
habitual. Em dado momento, ao passar o proprietário, o Martins - tu te lembras
dele?
- Pois não.
- Disse-lhe: Martins, vê quanto te devo. Ele respondeu e, logoque ele se
afastou, Alzira perguntou-me: "Frederico, tens dinheiro?"Disse-lhe
que sim; e ela me pediu: "Podes 'passar' cinco mil-réis?" Nãome fiz
esperar e dei-lhe uma nota de cinco mil-réis que tinha naalgibeira do colete.
Ela guardou e continuou a conversa. Veio a horade sair e de pagar a despesa
atual e as passadas. Martins fez a soma etirei da algibeira da calça o grosso
do dinheiro, dando-lhe uma notaque satisfizesse a conta. Logo que o Martins se
dirigiu ao balcão, elame disse ao ouvido: "Tu não podes dar mais cinco
mil-réis?" Disse-lheperemptoriamente: não! Não teve um momento de
hesitação: levantou-se e atirou-me a nota na cara. Foi saindo e descompondo-me
baixamente.
- Era muito malcriada.
- Pensei isso e o Marfins aconselhou-me a evitá-la, por isso.Um acontecimento
posterior, porém, fez-me julgá-la melhor.
- É daí que...
- Vais ouvir: passaram-se meses e, para publicar um livro, meti-meem
complicações. Se o livro deu dinheiro eu não sei, porque só perdicom ele;
entretanto, fez um sucessozinho; mas, cai de roupas, etc.,etc. Uma noite estava
sentado entre desanimados, como eu, numbanco do largo da Carioca, considerando
aqueles automóveis vazios,que lhe levam algum encanto. Apesar disso, não pude
deixar de comparar aquele rodar de automóveis, rodar em tomo da praça, comoque
para dar ilusão de movimento, aos figurantes de teatro queentram por um lado e
saem pelo outro, para fingir multidão; e comoque me pareceu que aquilo era um
truque do Rio de janeiro, para sedar ares de grande capital movimentada...
Estava assim, quando mebateram ao ombro: "Oh! Frederiquinho!"
- Quem era?
- Era a Alzira.
- Queria ela alguma cousa?
- Queria dar-me. Nada mais.
- O quê?
- A passagem do bonde.
- Tu não a tinhas?
- Tinha. Disse-lhe isso até; mas o meu aspecto era da maiscompleta miséria.
Minha roupa estava sebosa, meu chapéu de palhamuito sujo, cabeludo, barba
velha; e, além de tudo, sobreviera-meuma fraqueza de pálpebras, que me obrigava
a usar uns sinistros óculosescuros de mendigo semicego. Apesar da minha recusa,
ela insistiu detal modo, de forma tão cheia de piedade e temura, que me
pareceuuma cruel desfeita não lhe aceitar o cruzado.
- Aceitaste?
- Aceitei.
- Curioso.
- Está aí a vagabunda do "Guaco", meu caro Chaves.
Levantaram-se, saíram do jardim e o advento da noite, misteriosae profunda, era
anunciado pelo acender dos lampiões de gás e o piscardos globos de luz
elétrica, naquele magnífico fim de crepúsculo.
A BARGANHA
E o "turco", desde muito cedo, andava pelos subúrbios amercar aqueles
coloridos registros de santos. Havia um são JoãoBatista, com a sua tanga, o seu
bordão de pastor e o seu inocentecarneiro que olhava doce tudo o que via fora
da estampa; havia umCristo com o coração muito rubro à mostra, coroado de espinhos,
eos olhos revirados para o Céu que naquele dia estava lindo, de umprofundo
azul-cobalto; havia uma Ceia em que Jesus presidia, mansueto e resignado,
apesar de se saber traído, e havia muitos outrossantos e santas que o
"turco" levava, alguns enrolados, mas outrosdiante do seu peito
arquejante das suas caminhadas de humildebufarinheiro, daquelas modestas
paragens da cidade.
E ele ia:
- Compra, sinhor! Muita bonita!
Das casas, às vezes, lá saía uma mulher ou outra, de cores asmais variadas, e
indagava com desprezo:
- Olá! O que é que você leva aí?
Miguel José parava, aproximava-se da porteira e respondia:
- Santa, sinhora! Muita bonita!
- Que santos tem?
- Muitas, sinhora. Tuda bonita.
Desentolava os registros e a rapariga começava a examinar. Derepente, à vista
de uma daquelas oleogravuras, ela gritava:
- Leocádia! Leocádia!
Lá do interior da casa respondiam:
- Que é?
A outra acudia:
- Vem cá. Vem ver uma cousa.
Vinha uma outra rapariga e a que estava, recomendava,mostrando um dos quadros
do "turco":
- Vê só como é lindo este Menino Jesus.
A outra examinava e concordava. O "turco" se animava e perguntava:
- Não quer compra ele?
Uma delas ia ao encontro da pergunta do bufarinheiro:
- Quanto é?
- Barata, sinhora.
- Quanto?
- Dois mil-réis.
- Chi, meu Deus! É caro, muito mesmo.
O pobre ambulante não fazia negócio algum; e continuava coma sua carga sagrada
a palmilhar aquelas ruas que são mais propriamente veredas.
Ainda se houvesse árvores, sombra que amaciasse aquelamanhã quente, embora
linda e cristalina, o seu ofício seria suportável;mas não as havia. Tudo era
descampado e as ruas eram batidas pelosol em chapa. Lá ia ele. As calças
ficavam-lhe pelos tomozelos; ochapéu era de feltro, mas não se sabia se era
preto, azul, cinzento.Tinha todas as cores próprias a chapéus dessa espécie. Em
um pécalçava uma botina amarela; em outro, um sapato preto.
- Cumpra, sinhor! Coisa bonita de Deus! Cumpra.
Foi dizendo isto a um petulante crioulo, muito preto, de um pretofosco e
desagradável, cabeleira grande, gordurosa, repartida ao alto, eo chapéu a
dançar-lhe em cima dela; foi dizendo isto a ele que lhe iaacontecendo urna
grande desgraça naquela manhã. O negro, ao ouvi-lo,chegou-se muito junto ao
"turco" e indagou com um ar autoritário:
- Que é que você está dizendo?
O humilde armênio pensou logo que tratava com um soldado depolícia à paisana,
pois lhe parecia que, na terra em que estava, todosos pretos são soldados e
podem prender todos os armemos.
Com essa convicção, Miguel José respondeu cheio de respeito eacatamento:
- Dizia, sinhor: cumpra santo muita bonita.
O negro perfilou-se todo, tomou uns ares judiciais ou policiais,chegou o chapéu
de palha para a testa e disse:
- Você parece que não é civilizado.
- Cumo, sinhor?
- Sim, você é herege, inimigo de Nosso Senhor.
- Não, sinhor.
O preto desarmou-se um pouco de seus ares judiciais ou policiais,tomou-se mais
suave, quis fazer de penetrante e sagaz. Perguntou:
- Você come came de porco?
E Miguel José olhou as montanhas pedregosas que ele via lá,longe, esbatidas no
azul profundo da manhã, ressaltando quaseinteiramente na ambiência translúcida
do dia, e lembrou-se da suaaldeia armênia, das suas cabras, das suas ovelhas,
dos seus porcos.
A sua fisionomia dura contraiu-se um pouco e os seus olhos decarneiro quiseram
chorar de recordação, de sofrimento, de mágoa.Ele se encheu todo de uma pesada
tristeza; mas pôde responder:
- Sim, senhor, eu coma.
- Então você é cristão? insistiu o preto.
- Sim, sinhor; diga a sinhor sou cristão.
- Admira.
- Por quê, sinhor?
- Porque você diz "vender" "comprar" santos.
- Cuma se diz então?
- Troca-se. Aprenda - está ouvindo! É falta de respeito, ésacrilégio dizer
comprar ou vender santos. Aprendeu?
- Sim, sinhor. Obrigada, sinhor.
E o crioulo se foi, deixando o pobre armênio arrasado por maisaquele déspota
que passava sobre a sua pobre raça; mas mesmoassim, continuou na sua mercancia.
Lá se foi ele por aquelas ruas de tão caprichoso nivelamento quepermite as
carroças que por lá se arriscam andarem no ar com burrose tudo. Lá ia ele:
- Cumpra, sinhor! Muita bonita.
Subia, descia ladeiras; parava nas portas; mas não fazia negócioalgum.
Num pequeno campo, encontrou uma porção de crianças aempinar papagaios. Parou
um pouco para ver aquele divertimentointeressante que as crianças da sua terra
não conheciam. Veio umpequenote:
- Ó Zê! O que é que você leva aí?
- Santo, menina. Pede mamãe compra uma.
- Ora, esta! Lá em casa tem tanto santo - para que mais um?Vende ali, aos
"bíblias".
Miguel José percebeu bem a malícia da criança, pois de umafeita caíra na tolice
de oferecer um registro a essa espécie de religiosos e se vira atrapalhado. Não
que o tivessem maltratado, mas umdeles, baixinho, com um pince-nez muito puro
de vidros cristalinos,o levara para o interior da casa, lera-lhe uma porção de
cousas de umlivro e depois quisera que ele se ajoelhasse e abandonasse os
registros.Noutra não cairia ele...
Continuou o caminho, mas estava cansado. Ansiava por umasombra, onde repousasse
um pouco. Havia muitas árvores, mas todasno interior das casas, nas chácaras,
nos quintais ou nos jardins. Umaassim pública, na margem da rua, em terreno
abandonado que o abrigasse aí, por uns dez minutos, ele não encontrava.
E seria tão bom descansar assim fazendo o seu minguadoalmoço, para continuar
até à tarde a sua faina, vendo se ganhava pelomenos uns dez ou cinco tostões de
comissão com a venda daquelascousas sagradas.
E continuou o seu caminho, tendo sempre exposta diante dopeito a imagem de
Cristo, coroado de espinhos, a mostrar o coraçãomuito rubro, com os seus
misericordiosos olhos a procurar o Céu,naquela manhã muito linda, de um
profundo azul-cobalto...
Afinal, achou uma mangueira, maltratada, cheia de ervas parasitas, a crescer na
borda do cominho, num terreno desocupado.Sentou-se, tirou da algibeira um naco
de pão dormido, uma cebola epôs-se a comer, olhando as montanhas pedroucentas
que assomavamao longe e lhe faziam lembrar a terra natal. Ele não tinha nenhum
nítidopensamento sobre a vida, a natureza e a sociedade...
Não tardou que se lhe viesse juntar um companheiro. Era tam-bém um
"volante" como ele; mas a sua mercancia era outra, menosespiritual.
Vendia sardinhas, de que trazia um cesto cheio. Era umportuguês, cheio de
saúde, de força, de audácia. Vinha suado, mais doque o armênio; entretanto, não
dava mostras de ter ressentimentosnem do sol nem da dureza do seu ofício. O
armênio olhou-o cominveja e pensou de si para si:
- Como é que esse homem pode ser alegre, pode ter esperanças?
O português, sem auxílio, arriou o grande cesto na sombra esentou-se também
cheio de confiança e desembaraço.
Foi logo dizendo:
- Bons dias, patrício.
Miguel José fez uma voz sumida:
- Bom dia, sinhor.
O português, sem mais aquela, observou:
- Qual senhor! Qual nada! Cá entre nós, é você pra baixo. Istode senhor é lá
pros doutores, não é para nós que andamos aqui aos tombos.
E emendou comunicativo:
- Que diabo - ó patrício! - que tu comes pra aí?
O "turco" disse-lhe e o Manuel da Silva considerou:
- Lá na minha terra, há quem goste disto; mas eu nunca meacostumei. Cebola pra
mim, só na comida. Numa bacalhoada, ah!...
Miguel José continuava a mastigar sua cebola com pão, enquantoManuel da Silva
contava a féria. Contada que ela foi, disse bem alto:
- Pela hora que é, as cousas não vão mal. Até o meio-dia vendo tudo...
Guardou o dinheiro na bolsa que tinha a tiracolo e perguntousubitamente ao
companheiro de acaso:
- Você já vendeu muito hoje, patrício?
- Nada, sinhor.
- Está você a dar com o tal de senhor! Pergunto se você jávendeu alguma cousa
hoje, homem!
- Nada.
- O que é que você vende?
- Santo, sinhor.
- Santo?
- Sim; santo.
- Deixa ver isto, como é? fez o português curioso.
O armênio passou-lhe os registros coloridos e o vendedor desardinhas pôs-se a
olhá-los com espanto e deslumbramento artísticode aldeão simplório. Achou tudo
aquilo bonito: aquele Jesus,mostrando o coração; são João, com o carneirinho; o
Menino Jesus - tudo muito lindo aos seus olhos maravilhados de camponês
cândidoe enfeitiçado pelas cousas do senhor vigário.
Refletiu de si para si: "Cousas tão bonitas, se não as vendeu, éporque
este 'turco' é mesmo burro. Comigo, já as tinha vendido,ganhado dinheiro e
ficado com algumas, pra pôr lá no quarto".
Veio-lhe uma idéia.
- Patrício! Você quer fazer um negócio?
Os olhos de carneiro do armênio luziram mais forte e com maisesperança.
- Qual é? perguntou ele.
- Tenho ali na cesta cerca de vinte mil-réis de sardinhas, vendidas a duas por
um vintém. Se você vendê-las a vinte, ganha o dobro. Quer você trocar estes
santos pelo cesto de sardinhas?
Miguel José rapidamente pesou os prós e contras da operaçãocomercial. Sabia
bem, por experiência própria, que a população, atéas crianças, se mostrava
refratária à mercadoria espiritual de que eleera portador; e, pelo que lhe vira
ainda agora nas mãos, a do seu companheiro não se portava da mesma forma.
Em se tratando de sardinhas, as cousas não corriam da mesmamaneira como no
tocante a santos. Considerou bem e logo respondeu:
- Tá feita, sinhor.
Os dous se despediram e trocaram de carga. Miguel José voltoua passar pelos
mesmos lugares em que oferecera os registros, semnenhum resultado; mas, quando
apregoou as sardinhas, não tevemãos a medir. Vendeu-as a vintém, então fez
escambos de compensação e, de tal forma correram-lhe as cousas que, dentro de
três horas,tinha vendido tudo, podia pagar os registros à loja e lucrava cinco
mil e tanto.
Manuel da Silva, o alegre português das sardinhas, saiu muitoancho com os seus
registros; mas não foi logo vendê-los.
A frugalidade do "turco" tinha-lhe dado uma fome extraordinária.
Procurou uma casa de pasto e comeu a fartar, acompanhado de um bom martelo de
verdasco.
Bem alimentado, satisfeito, dispôs-se a "trocar" o são João
Batista,Menino Jesus, correndo a sua freguesia de peixes e crustáceos.
Batia as portas:
- Mamãe, dizia uma criança, está aí o seu Manuel.
A mãe perguntava lá de dentro:
- Ele traz camarão?
- Não, mamãe; quer vender santos.
- Para que deu agora, seu Manuel! Ora, vejam só! Vender santos. Diga a ele que
não quero.
Dessa e de outra maneira, ele foi percorrendo em vão suafreguesia das
sardinhas, sem mercar uma única estampa religiosa.
A sua alegria matinal se ia e todo o seu desgosto se voltava terrível contra
ele mesmo. Não fora o "turco" que o embrulhara; fora elemesmo que
propusera aquele negócio. Era castigo. Ia tão bem com assardinhas, para que
fizera aquela barganha?
Andou até quase a noitinha e nada vendeu. Ao recolher-se,ainda quis ver as
oleogravuras que o haviam deslumbrado.
Mirou uma, mirou outra e, olhando-as firmemente, refletiu:
- Se não fosse por faltar o respeito devido a Nosso SenhorJesus Cristo, que ai
está, eu havia de dizer que tudo isso são cousasdo diabo que aquele
"turco" me impingiu. Nunca mais! Tarrenego!
UMA CONVERSA VULGAR
O meu conhecimento com aquele venerável velho me viera devido às relações que
mantive com um seu neto, que fora meu colega decolégio. Isto que se passou
comigo e ele, e conto agora, deu-se há anos.
Tinha eu totalmente, por aquela época, abandonado os estudos,o neto já havia
falecido; e, abandonando os estudos, como se diz, procurara e já ocupava um
emprego público. Apesar da irremediável falta do meu antigo colega, continuava
a freqüentar a casa do velho Florêncio, cujas conversas muito apreciava. A sua
residência era fora da cidade, em um sítio lá pelas bandas de Campo Grande, bem
tratado, com muita laranja, capados, galinhas, perus; e a casa de moradia era
vasta e tinha muitos cômodos.
Ele morava com a filha, mãe do meu antigo colega, uma mocetona,irmã deste, e um
seu irmão, que poderia ter ai os seus cinqüenta e poucosanos, um tipo acabado
de pequeno proprietário rural das nossas terras.
Este irmão, o mais moço dos quatro, sendo que dois já erammortos, tinha tido
uma mocidade acidentada; e, aos quarenta epoucos anos, sossegara, fazendo-se o
mais plácido roceiro que sepode imaginar.
Aposentando-se Florêncio no lugar de escrivão do almoxarifadoda Marinha, viera
ele morar com o irmão ali, acompanhado da filha,viúva com dois filhos, um dos
quais, o homem, como já disse, forameu colega no internato secundário.
Quando cismava, sem mesmo me anunciar, ia aos sábados para lá,dormia e todo o
domingo, fosse a cavalo pelos arredores, fosse jogandoo solo, nós três - ele, o
irmão e eu - passava-o eu na maior satisfação.
Não era lugar bonito, mas era são, e toda a gente do velho Florêncioera de uma
meiguice para mim de me encher de saudades quando saíade manhã, segunda-feira,
para vir para a morrinha da repartição.
Calhou aquela segunda-feira cair em dia que era do recebimentoda sua
aposentadoria no Tesouro. Florêncio disse-me logo, pela manhã,na segunda-feira:
- Você, Bandeira, acompanha-me até o Tesouro, que quero ircom você até ao Pão
de Açúcar, no tal bonde aéreo.
Sendo os primeiros dias do mês e eu não tendo faltado até ali,podia bem
acompanhá-lo no passeio que premeditava.
Florêncio contava perto de setenta anos mas ainda era forte,pisava com
liberdade e segurança e a sua conversa tinha o pitoresco eo encanto singular de
ser como as "memórias" vivas do Rio de Janeiro.
Muito observador, com uma memória muito fiel para data efisionomias, tendo
vivido em certas rodas de algum destaque, podia-se,conversando com ele, saber a
vida anedótica do Rio de Janeiro, quasedesde a coroação e sagração de Pedro II,
em 1841, até nossos dias.
Apreciava-o muito por isso, e, sem precisar provocá-lo, bastavaum incidente
qualquer, uma velha casa avistada, em qualquer parte,um encontro, um sobrenome,
para ele me contar histórias pitorescasda vida social, política, sentimental ou
escandalosa do Segundo Reinado.
Saímos do Tesouro logo que recebeu o seu dinheiro, e fomosem demanda do largo
de São Francisco.
Notei que ele olhava para um lado e outro, como procurandoalguém. Quase no meio
da praça, quando a atravessamos, em direituraà rua do Ouvidor, veio a seu
encontro um homem, não muito velho,orçando aí pelos quarenta e poucos, mas
avelhantado, sujo mesmo,barba por fazer. Era mulato claro, de feições
regulares. Logo que seapertaram as mãos, Florêncio disse ao outro:
- Você não foi ao Tesouro!
- Atrasei-me...
E gaguejou, sem encontrar desculpa.
O velho meu amigo não esperou que ele a encontrasse e foidizendo:
- Você não toma juízo... Onde você está morando?
- No mesmo quarto, "seu" Florêncio.
- Por que não vai para casa descansar um pouco?
- "Seu" Florêncio, é longe... Aqui sempre faço os meus biscates...
- Bem. Tome lá, Ernesto.
E puxou uma nota de dez mil-réis e deu-lha.
Senti no olhar do Ernesto uma doida vontade de ir-se, logo quesentiu o dinheiro
na algibeira.
Afinal deixamos o rapaz e reencetamos o caminho da rua doOuvidor. Eram quase
duas horas da tarde e o largo de São Francisco,se bem que decaído do antigo
movimento, quando todas as linhas debondes de São Cristóvão e Tijuca nele
paravam, tinha alguma agitação.
Emparelhávamos com a estátua, quando o velho Florêncio medisse:
- Você conhece esse homem?
- Não.
- É filho do visconde de Castanhal.
- Como? O capitalista?
- Sim; o capitalista.
- Não se acredita.
- Vou contar a você como ele o é. Quando Castanhal chegouaqui era simplesmente
José da Silva. Homem tenaz, abriu, onde hojeé a luxuosa rua Gonçalves Dias,
antiga dos Latoeiros, uma casa paravender leite em copos, em garrafas e
lacticínios. Não havia dessascasas na cidade e logo foi a dele se afreguesando.
Silva atendia àfreguesia na sala; e no interior, para encher as garrafas, lavar
oscopos, cozinhar para ele e tratar da sua roupa, tinha uma preta comquem vivia
amasiado. Na rua Gonçalves Dias, canto da do Ouvidor,naquela época, vinham
parar os bondes do Jardim Botânico, cujo títuloera então em inglês. José da
Silva lembrou-se de gelar o leite, isto é,pôr certo número de garrafas
mergulhadas no gelo, que vinha daAmérica do Norte, nos porões dos navios, pois
ainda não se haviadescoberto o processo de fabricá-lo artificialmente. O leite
gelado"pegou", como se diz; e sendo o lugar freqüentado, em breve
José daSilva viu-se obrigado a aumentar a casa que até aí só tinha duas
portas.Um outro seu patrício invejou-lhe a sorte e Silva, finório que era, tratoulogo
de passar o estabelecimento adiante com grande lucro. Mas... eunão contei a
você uma coisa.
- Qual é?
- O Silva e a crioula tiveram um filho e o mulatinho cresceu atéaos cinco ou
seis anos, na leiteria de Silva, conhecido dos freguesescomo filho dele. Assim
o conheci. Passaram-se cinco ou seis anos semque eu soubesse do Silva, crioula
e filho, quando, indo a Catumbi epassando na porta de uma estalagem, vejo
aproximar-se de mim umacrioula que me tratava pelo nome. Disse-me que era a
rapariga deJosé da Silva, em cuja casa de lacticínios me conheceu. Há três
anos- é ela a falar - ele, o Silva, a abandonara, para casar-se
convenientemente. Nada dera a ela nem ao filho; e a sua vida, com opequeno
Ernesto, havia sido até aquele dia um tormento de angústia e de misérias.
Mandei que me procurasse em casa. Morava por essetempo com minha mãe e irmãos
na rua do Senado, numa casa dealtos e baixos, com uma chácara que dava para o
morro já desaparecido. Falei a minha mãe que a admitisse em casa ao que ela
acedeu; e, por minha vez eu, que já estava na Marinha, consegui colocar
omolecote no arsenal como aprendiz. Minha mãe morreu, etc., etc... Opequeno
prosperou, aprendeu a ler, fez-se em breve oficial; e, quandoacabamos com a
casa paterna, ele pôde armar a sua e sustentar a mãe.Parecia marchar muito bem
e Ernesto nunca me deixou de procurar.Gostei sempre dele, pois era bom filho,
honesto, zeloso, e digno detoda a proteção. Há não sei que desgosto recalcado
nessa gente, nãosei que ponto fraco, que rachadura, que eles acabam sempre
arrebentando de alguma forma. Este Ernesto depois da morte da mãe deu embeber.
Perdeu o emprego e vive agora como você vê. Tenho muitapena dele, dou-lhe
dinheiro, sabendo mesmo que é para beber; masnão sei que coisa me diz, que
tenho alguma culpa nas carraspanasque transformaram esse rapaz ou na razão da
transformação que olevou a bebedeiras contínuas, que me apiedo dele, do seu
vicio e lhedou dinheiro.
- Que pai!
- Não há muito que censurá-lo. Hoje, não sei; mas, naqueletempo, essas ligações
preliminares, intróito e prefácio do venerávelcasamento com bênção sacerdotal e
sacramental da igreja, eramadmitidas; e as suas rupturas simples, inflexíveis,
assim como a doSilva com a mãe do Ernesto, não vexavam ninguém. Os
futurossogros, para dar o "sim" aos futuros genros, só admitiam uma
coisa: eque elas, as rupturas, se realizassem e os seus genros futuros
nuncamais procurassem, não só as raparigas, o que era justo, mas o filho
oufilhos também...
Nós tínhamos chegado à avenida Central. A moderna via públicatinha o movimento
do costume: os mesmos mirones, os mesmos estafermos com as mesmas caras idiotas
para as mulheres e moças que passavam. Subitamente, Florêncio pega-me pelo
braço e, apontando, diz:
- Você sabe quem é aquela moça que vai ali?
- Onde?
- Com aquelas duas senhoras?
- Quem é?
- É a filha mais moça do Castanhal; é irmã do Ernesto queacabamos de deixar.
Ainda me demorei olhando pelas costas a moçoila que seguiaem direitura à rua do
Ouvidor; e considerei bem o seu vestuário caro,na moda, de cujo corpete surgia
o pescoço bem modelado e de umalinda tinta moreno-claro.
..........................
Outras Histórias
UMA ACADEMIA DE ROÇA
Na botica do Segadas - Farmácia Esperança - que pompeavaa sua enorme tabuleta,
na principal rua de Itaçaraí, cidade do estado de...,cabeça da respectiva
comarca, reuniam-se todas as tardes um grupo seleto dos habitantes do lugarejo,
para discutir letras, filosofia e artes.
Era esse grupo formado das seguinte pessoas: doutor AristogenTebano das
Verdades, promotor público; doutor Joaquim Petronilho,médico clínico na
comarca; Sebastião Canindé, sacristão da matriz; eo doutor Francisco Carlos
Kauffman, austríaco e alveitar de umagrande fazenda de criação nos arredores.
Dele, também fazia parte oproprietário da botica - o Segadas.
O espanhol Santiago Ximénez, principal barbeiro da localidade,proprietário do
Salão Verdun, aparecia, às vezes, na tertúlia; recitavaum pouco de Campoamor ou
citava Escrich; mas despedia-se logo, afim de ir para o botequim do Cunha, onde
podia unir o útil aoagradável, isto é, juntar o parati ou a genebra ao poeta de
sua paixão- Campoamor - ou ao romancista de sua admiração - PérezEscrich. Na
botica, não havia disso e a sua literatura necessitava deum acompanhamento de
beberiques.
O presidente do grupo era espontaneamente o promotor quesempre tinha versos a
recitar e questões literárias a propor. A bemquerida dele era indagar se mais
valia a forma que o fundo ou viceversa; inclinava-se pelo último, por isso
gostava muito de Casimiro de Abreu e de Fagundes Varela.
O doutor Petronilho não tinha opinião segura sobre o caso,tanto mais que, a não
ser Bilac, ele não suportava outro poeta; entretanto, vivia possuído de
particular admiração por Aristogen e a suaversalhada desenxabida. Coisas...
Sebastião Canindé era, pela forma, parnasiano da gema; mas osversos que
publicava no jornal da localidade eram horrivelmenteerrados e rimados a
martelo; eram piores do que os de Aristogen.Tinha as charadas por
especialidade.
O austríaco não sabia nada dessas cousas. Lera os poetas de suapátria, alguns
alemães e italianos, a Bíblia, Shakespeare e o Dom Quixote.
Não percebia nada dessa história de épocas e escolas literárias.Ia à reunião
para distrair-se.
Um belo dia, Aristogen lembrou aos companheiros:
- Vamos fundar uma Academia de Letras?
Canindé indagou:
- Daqui, do município?
- Sim, respondeu Aristogen. Vamos?
O doutor Petronilho observou:
- Quantos membros?
Aristogen acudiu logo:
- Quarenta, por certo!
O doutor Kauffman refletiu:
- Oh! Eu acho muito.
Aristogen objetou:
- Muito! Não há tal! Há, além dos residentes aqui nascidos ounão no lugar,
muito filho do município ilustre que anda por aí. Olhe: o doutor Penido Veiga,
nosso representante na Câmara Federal, é um fino intelectual; pode, portanto, fazer
parte dela. O tenente Barnabé,que aqui nasceu, acaba de fazer com brilho o
curso de aviação; podetambém fazer parte. O Jesuíno, filho do Inácio, ali do
"armazém", viveem destaque no tribunal de contas, para onde entrou
depois de umconcurso brilhante: está naturalmente indicado a ser um dos
membros.E, assim, muitos outros.
Com sujeitos portadores de semelhantes títulos literários,Aristogen organizou a
sua academia de letras de quarenta membros,porque ela não podia ficar por baixo
das outras, inclusive a brasileira,tendo menos imortais que elas.
Veio o dia da instalação solene que, em falta de local mais adequado, teve
lugar na barraca de lona do circo de cavalinhos que trabalhava na cidade, por
aquela ocasião.
Os acadêmicos presentes, inclusive o barbeiro Ximénez e o aus-tríaco Kauffman,
que eram do número deles, sentaram-se ao redor deuma longa mesa, que fora
colocada no centro do picadeiro.
Os convidados especiais tomaram lugar nas cadeiras, arrumadasna linha da
circunferência que fechava o circulo das acrobacias, peloticase correrias de
cavalos. As arquibancadas, para o povo miúdo, entradafranca.
Uma charanga, a Banda Flor das Dores de Nossa Senhora, tocavaà entrada da
barraca, dobrados estridentes e polcas chorosas.
Aristogen tomou a presidência, tendo ao lado direito o presidente da câmara,
coronel Manuel Pafúncio; e, à esquerda, o secretáriogeral, o sacristão Canindé.
Depois de lido o expediente, começou a pronunciar o seu discurso em linguagem
castigada, porque, se não o era no verso, naprosa ele era pamasiano e clássico.
Começou:
- Senhores: Após longo decurso de tempo, lamentavelmenteriçado por
dificuldades, impedimentos, estorvos grandes, que adversaram a instituição
definitiva desta Academia - é possível, alfim, realizar o ato de posse de sua
diretoria, e eu procurarei salientar adeterminante fundamental deste Instituto.
Logo neste período, o doutor Petronilho observou baixinho aoaustríaco:
- É castiço. Fala que nem o Aluísio. Não achas?
O austríaco respondeu em voz baixa também:
- Oh! Eu não sape essas coisas.
Aristogen continuou:
- Basta que, à fé sincera, eu vo-lo afirme: há, dentre os eleitos para esta
Egrégia Companhia, os que desalentaram em meio da jornada; há os que se
deixaram empolgar de tanta vaidade que já se sentem sobrelevados aos que lhes
foram pares na eleição; há os que do alto do seu valor, gozando a convicção
própria de serem olímpicos,supremos, sorriram, num sorriso complacente de
superior condescendência, aos pigmeus que lhes buscaram a honra eminente
doconvívio. E, pois, urgente, inadiável detergir esta Academia.
Petronilho, ainda cochichando, confidenciou aos ouvidos doalemão:
- Não te dizia? É mais que o Aluisio; é o próprio Rui.
A assistência estava embascada com fraseado tão bonito, que,na sua maioria, ela
mal compreendia.
Chegava ao final com este período:
- Se procedermos concorde ao padrão que ora vos proponho,embora fosse ele
discutido às rebatinhas, estou certo que ganharãotimbre de verdade as palavras
refregentes de Canindé, de Barnabé, deKauffman e outros, quando, d'alma
inspirada, anteviram no apogeu,esta Academia, qual nem eu quisera!
Não teve tempo de sentar-se o orador, porque, no exatomomento em que acabava a
sua oração, os cavalos do circo, livrando-se das prisões que os subjugavam,
invadiram a arena em queestavam os acadêmicos, e os afugentaram a todos eles,
unicamentepor ação de presença.
Nunca mais a Academia de Letras de Itaçaraí se reuniu.
A MULHER DO ANACLETO
Este caso se passou com um antigo colega meu de repartição.
Ele, em começo, era um excelente amanuense, pontual, commagnífica letra e todos
os seus atributos do ofício faziam-no muitoestimado dos chefes.
Casou-se bastante moço e tudo fazia crer que o seu casamentofosse dos mais
felizes. Entretanto, assim não foi.
No fim de dous ou três anos de matrimônio, Anacleto começoua desandar
furiosamente. Além de se entregar à bebida, deu-se também ao jogo.
A mulher muito naturalmente começou a censurá-lo.
A princípio, ele ouvia as observações da cara-metade com resignação; mas, em
breve, enfureceu-se com elas e deu em maltratar fisicamente a pobre rapariga.
Ela estava no seu papel, ele, porém, é que não estava no dele.
Motivos secretos e muito íntimos talvez explicassem a sua transformação; a
mulher, porém, é que não queria entrar em indagaçõespsicológicas e reclamava.
As respostas a estas acabaram por pancadaria grossa. Suportou-a durante algum
tempo. Um dia, porém, nãoesteve mais pelos autos e abandonou o lar precário.
Foi para a casade um parente e de uma amiga, mas, não suportando a posição
inferior de agregada, deixou-se cair na mais relaxada vagabundagem de mulher
que se pode imaginar.
Era uma verdadeira "catraia" que perambulava suja e rota pelaspraças
mais reles deste Rio de Janeiro.
Quando se falava a Anacleto sobre a sorte da mulher, ele seenfurecia
doidamente:
- Deixe essa vagabunda morrer por aí! Qual minha mulher,qual nada!
E dizia cousas piores e injuriosas que não se podem pôr aqui.
Veio a mulher a morrer, na praça pública; e eu que suspeitei,pelas notícias dos
jornais, fosse ela, apressei-me em recomendar aAnacleto que fosse reconhecer o
cadáver. Ele gritou comigo:
- Seja ou não seja! Que morra ou viva, para mim vale pouco!
Não insisti, mas tudo me dizia que era a mulher do Anacleto queestava como um
cadáver desconhecido no necrotério.
Passam-se anos, o meu amigo Anacleto perde o emprego, devido à desordem de sua
vida. Ao fim de algum tempo, graças á interferência de velhas amizades, arranja
um outro, num estado do Norte.
Ao fim de um ano ou dous, recebo uma carta dele, pedindo-mearranjar na polícia
certidão de que sua mulher havia morrido na viapública e fora enterrada pelas
autoridades públicas, visto ter ele casamento contratado com uma viúva que
tinha "alguma cousa", e precisar também provar o seu estado de viuvez..
Dei todos os passos para tal, mas era completamente impossível.Ele não quisera
reconhecer o cadáver de sua desgraçada mulher epara todos os efeitos continuava
a ser casado.
E foi assim que a esposa do Anacleto vingou-se postumamente.Não se casou rico,
como não se casará nunca mais.
DENTES NEGROS E CABELOS AZUIS
A Edgard Hasselman
Era dos mais velhos, o conhecimento que eu mantinha comesse rapaz. Iniciadas na
rua, nos ligeiros encontros dos cafés, as nossasrelações se estreitavam dia a
dia. Nos primeiros tempos, ele sempreme apareceu como uma pessoa
inalteravelmente jovial, indiferente àspequeninas cousas do mundo, céptico a
seu modo; mas, em breve sobessa máscara de polidez, fui percebendo nele um
queixoso, um amargoa quem uma melancolia, provinda de fugitivas aspirações
impossíveis,revestia de uma tristeza coesa. Depois o seu caráter e a sua
organizaçãomuito concorriam para sua dorida existência. Muito inteligente
paraamar a sociedade de que saíra, e muito finamente delicado para secontentar
de tolerado em outra qualquer, Gabriel vivia isolado, bastando-se a si e aos
seus pensamentos, como um estranho anacoretaque fizesse, do agitado das
cidades, ermo para seu recolhimento.
As vezes ele nos surgia com uns ares de letrado chinês, lido emSai-Tsê, calmo,
superior, seguro de si e contente de se sacrificar à lógicaimanente das cousas.
Não dava um ai, não se lamentava, talveztemendo que o alarido de seus queixumes
não desassossegasse aviagem do seu espírito "par-delà du soleil, par-delà
de l'éther, par-delà des confins de sphères étoilées".
Um dia o encontramos, eu e mais alguns da roda, e a um delesque lhe perguntava:
"Que tu vais fazer agora?" aludindo às conseqüências do último
desastre da sua vida, Gabriel responde:
- Nada! O soberano bem não é agir.
Dias depois confessava-me o contemplativo que seguia idiotamente, pelas ruas e
pelos bondes, os belos olhos negros de uma preceptora francesa.
Sua natureza era assim, dual, bifronte, sendo que os seus aspectos,por vezes,
chocavam-se, guerreavam-se sem nunca se colarem, semnunca se justaporem, dando
a crer que havia entre as duas partes umvazio, uma falha a preencher, que à sua
união se opunha um forteobstáculo mecânico...
Esta maneira biface de sua organização, a sua sensibilidademuito pronta e uma
tentação delirante, para as satisfações materiais,tinham transformado a sua
vida num acúmulo de desastres; pelo que,em decorrer dela, de todo se lhe fora
aquela película cética, faceta,gaiata, ficando-lhe mais evidente a alegria e o
sainete do filósofo pessimista, irônico, debicando a mentira por ter
conhecimento da verdade, que é uma das povoadoras da imagem sem validade que é
o mundo. Pelos seus trinta e quatro anos, eu o procurava em sua casa uma
pequena casinha, numa rua da ponta do Caju, junto daquele marde morte que beija
as praias desse arrabalde, olhando defronte ocinzelado panorama das montanhas.
Não vivia mal, o emprego exigia pouco e dava relativamentemuito; e solteiro,
habitava a casinha com um africano velho, seuamigo, seu oráculo e seu
cozinheiro; e um desgraçado poetastro dasruas, semilouco e vagabundo.
Era uma colônia de ratés animados pela resignação africana.
Quando eu entrei em sua casa naquela tarde, a sua fisionomiaradiava. Pareceu-me
que a iluminação interior que há muito sentíamos nele ia afinal
exteriorizar-se. Seu rosto afinara-se, sua testaalongara-se, havia pelo seu
olhar faiscações novas; era como se agraça descesse até ele, povoasse-lhe a
alma e a enchesse de tal modoque se extravasasse pelo seu olhar brilhante,
bondoso e agora calmo.
- Que tens hoje, fui lhe dizendo, a tua apaixonada rendeu-seou achaste... o teu
destino?
- Qual paixão, qual destino! interrompeu ele. O sábio não tempaixões para
melhor poder contemplar a harmonia do universo.
E depois dessa sentença, não sei de que filósofo hindu ouchinês, ele me leu o
seguinte, escrito com letra miúda e irregular emduas dezenas de tiras de papel
almaço, cheias de paixão.
Morava eu nesse tempo em rua remota de uma estação de subúrbio afastado. Sem
calçamento e mal iluminada, eu a trilhava às desorasem busca da casa
reconfortante. Afazeres, e, em geral, a exigência domeu temperamento pelo
bulício, pela luz da cidade, faziam-me demorarnas ruas centrais. A esmo, por
elas à toa, passeava, vagava horas ehoras, olhando e conversando aqui, ali; e
quando inteiramente fatigado,buscava o trem e durante uma meia hora, tímido,
covarde, encostado aum canto, pensava, sofria à menor risota e o mais imbecil
dito cortava-mea alma. Era a constante preocupação das minhas idéias passar
meusofrimento, a outra pessoa, evitá-lo detidamente a alguém.
Sob a pressão daquela mágoa eterna, no meu íntimo ficava o seusegredo exigente
de comunicação, fosse mesmo a quem não tivesse orefinamento do meu espírito e
que a substância imortal lhe animasse avida, não tivesse sido adivinhado e me
sentia impelido a comunicá-lo.Era nessas ocasiões que eu pensava no amor,
mas... Bemdepressa, porém, meu espírito se perdia, caia em devaneio,
nãoencontrava deleite, sorria. Do homem ia aos cães, aos gatos, às aves,às
plantas, à terra, em busca de confidente.
Uma vez, em frente ao mar augusto, verde e translúcido, tivedesejos de lhe
contar o meu segredo, mas logo o temor me veio deque os ventos voltassem, e
trouxessem para a vasta cidade as minhaspalavras, tal como a planta que nasceu
à confidência feita à terra dofeitio das orelhas do rei Midas.
Quando a percepção do meu estado, da maneira da minhaexistência, era mais clara
aos meus olhos, arquitetava planos de fugaspara lugares longínquos, livros
vibrantes como indignações de Deus;mas nada disso executei. Qualquer cousa
muito obscura na minhaestrutura mental, talvez mesmo o sentimento da lógica da
hostilidadede que me via cercado, impedia-me de reagir ativa ou
passivamente.Agachava-me por detrás do meu espírito e então bebia em largosprantos
o fogo claro, claro que enche os límpidos espaços e, porinstantes, era feliz
porque:Heureux celui qui peut d'une aile vigoureuseS'élancer vers les champs
lumineux et sereins,Celui dont les pensées comme des alouettesVers les cieux le
matin prennent un libre essorQui plane sur la vie et comprend sans effortLe
langage des fleurs et des choses muettes.
Depois de ter carinhosamente ouvido essa linguagem, a amargura aumentava. O
espírito dirigia, reclamava, queria qualquer cousa,não se bastava a si mesmo,
esperava na sua prisão, no seu cárcere; e,para o meu caso, oh! que blasfêmia, o
provérbio se modificara: "não é só de espírito que vive o homem..."
Certa noite, demorando-me mais do que de costume, fui saltar àestação pelas
duas horas da madrugada. Tudo era mudo e ermo. Umventinho constante soprava,
inclinando as árvores das chácaras e agitando as amareladas luzernas de gás
como espectros aterradores. As casas imóveis, caiadas, hermeticamente fechadas
pareciam sepulcroscom portas negras. A escuridão aconchegava os morros nas
suasdobras. Pus-me a andar rapidamente. A rua pouco larga, bordada debambuais
de um e outro lado, iluminada frouxamente e abobadadano nevoeiro, era como uma
longa galeria de museu. Em meio docaminho, alguém saltou-me na frente e, de
faca em punho, disse-me:
- Olá! Passe o "bronze" que tem.
Não tinha francamente grande prática desses encontros, contudo me portei na
altura da sua delicadeza. Calmamente tirei dasalgibeiras o pouco dinheiro que
tinha e, de mistura com algunscupons de bonde, pálido, mas sem tremer,
entreguei-o ao opressordaquele minuto fugace.
O gesto foi belo e impressionou o bandido, a tal ponto que nempor sonhos
desconfiou que eu poderia ter deixado algum ocultopelos forros. Há, já se
disse, mais ingenuidade nos grandes criminosos do que a gente em geral supõe.
Quase com repugnância elerecebeu o maço que lhe estendia; e já se retirava
quando a uma ondade luz que em um vaivém da chama de gás lançou-me,
percebeualguma cousa nos meus cabelos e com ironia indagou:
- Tens penas? És azul? Que diabo! Estes teus cabelos sãoespeciais.
Ouvindo isso, eu o fitei com as pupilas em brasa e minhafisionomia devia ter
tão estranha expressão de angústia que o ladrãofechou a sua e estremeceu. E que
as suas palavras relembravam-metoda a minha existência envenenada por aquele
singular acidente; asdesastrosas hesitações de que ela ficara cheia; o azedume
perturbador, ressaibo do ódio e de amarguras de que estava tisnado. Ossuplicios
a que meu próprio espírito impunha. E de uma só vez, baralhado tudo isso se
ofereceu aos olhos como uma obsessão demoníaca,algo premente, cruel, vivendo em
tudo, em todas as cousas, emqualquer boca, na boca de um ladrão.
- Pois até tu! Que mais queres de mim? disse-lhe eu. Acaso alémdo dinheiro que
trazem nas algibeiras, mais alguma coisa te interessa nostranseuntes? Es tambem
da sociedade? Movem-te as considerações dela?
Olhei-o interrogativamente. O homem tinha o ar mudado. Oslábios estavam
entreabertos, trêmulos, pálidos, o olhar esgazeado,fixo, cravado no meu rosto.
Olhava-me como se olhasse um duende.um fantasma. Contendo porém a comoção, pôde
dizer:
- Dentes negros! Meu Deus! É o diabo! É uma alma penada, éum fantasma.
E o rosto dele dilatava-se, as pupilas estendiam-se; tinha oscabelos eriçados o
homem que me assaltava; e desandaria a correr seo medo não lhe pusesse pesadas
toneladas nas pernas.
Esteve assim minutos até que percebeu que a expressão do meurosto era de choro
e que nele havia a denúncia de uma grande mágoafatal. O meu interlocutor
transmudou as contrações de horror estampadas nas suas feições, abrindo-as num
dúlcido sorriso de bondade.
- Desculpa-me. Desculpa-me. Não sabia. Quem não sabe écomo que não vê.
E sem ligação continuou:
- Não me creias um miserável gatuno de estradas, um comumassaltante de ruas.
Foi o momento que me fez. Emprego-me em maisaltos "trabalhos", mas
preciso de uns "miúdos" e, para obtê-los, omeio se impunha. Se me
demorasse, a ocasião perdia-se. Bem sabes,a vida é um combate; se não se fere
logo, morre-se. Mas... Deus meajudará. Toma o teu dinheiro. Arranjarei sem ele
como iniciar o meugrande "trabalho", aquele que é a mira, o escopo da
minha existência,que me vai dar, enfim, o descanso (resplandecia), a
consideração dosmeus semelhantes e o respeito da sociedade. Vai... Tu és
semesperança. Vai-te... Desculpa-me.
Aqueles meus cabelos azuis, cabelos que eram o suplício da minhavida, e aqueles
meus dentes negros compuseram-se, dignificaram-separa sorrir ao herói
jovialmente, de reconhecimento e temura.
- Mas quem te faz sofrer, rapaz? perguntou-me o desconhecido.
- Ninguém, falei-lhe eu, ninguém. E o meu espírito, meuentendimento, é a
representação que ele faz do mundo circundante.
Íamos nos separar, quando ainda ele insistia:
- Com isso deves sofrer muito?
Dessa vez, antes de lhe responder pensei ligeiramente. Quemseria aquele homem?
Vê-lo-ia ainda uma vez? Nunca mais, era certo. Depois daqueleminúsculo
incidente de sua carreira, continuaria inflexivelmente nasua grande missão
sobre a terra. Teria todo o interesse em me fugir, emdesaparecer dos meus
olhos, ou senão, reconhecido, se eu encontrandonão o denunciasse, ligar-se-ia a
mim pela gratidão. Por que, sendoassim, não havia eu de lhe contar o meu
segredo? Ouviria, não compreenderia bem; se o quisesse contar a outrem as
palavras me faltariam.Certo disso e de que naquele indivíduo a ternura não era
um jogo desociedade, nem uma forma de elegância, quase espontaneamente,pus-me a
lhe narrar a minha desventura:
- Dói-me, sim! Dói-me muito. É o demônio que me persegue,é o perverso
desdobramento da minha pessoa. E uma companhia má,amarga, tenaz que me esporeia
e que me retalha. Ela vai junto a mim,bem junto, no caminho que trilho, haja
luz ou haja trevas, seja povoadaou deserta a estrada. Não me abandona, não me
larga. Dorme comigo,sonha comigo; se me afasto um instante dela ela volta logo,
logo,dizendo-me ao ouvido baixinho, com um cicio cortante: 'stou aqui! É um
símio irritante que me faz caratonhas e me vai às costas, pula na minha frente,
dança, espemeia.
O ladrão tinha agora outra espécie de espanto: era o espanto daspalavras, das
altas palavras. A sua grosseria nativa, primacial, sem limitações de qualquer
educação, ia por elas alto, entendendo-as ameio, seu espírito aguçava-se e
penetrava melhor no meu.
- Se, em dia claro e azulado, continuei, vou por entre árvores,crendo-me só, e
feliz, o miserável rafeiro que passa deixa a inexorávelbusca do osso
descarnado, para olhar as caretas do símio em que medesdobro, e ri-se de mim,
meio espantado, mas satisfeito. Então,como por encanto o caminho se povoa. Há
por toda parte zumbidos,alaridos, risotas. Do farfalho das árvores ouço: Olá,
tingiste a cabeça no céu; mas onde enlameaste a boca? Os seixos rolam,
crepitam, e nasua vileza não escolhes palavras, não ensaiam deboches,
gritam:monstrengo, vergonha da terra.
O gatuno analisava-me a fisionomia. Detinha-se nos meusolhos, no meu nariz, nos
meus lábios, até as minhas mãos, os meuspés mereceram a análise do seu olhar
inquieto. Foi por esse tempoque me lembrou reparar quem estava na minha frente.
Era umhomem alto, de largas espáduas, membrado, e que em
"sotaque"espanhol, me falou ainda:
- Tu és poeta. Fantasias... Vês demais.
- Talvez que a minha sensibilidade... Mas não, não! Meu organismo não mente,
fala a verdade: é como o microscópio a descobrirum mundo hostil onde nada se
vê, retorqui eu...
- Não andas por aí, pelos teatros, pelos cafés - como então épossível isso?
inquiriu ele.
A pergunta me atrapalhava; era da minha natureza, estas contradições
ostensivas, entretanto pude lhe responder:
- É verdade.., mas palmilho tais lugares escravo do meu gênio,servo dos meus
sentidos, que são inimigos do meu corpo; posso fugirdeles, mas muito me custa
seguir o curso imperioso dos meus nervos.Não sei... Não sei... Eu devia fugir,
desaparecer, pois mal ando passos,mal me esgueiro numa travessa, das gelosias,
dos mendigos, doscocheiros, da gente mais vil e da mais alta, só uma cousa
ouço: lá vai ohomem de cabelos azuis, o homem de dentes negros... É um
suplício!Tudo se apaga em mim. Isso unicamente brilha. Se um amigo
querreferir-se a mim em conversa de outros, diz: aquele, aquele dos
dentesnegros... Os meus sonhos, as minhas leituras, são povoados pelosmomos do
símio. Se escrevo e faltam sílabas nas palavras, se estudo enão compreendo
logo, o sagüi salta-me na frente dizendo com escárnio:- fui eu que a
"cumi", fui eu que não te deixei compreender...
Meu peito arfava, meus olhos deviam brilhar desusadamente. Aanimação passava de
mim ao ouvinte. Ele todo vibrava às minhaspalavras...
- Mas trabalha, sê grande... combate, aconselhou-me.
- Bom conselho, bom... Ah! Como és mau estratego! Nãopercebes que não me é dado
oferecer batalha; que sou como umexército que tem sempre um flanco aberto ao
inimigo? A derrota éfatal. Se ainda me houvesse curvado ao estatuído, podia...
Agora...não posso mais. No entanto tenho que ir na vida pela senda estreitada
prudência e da humildade, não me afastarei dela uma linha,porque à direita há
os espeques dos imbecis, e à esquerda, a mó dasabedoria mandarinata ameaça
triturar-me. Tenho que avançar comoum acrobata no arame. Inclino-me daqui;
inclino-me dali; e em tomorecebo a carícia do ilimitado, do vago, do imenso Se
a cordaestremece acovardo-me logo, o ponto de mira me surge recordadopelo
berreiro que vem de baixo, em redor aos gritos: homem de cabelos azuis,
monstro, neurastênico. E entre todos os gritos soa mais altoo de um senhor de
cartola, parece oco, assemelhando-se a um grandecorvo, não voa, anda chumbado à
terra, segue um trilho certo cravadoao solo com firmeza - esse berra alto,
muito alto: "Posso lhe afirmarque é um degenerado, um inferior, as
modificações que ele apresentacorrespondem a diferenças bastardas, desprezíveis
de estrutura física;vinte mil sábios alemães, ingleses, belgas, afirmam e sustentam"...Assim
vivo. E como se todo dia, delicadamente, de forma a nãointeressar os órgãos
nobres da vida, me fossem enterrando alfinetes,um a um aumentando cada manhã
que viesse... Até quando será?Até quando? fiz eu exuberante.
Uma rajada mais forte do vento que soprava quase apagava ocombustor próximo. Ao
cantar dos galos já se juntava a bulha do rolarde carroças na rua próxima. O
subúrbio ia despertar. Despedi-me dosalteador.
Andara alguns passos e como me parecesse que me chamavam,voltei-me e dei com a
figura retangular do ladrão, agitando-se aomeneio de sua cabeça, como a
venerável bandeira de misericórdiadas execuções.
Pelos anos em fora, pelos dias iguais e monótonos que minhavida presenciou,
mais fundo que essa incurável mágoa muito sofridana mocidade, doeu-me à minha
alma mais, muito mais a sincerapiedade que inspirei àquele homem.
A INDÚSTRIA DA CARIDADE
Era dia de moda. A confeitaria regurgitava. Aqueles móveis defalsa laca, muito
pechisbeques e pernósticos, davam a tudo um ar defatuidade e presunção. A
freqüência especial de cavadores, gigolôs,"melindrosas",
"guitarristas", bobos-alegres, etc., enchiam o salão,sentados ao
redor das mesinhas, olhando, de quando em quando, desoslaio os espelhos que o
circundavam.
A um canto, abancados a uma mesa, tendo uma garrafa deCanadian em frente, dous
amigos conversavam. Eram sibaritas desseslugares. Gozam em contar um ao outro o
que sabem da vida faustosadessa gente que, rica de uma hora para outra, se
empavesa de repentecom cousas caras, tal e qual um régulo africano que, nos
salvados deum naufrágio, achando um fardão de oficial de marinha, o veste, põeo
chapéu armado e fica de pés no chão. Os dous amigos tinham esseprazer, esse
"gozo" de andar pelas reuniões públicas, tidas como damoda, para "biografar"
os freqüentadores.
Já tinham passado em revista a toda a sala e, com desgosto,viram que todo o
pessoal era "conhecido".
Afinal, deram com uma família "desconhecida" que procuravaesconder as
suas maneiras de Catumbi, com uma morgue procuradae sob trajes caros no rigor
da moda.
O mais velho, o Chichorro, perguntou ao mais moço, o Veiga:
- Quem é aquela gente? Tu conheces?
- Sim; conheço, Chichorro; aquela gente é típica, é a mais purarepresentação da
época. É a família do major Almério que é aquele decinzento.
- Major! então não é dos "novos"?
- Qual! É da Guarda Nacional, filho!
- Quem é aquele que tem uma pasta, no último mês degravidez, e está ao lado do
tal Almério?
- Aquilo não é uma pasta; é uma "guitarra". Aquele sujeito éum
advogado que anda metido com contrabandistas e gente que tal.
- Compreendo... Ele, o tal Almério, é "guitarrista" também?
- Não. É homem honesto; exerce legalmente a Indústria daCaridade.
- Indústria da Caridade! Tens cada uma - livra!
- Lembras-te dos da Renée Mauperin?
- Lembro-me; e como não me havia de lembrar desse livro queme causou tanta
emoção?
- Pois bem. Há lá um personagem, cujo nome não me recordaagora, que diz: o
furto é a maior indústria do nosso tempo. Os autoresdo Renée dizem que estudam,
nesse livro, a burguesia ou um povoburguês de 64; há, portanto, quase sessenta
anos que isso era corrente. Hoje ainda contínua a ser; mas uma indústria nova
apareceuultimamente.
- Qual é?
- A da Caridade.
- Meu Deus! Isto é uma blasfêmia!
- Mas é uma verdade.
- ? ...
- Vou te mostrar como o é. Este Almério, há menos dez anospassados, morava em
Bonsucesso, numa casinha, pela qual pagavatrinta ou quarenta mil-réis. Vivia
sabe Deus como. O aluguel da casaera pago com o produto das costuras da mulher
e da filha mais velha,que tinha, por esse tempo, dezesseis anos; e o resto os
vizinhos e amigos forneciam. Ele vinha todo dia à cidade, a ver se arranjava
algumacousa, qualquer lugar, mesmo de servente em qualquer repartiçãopública.
Era, porém, caipora, nada obtinha; mas não desanimava.Veio uma agitação
política, por ocasião de uma sucessão presidencial, e ele viu bem que o
"caminho do burro" era ser do partido docandidato popular.
Recordas-te da anedota de Diderot com Rousseau?
- Qual?
- Aquela da resposta a dar à Academia de Dijon: - "se o progresso das
ciências e artes tinha contribuído para a felicidade dogênero humano?"
- Sim; lembro-me, pois não. Rousseau queria responder afirmativamente; mas
Diderot disse-lhe que seria burrice: devia responder negativamente.
- Foi o que fez o nosso major. No negócio presidencial,respondeu - não; foi
contra a opinião geral e acertou. Entrou parauma junta a favor do candidato
execrado; fizeram-no major daGuarda Nacional e recebia uma diária pelo serviço
de meetings, etc.Começou a jantar e a almoçar diariamente, e a família também.
Osseus horizontes se alargaram. Não quis mais emprego, fosse qualfosse. Pensou
cousa melhor.
- Que fez?
- Planejou um hospital de crianças. Interessou jornalistas erepórteres do
partido da cousa. Recebeu donativos, o governo federalcedeu-lhe o velho
edifício do hospital da brigada e casas adjacentes,restauradas, deu-lhe uma
subvenção; o governo municipal, outra. Elese instalou num palacete, mobiliado
com remanescentes das subvenções, que lhe dão também para comer e vestir-se
luxuosamente,ele, mulher e filhas.
- Como se mantém nessa "mamata"?
- À custa de manifestações a tudo quanto é impopular, portanto, do agrado do
"poder".
- Talvez tenha razão, porque nem tudo o que é popular é justo.
- Não há dúvida, caro Chichorro. Noto um fato social e maisnada.
- O papai Basílio fez pior, com o seu Asilo de Santa Rita deCássia - caso que
muito contribuiu para a fama do nosso atualdesembargador Ataulfo... Como o
tempo corre, hein?
- É verdade. Valha-nos isto: Almério não repetiu o papaiBasilio.
Sorveram um trago de uísque e, com o pensamento longe,puseram-se a olhar a sala
sem nada ver ao centro e sem trocarem palavra.
A família do major levantou-se e todo o rancho passou por pertodos amigos que
sonhavam, mergulhados naquele burburinho de vaidades.
O homem da "guitarra" disse bem alto e cheio de suficiência:
- Consinto em ir jantar com "vocês"; mas com uma condição:eu pago o
automóvel.
UMA CONVERSA
- Disse-te ainda há pouco, falou o Zeca Magalhães, na mesa dechopes em que
estávamos, que não tinha certeza das minhas sensaçõese, portanto, não tinha
nenhuma das minhas idéias. Não é o momentode te citar filósofos, nem organizar
raciocínios rimados. Conto-tesomente um caso ilustrativo, cheio de proveitosos
ensinamentos.
Pegou do copo e sorveu um segundo chope, enquanto eu via,numa mesa ao lado, um
gordo alemão com um focinho de porcoYorkshire, acompanhado da mais linda alemã
que foi dado aos olhosde um carioca, que nunca saiu da sua cidade natal, ver e
contemplar.
- Zeca, disse eu, a meia voz, vê que alemã bonita.
- Era disso mesmo que eu queria falar, fez ele descansando o copo.
- Da alemã?
- Relaciona-se. Eu estava no teatro... Foi há vinte anos, oumais. Estava no
teatro, no jardim, quando vi uma mulher. Que belezaera! Tinha uns olhos, um
nariz! E que boca!
- Pintura.
- Qual! Ouve. Olhei-a demoradamente, analisei traço portraço, via-a na luz,
pus-me mais perto e a impressão continuava amesma, e até crescia. Ao sair,
acompanhei-a... tu sabes o resto? Pelamanhã, quando acordei e contemplei a
mulher, sob a luz do sol, não eraa mesma! Cos diabos! fiz eu. Querem ver que me
trocaram a mulher?Nada disso, despedi-me com toda a conveniência e saí. O caso
nãome saiu da cabeça. Eu a tinha visto no teatro, em plena integridadedos meus
sentidos; tinha analisado detalhadamente - como eraentão que a mulher que eu
via, às oito horas da tarde, não era amesma de quem me despedi às seis da manhã
do dia seguinte?Pintura? Não foi, eu tinha reparado bem. Voltei à sua casa
diasseguintes. Examinei-a bem, traço a traço, comparei-a com as duasimagens que
tinha dela - a das oito da tarde e a das seis da manhã.Nada lembrava a
primeira, sendo exatamente igual à segunda. Volteiao teatro, estive a lhe falar
- era ainda a segunda imagem, a maispróxima. Estava doido naquela noite!
pensei. Rememorei o que fizeranaquele dia e nos precedentes ao meu encontro com
a tal italiana.Lembrei-me que tinha recebido umas estampas de grandes obras
deescultura e, na sua contemplação, gastara horas seguidas de umaatenção
absorvente. Estava aí a causa do erro! Sobre os seus traçosverdadeiros, ou
antes, os mais reais, eu tinha depositado a imagemanterior da grande beleza que
me ficara do livro; e, quando demanhã, com a fadiga, etc., ela se esvaiu, ficou
mais ou menos a mulhercomum, fugindo por completo a idéia anterior com que eu a
resvestira.Daí concluí, não sem ligeireza, que essa nossa mania de beleza é
umcontágio dos delirantes sonhos de alguns homens, dados a loucurasde Arte,
exacerbados com os delírios das tradições de antigas raças esofrendo a tirania
dos ideais belos; é que as nossas sensações sãointerpretadas pelo nosso
entendimento, de acordo com as imagens decertos padrões, que já estamos
predispostos a recebê-las...
- Concordo em parte; mas daí podias concluir que a Arte é útil,estimula o Amor,
a eternidade da vida...
- Quanto a isto, não; há nas boticas outros sucedâneos menosperigosos.
Não havia uma hora que eu o tinha visto terno; agora estavadesabusado,
cinicamente brutal, cobrindo com um sarcasmo o quesempre o vira engrandecer.
- Entretanto, observei, para que a visses assim, era preciso queela tivesse
alguma coisa da tal estampa que se te gravara no cérebro.
- Estava talhada para isso... No momento, possui uma dis-posição qualquer, nos
seus elementos fisionômicos, capaz de suscitare de emitir a imagem que eu já
tinha, nos seus traços vivos.
Bebíamos o quinto chope, e, embora por estas alturas, eu sempre fique mais
inteligente e animado, naquela noite, a fadiga não mopermitiu. Despedi-me.
A CARTOMANTE
Não havia duvida que naqueles atrasos e atrapalhações de suavida, alguma
influência misteriosa preponderava. Era ele tentar qualquer cousa, logo tudo
mudava. Esteve quase para arranjar-se na SaúdePública; mas, assim que obteve um
bom "pistolão", toda a políticamudou. Se jogava no bicho, era sempre
o grupo seguinte ou o anteriorque dava. Tudo parecia mostrar-lhe que ele não
devia ir para adiante.Se não fossem as costuras da mulher, não sabia bem como
poderia tervivido até ali. Há cinco anos que não recebia vintém de seu
trabalho.Uma nota de dois mil-réis, se alcançava ter na algibeira por vezes,
eraobtida com auxílio de não sabia quantas humilhações, apelando paraa
generosidade dos amigos.
Queria fugir, fugir para bem longe, onde a sua miséria atualnão tivesse o
realce da prosperidade passada; mas, como fugir?Onde havia de buscar dinheiro
que o transportasse, a ele, a mulhere aos filhos? Viver assim era terrível!
Preso à sua vergonha como auma calceta, sem que nenhum código e juiz tivessem
condenado,que martírio!
A certeza, porém, de que todas as suas infelicidades vinham deuma influência
misteriosa, deu-lhe mais alento. Se era "coisa feita",havia de haver
por força quem a desfizesse. Acordou mais alegre e senão falou à mulher
alegremente era porque ela já havia saido. Pobrede sua mulher! Avelhantada
precocemente, trabalhando que nemuma moura, doente, entretanto a sua
fragilidade transformava-se emenergia para manter o casal.
Ela saía, virava a cidade, trazia costuras, recebia dinheiro, eaquele
angustioso lar ia se arrastando, graças aos esforços da esposa.
Bem! As cousas iam mudar! Ele iria a uma cartomante e havia dedescobrir o que e
quem atrasavam a sua vida.
Saiu, foi à venda e consultou o jornal. Havia muitos videntes,espíritas,
teósofos anunciados; mas simpatizou com uma cartomante,cujo anúncio dizia
assim: "Madame Dadá, sonâmbula, extralúcida,deita as cartas e desfaz toda
espécie de feitiçaria, principalmente aafricana. Rua etc.".
Não quis procurar outra; era aquela, pois já adquirira a con-vicção de que
aquela sua vida vinha sendo trabalhada pela mandingade algum preto mina, a
soldo do seu cunhado Castrioto, que jamaisvira com bons olhos o seu casamento
com a irmã.
Arranjou, com o primeiro conhecido que encontrou, o dinheironecessário, e
correu depressa para a casa de Madame Dadá.
O mistério ia desfazer-se e o malefício ser cortado. A abastançavoltaria à
casa; compraria um terno para o Zezé, umas botinas paraAlice, a filha mais
moça; e aquela cruciante vida de cinco anos haviade lhe ficar na memória como
passageiro pesadelo.
Pelo caminho tudo lhe sorria. Era o sol muito claro e doce, umsol de junho;
eram as fisionomias risonhas dos transeuntes; e o mundo,que até ali lhe
aparecia mau e turvo, repentinamente lhe surgia claroe doce.
Entrou, esperou um pouco, com o coração a lhe saltar do peito.
O consulente saiu e ele foi afinal à presença da pitonisa. Era sua mulher.
NA JANELA
-Você sabe: o Alfredo não me trouxe o broche.
- Que desculpa ele deu?
- Que o sete não tinha dado a noite toda...
- Vai ver, Mercedes, que ele foi gastar com a Candinha... Ah! oshomens! São uns
malandros!
- Não sei, mas... enfim todos eles são iguais.
- No começo é aquilo, parece que a gente é pouca ou que elessão muito mais.
Vivem atrás de nós, descobrem, adivinham os nossospensamentos; depois... não
sei o que dá neles... esfriam, esfriam...
- Meu marido foi assim. No tempo de noivo, nem sabia falarquando estava perto
de mim; olhava-me só e o seu olhar parecia queme vestia, que me beijava, que me
ameigava... Meses depois de casada,deixou-me só, sem dinheiro, sem parentes,
nesta cidade tão grande...Bem fez você que não se casou!
- Mas namorei...
- Muitos?
- Sem conta!
- Você não amou nenhum?
- Não sei... Creio que todos me agradavam o bastante para casar.
- É difícil compreender.
- Ora, é fácil... Eu fui sempre engraçada. Aos treze anos, quandosaía com meu
pai, todos na rua me olhavam. Um dia até, no bonde,uma senhora de aparência
rica, muito grande, muito alta, perguntou ameu pai: é sua filha? Sim, respondeu
ele. A senhora olhou-nos muito, amim e a ele, virou a cara e sorriu duvidosa.
Aos quatorze, tive oprimeiro namorado. Era o caixeiro da venda... Um
portuguesinholouro, que dizia "binho", "benda", mas com uns
olhos azuis cor do céupelas bonitas manhã. E daí não parei mais. Tive um
segundo, um terceiro... quando cheguei ao quinto já escrevia cartas. Minha mãe
pegou uma e deu-me uma surra; mas não me emendei - continuei. Não sabia
resistir... Eles choravam, juravam.., e eu namorava quase ao mesmotempo. Era
como se - em grande riqueza inesgotável - não negasseesmolas. Você sabe: quando
se tem muito vai se dando. Parece que nãoacaba; mas acaba e então chora-se
pitanga. Fui assim: pediam-me beijos,abraços, cabelos; e eu dava por pena,
unicamente. Se eu tivesse sidomais sovina, não estava "nesta vida"...
E a sorte, que se há de fazer?
- Mas, e o "tal"?
- É verdade! Um dia fui a um baile, como sempre, tinha lá umachusma de
adoradores; mas apareceu um novo. Não sabia quem era,muito diferente de todos.
Educado, parecia doutor ou estudante deverdade, de estudos difíceis. Olhou-me e
eu olhei, e namorei-o. Nãotroquei palavra. Dancei com ele e o ouvi falar a um
outro. Que voz!Antes da meia-noite saiu. No outro ano, em dia de festa na mesma
casa,já não pude ir lá mais; tinha vindo a tal encrenca... corpo de
delito...Você sabe... Não deu em nada; ou antes: deu "nisto".
- Nunca mais você viu "ele"?
- O "tal"? Há dois anos que sempre o vejo na rua do Ouvidor,nos
teatros...
- Ele não fala com você?
- Não. Olha-me um instante e baixa a cabeça.
- Engraçado! Outro qualquer...
- É verdade! Perguntei quem era, disseram é um doutor fulanode tal e é
solteiro.
- Mas nunca você procurou falar com ele?
- Só uma vez. Cheguei-me e sem mais aquela sentei-me à mesaem que estava.
Perguntei-lhe se não me conhecia. De vista, respondeu.Se não tinha ido a um
baile assim, assim. Nunca! afirmou. Contei-lheentão a história e indaguei-lhe
se, de fato, fosse ele não se daria aconhecer. Hesitou e, por fim, respondeu-me
umas cousas embrulhadasque, afinal, me pareceu quererem dizer que eu, a menina
do baile, eraoutra cousa que não sou eu mesma atualmente; e quem me tinhavisto
no baile não me via ali, num jardim de teatro.
- Era um tolo; um...
- Não. Eu o vi, mais tarde, muito alegre, com uma outra noautomóvel...
Nos elétricos que passavam, os passageiros que olhavam aquelasduas mulheres com
olhares cheios de desejos não seriam capazes deadivinhar a inocência de sua
conversa, na janela de uma casa suspeita.
DESPESA FILANTRÓPICA
Quando ele me chegou à porteira de casa, acompanhado deoutro sujeito
mal-encarado, não o reconheci. Ele entrou a meu convite para a sala; sentou-se
mais o companheiro e mandei servir-lhescafé. Enquanto o café era esperado, ele
se deu a conhecer. Aí é quefoi a minha surpresa.
- Por quê? acudiu o amigo que ouvia o fazendeiro.
- Por quê?... Porque era um dos mais famosos assassinos do lugar.
- Diabo! Que visitante recebias tu com tanta distinção!
- Foi mesmo o diabo! E fiquei contrariado em recebê-lo emcasa. Se soubesse quem
era, teria dado "pouso" em qualquerdependência da fazenda e evitado
que ele me entrasse em casa;mas... o que estava feito, estava feito, tanto
mais...
- Sim; porque se fizesse qualquer jeito de contrariedade, eletalvez te
desfeiteasse.
- Com toda a certeza! E, conquanto já estivesse habituado à vidadaqueles
lugares bravios, onde a coragem pessoal, mesmo com certajactância, é
indispensável, não me convinha absolutamente ter questãocom semelhante sujeito
que era o tipo acabado do interior do Brasil.
- Há esse tipo?
- Há, pois não.
- Qual é o traço característico?
- É a futilidade dos móveis do crime e a capacidade de matar amandado de
outrem. No interior, a mais simples rixa por causa deuma questão de compra e
venda leva um sujeito ao assassinato. Umafrase assim, assim, que o Fagundes
ouvia da boca do Antônio, comotendo, sobre ele, sido proferida por seu inimigo
Orestes, determinaque o Fagundes mate Orestes. Conto-te um caso: o Madruga se
haviaseparado da mulher que se prostituíra e fora morar numa cidade distante.
Passam-se anos e Madruga vai prosperando com o seu negóciono vilarejo. Parecia
esquecido de sua infelicidade conjugal, quandolhe chega aos ouvidos que a sua
mulher tresmalhada, no auge daquelas grosseiras orgias sertanejas, o injuriava
com frases pesadas. Eleque faz? Arma-se, monta a cavalo e vai procurar a mulher
na sua tristeresidência. Engabela-a e a mata. Consegue escapar, volta ao
vilarejo,onde tinha negócio; espalha a "boa nova" do que fizera;
publica, nojornal local, o seu retrato e o da mulher, a peso de dinheiro; e
esperatranqüilamente a ação da justiça.
- É incrível!
- Pois é, meu caro Felício. O caipira, o matuto, o Jeca, como sediz atualmente
depois de Monteiro Lobato, mata mais por vaidade doque mesmo por vingança,
crueldade ou por tara. De forma que servalentão, matador, é lá um título de
honra e os assassinatos cometidossão como condecorações de ordens reais e
imperiais. Sendo assim,nada mais fácil do que achar quem aceite encomendas de
"mortes".
- O teu visitante quantas já tinha?
- Três; e era bem moço, de mais ou menos vinte e cinco anos.
- Como te livraste dele?
- Vou te contar. Estivemos conversando e ele me narravaproezas, expondo, ao
mesmo tempo, a maldade de seus inimigos e avingança que havia de tirar deles.
Hás de supor que falava com raiva.
- Não?
- Qual! Falava com a calma mais natural deste mundo, empregando os mais lindos
modismos do dialeto caipira. Num dadomomento sacou da cinta uma imensa pistola
parabélum e disse: "estabicha tá virge, mas ela corre que nem veado".
Era uma magnífica armade treze tiros, com alcance de mais de mil metros.
Pedi-lhe que madeixasse ver. Examinei-a, pensando tristemente no esforço
dainteligência que representava aquele aparelho, e que, entretanto,estava
destinado a tão má aplicação. De repente perguntei ao assassino:"Aluísio,
você quer vender esta arma? Dou trezentos mil-réis". Ele não pensou -
porque Jeca está sempre disposto a fazer negócio, barganha e rifas - e disse:
"Dotô, nós faz negoço". Dei-lhe o dinheiro, fiquei com a arma; e ele se
foi, para voltar mais tarde. Voltou, de fato; mas, sabes o que ele trazia
quando voltou?
- Não.
- Um rifle Winchester que comprara por duzentos mil-réis. Eisem que deu minha
despesa filantrópica.
O CAÇADOR DOMÉSTICO
O Simões era descendente de uma famosa família dos Feitais,do estado do Rio, de
que o 13 de maio arrebatou mais de mil escravos.
Uma verdadeira fortuna, porque escravo, naquelas épocas, apesarda agitação
abolicionista, era mercadoria valorizada. Valia bem umconto de réis a cabeça,
portanto os tais de Feitais perderam cerca oumais de mil contos.
De resto, era mercadoria que não precisava muitos cuidados.Antes da lei do
Ventre Livre, a sua multiplicação ficava aos cuidadosdos senhores e depois...
também.
Esses Feitais eram célebre pelo sadio tratamento de gado deengorda que davam
aos seus escravos e também pela sua teimosiaescravagista.
Se não eram requintadamente cruéis para com os seus cativos,tinham, em
oposição, um horror extraordinário à carta de alforria.
Não davam uma, fosse por que pretexto fosse.
Conta-se até que o velho Feital, tendo um escravo mais claroque mostrava
aptidões para os estudos, dera-lhe professores e omatriculara na Faculdade de
Medicina.
Quando o rapaz ia terminar o curso, retirara-o dela, trouxera-opara a fazenda,
da qual o fizera médico, mas nunca lhe dera carta deliberdade, embora o
tratasse como homem livre e o fizesse tratarassim por todos.
Simões vinha dessa gente que empobrecera de uma hora para aoutra.
Muito tapado, não soubera aproveitar as relações de família,para formar-se em
qualquer cousa e arranjar boas sinecuras, entre asquais a de deputado, para a
qual estava a calhar, pois de família dopartido escravagista-conservador, tinha
o mais lindo estofo para serum republicano do mais puro quilate brasileiro.
Fez-se burocrata; e, logo que os vencimentos deram para acousa, casou com uma
Magalhães Borromeu, de Santa MariaMadalena, cuja família também se havia
arruinado com a Abolição.
Na repartição, o Simões não se fez de trouxa. Aproveitou asrelações e amizades
de família, para promoções, preterindo toda a gente.
Quando chegou, aí, por chefe de seção, lembrou-se que descendia de gente de
lavoura e mudou-se para os subúrbios, onde teriaalguma idéia da roça, onde
nascera.
Os restos de matas que há por aquelas paragens deram-lhe lembranças saudosas da
sua mocidade nas fazendas de seus tios.Lembrou-se que caçava; lembrou-se da sua
matilha para caititus epacas; e deu em criar cachorros que adestrava para a
caça, como setivesse de fazer alguma.
No lugar em que morava, só havia uma espécie de caça rasteira:eram preás porém
nos capinzais; mas, Simões, que era da nobrefamília dos Feitais de Pati e
adjacências, não podia entregar-se atorneio tão vagabundo.
Como havia de empregar a sua gloriosa matilha?
À sua perversidade inata acudiu-lhe logo um alvitre: caçar osfrangos e outros
galináceos da vizinhança que, fortuitamente, lhe iamter no quintal.
Era ver um frango de qualquer vizinho, imediatamente estumavaa cachorrada que
estraçalhava em três tempos o bicharoco.
Os vizinhos, acostumados com os pacatos moradores antigos,estranharam a maldade
de semelhante imbecil que se fazia mudo àsreclamações da pobre gente que lhe
morava em torno.
Cansados com as proezas do caçador doméstico de frangos epatos, resolveram pôr termo
a elas.
Trataram de mal-assombrar a casa. Contrataram um molequejeitoso que se metia no
forro da casa, à noite, e lá arrastava correntes.
Simões lembrou-se dos escravos dos seus parentes Feitais e teveremorsos. Um dia
assustou-se tanto que correu espavorido para o quintal, alta noite, em trajes
menores, com o falar transtornado. Os seusmolossos não o conheceram e o puseram
no estado em que punhamos incautos frangos da vizinhança: estraçalharam-no.
Tal foi o fim de um dos últimos rebentos dos poderosos Feitaisde Barra Mansa.
Contos Argelinos
SUA ALTEZA IMPERIAL JAN-GHOTHE
Abu-Al-Dhudut gozava placidamente o trono do país de Al-Patak, que ele tinha
usurpado da maneira mais inconcebível.
Sabia que era impopular, que o povo ridicularizava comcanções satíricas a sua
pessoa desgraciosa e proclamava também osseus méritos intelectuais com anedotas
hilariantes.
Isto, porém, não o aborrecia, porque, tendo a mesa farta, umharém sortido e
sobretudo honras das tropas, dos caids e presentesdos príncipes estrangeiros,
ele se satisfazia e se julgava um grandesultão igual àqueles que ilustraram o
trono de Al-Patak.
De quando em quando, tinha desejos de se fazer notável etomava alvitres
singulares. Certa vez quis ser protetor das letras e fundou uma academia no seu
palácio. Nem de propósito: Dhudut juntounela tudo quanto foi mau rimador na
cidade.
Em outra, entendeu em dar casas baratas a toda gente e gastouna construção
delas tanto dinheiro que foi preciso lançar pesadosimpostos para que o tesouro
não ficasse vazio. Tal cousa veio redundar no seguinte: o artífice pagava mais
barata a casa, mas compravapelo dobro a passagem e os alimentos. Assim mesmo,
osengrossadores proclamaram-no él-mézuar, que quer dizer, segundo alguns - o
pai dos operários.
Para uma única cousa ele tinha jeito: era para criar aduladores.Calcularam os
sábios que cada adulador custava, uns pelos outros, aotesouro público cinco
libras por dia e que, com eles, Abu-Al-Dhudutgastou no seu curto reinado cerca
de vinte mil contos na nossa moeda.
Impopular e odiado, por causa de suas vexações e crueldades,quis ter
dedicações; e, para isso, abriu as portas das prisões aos criminosos condenados
e não prendia os que eram apanhados em flagrante.
A capital do Estado ficou assim entregue aos malfeitores que,não contentes com
a espórtula que recebiam do chefe de polícia -kaïa - extorquiam, sob ameaça,
dinheiro aos mercadores.
Para os cargos do governo, para os principados vassalos, elenomeava parentes
obscuros e sem saber, chegando até a fazer ulemá do Beit-El-Mal, juiz das
heranças, um seu primo que não sabia ler o Corão.
O povo de Al-Patak é manso e ordeiro, por isso ele viviasossegado, tramando
violências com o seu vizir Pkent-Phin', umhomem cruel e violento, que fora na
sua mocidade criador e castrador de cavalos.
Não contava, portanto, com nenhum levante do povo e passavaa vida na mesa e no
harém, em passeio e festas, sem cuidados nemincômodos.
Os seus parentes também levavam a vida da mesma forma, tantomais que haviam
ficado ricos com as riquezas do Estado e com os presentes que recebiam em troca
de proteção a este ou àquele.
Um dia veio, porém, que, não se sabe como, o povo se levantou,levou a tropa de
vencida, varou as muralhas que cercavam o paláciode Abu-AI-Dhudut e tratou de
pô-lo na rua.
Embora o sultão tivesse ficado com muito medo, não quis logosair pelo caminho
escuso que lhe ensinava haver o seu fiel eunucoBrederodes. Quis ainda carregar
algumas riquezas e correu aos subterrâneos do palácio.
Esperava encontrar lá cequins de ouro, aos sacos; diamantes,pérolas, rubis,
topázios, safiras, barras de ouro, enfim, riquezas semnúmero que haviam sido
amontoadas pela longa geração de vintesultões.
Desceu escadas secretas, sempre acompanhado do seu fielBrederodes, enquanto o
povo ululava diante das portas do palácio eas mulheres do harém ganiam e
soltavam gritos estridentes, os quaisnão lhe davam nenhuma pena. Descia com
febre e obsedado.
Chegado que foi ao tesouro, o guarda veio abrir-lhe a porta chapeada, couraçada
e lenta de mover nos gonzos.
O sultão logo perguntou:
- Onde estão os diamantes, escravo?
O guarda respondeu:
- Saberá Vossa Majestade que o VOSSO sublime irmão, suaAlteza Imperial
Jan-Ghothe, levou-os todos?
- E os cequins? e a prata? e as pedrarias?
O guarda, com todo o respeito e muita calma, respondeu:
- Saberá Vossa Majestade que o vosso sublime irmão, suaAlteza Imperial
Jan-Ghothe, levou tudo.
Abu-AI-Dhudut quase desmaiou; e, chorando, disse para oeunuco:
- Brederodes, como sou desgraçado! Não ficou nada para mim!
ELKAZENADJI
O reinado de Abu-Al-Dhudut foi curto, mas cheio de episódiosinteressantes que o
cronista argelino cide Mohâmmed Ben-Aláconta do modo mais ingênuo ao mesmo
tempo florido, capaz de fazero delicioso encanto dos mais habituados à
literatura árabe.
A tradução que vamos dando, além da resumida, fana muito oviço da luxuriante
floração do original; mas, se tempo houver e editor,havemos de dar uma
completa, respeitando o mais possível aspalavras do autor argelino, assim como
o seu rendilhado pensamento.Contemos.
Escolheu Abu-Al-Dhudut, nos últimos dias de seu reinado, paraser o seu
kazenadji (ministro dos negócios internos do reino), umlevantino de nome cide
Ércu Ben-Lânod muito estimado pelas suasletras e sabido nelas como o mais douto
ulemá.
Cide Ércu Ben-Lânod tinha vivido muito tempo em Marselha,como cônsul de
Abu-Al-Dhudut; e, fosse pela sua origem infiel, fossepelo tempo que levou
naquela cidade de França, o certo é que contraiutodos os vícios dos cristãos,
especialmente dos francos. Feito kazenadji,ganhando muitos presentes e dispondo
do tesouro do sultão, era deesperar que cide Ercu Ben-Lânod aumentasse as
mulheres do seuharém e vivesse sabiamente entre elas, como mandam o Profeta e
oslivros sagrados. Não tinha em grande conta os preceitos do Corão e,apesar dos
conselhos de um dos seus sogros, cide Glei Ben-Sério,continuou nos seus
sacrílegos hábitos de passar as noites fora de suacasa, em visitas amaldiçoadas
a certos lugares da feitoria francesaque ficava perto da capital de Al-Patak.
Não contente com ir ele a tãodaninhos lugares, seduziu muitos bons muçulmanos a
fazer o mesmo.Um destes era o kaïa, Pessh Ben-Hoa, que vem a ser entre nós
ochefe da polícia militar. Não deixava este funcionário de, todas asnoites,
acompanhar cide Ércu Ben-Lânod nas suas profanações àsregras e preceitos do
Profeta.
Ambos, chegados que eram à feitoria, logo se encaminhavampara uma grande casa
de uma velha francesa, de nome Susah-Hana,a que chamavam - Cidade das Flores; e
entregavam-se a todos ospecados que a religião proíbe.
Deixavam-se arrastar pelo vício de beber licores espirituosos,coisa que mais
depressa faz com que entreguemos as nossas almasaos espíritos malfazejos; e
cercavam-se de mulheres infiéis, mediantealguns cequins de ouro, com as quais
tinham propósitos maispróprios de se os ter com as verdadeiras esposas.
A religião do Profeta dá a tal respeito tão grande liberdade quenão se podia
acreditar que aqueles fiéis tivessem prazer em fazersemelhante cousa, fora da
comunhão dos crentes.
Mas cide Ercu Ben-Lânod tinha tomado tal gosto por aquelevinho dos francos que
borbulha e ferve como os gases danados dasentranhas da terra, que não havia
meio de deixar de ir uma noite àcasa da velha Susah-Hana.
O kaïa (o chefe da polícia militar) também se havia habituado enão deixava de
acompanhar o kazenadji.
Certa noite, em que eles tinham bebido bem doze odres do talvinho, estando,
como de costume, na Cidade das Flores, cide ErcuBen-Lânod deu em altercar com o
seu companheiro:
- Tua tropa não presta pra nada! Os franceses sim é que têmtropa.
O kaïa, que era um chefe orgulhoso e patriota, ficou indignadocom o
despropósito do ministro e respondeu:
- Se tu queres ver, cide Ercu Ben-Lânod, vou agora mesmoformá-la e cercar o
palácio de Abu-AI-Dhudut.
- Quero ver, disse o outro.
O kaïa, meio trôpego e balançando-se que nem uma fragatafranca no porto de
Argel, levantou-se, veio até à porta, chamou umspahi (soldado de cavalaria) e
deu as suas ordens.
Os dois ficaram dormindo e a força do kaïa cercou o casbá(palácio do sultão),
como lhe tinha sido ordenado.
Foi um espanto geral e as tropas do agha (ministro da Guerra)acudiram; houve
combate, morrendo de parte a parte cerca de doismil homens.
Cide Ércu Ben-Lânod e o kaïa Sirdar Pessh Ben-Hoa despertaram na tarde seguinte
e nunca a cidade pôde saber por que motivoas tropas do último tinham cercado o
casbá e guarnecido as estradasque iam ter a ele.
O JURAMENTO
Logo que Abu-Al-Dhudut se apossou do trono de AI-Patak,todos os seus
companheiros e amigos quiseram também fazer omesmo nos remos vassalos, embora
muitos dos soberanos destestivessem ajudado Abu na sua usurpação.
O primeiro agha (ministro da Guerra) ansiava por ocupar ogoverno do canato de
Al-Súgar, região rica e vasta, que até ali eragovernada pelo cã Ross
Al-Xeiroso. Este príncipe não se incomodavamuito com a administração dos seus
domínios e vivia em passeios efestas, fora da sua capital.
Poderoso e rico, tinha ajudado muito Abu-Al-Dhudut a subir notrono de Al-Patak,
de forma que todos supunham que as pretensõesdo agha não seriam favorecidas
pelo novo sultão.
O agha, porém, não se incomodou com os serviços que RossAl-Xeiroso tinha
prestado a seu amo e senhor e tratou de encher ocanato de Al-Súgar de spabis,
bombardeiros e outras tropas irregulares,sob o pretexto de que as tribos do
deserto ameaçavam a capital docanato e Ross AI-Xeiroso nada fazia, deixando-se
ficar entregue aosprazeres e folguedos.
Este príncipe, vendo que o agha continuava nos seus propósitosde usurpação,
pediu uma audiência a Abu-Al-Dhudut, no que foi imediatamente atendido.
Recebeu-o Abu no divã do casbah (palácio imperial) e feztodas as promessas ao
príncipe vassalo:
- Ross AI-Xeiroso, juro pelos santos livros, pelo Corão, que prefiro pôr termo
aos meus dias do que te ver fora do governo de Al-Súgar.
Ross Al-Xeiroso saiu seguro de que continuaria no governo eque seu filho
herdaria a sua coroa de príncipe, mantendo a suadescendência nela.
Em breves dias, porém, soube que agha tinha mandado maistropas para os seus
domínios.
Correu de novo a Abu-Al-Dhudut, que lhe reiterou as promessasfeitas.
Ross AI-Xeiroso voltou a divertir-se alguns dias, quando tevenotícias que o
agha, à frente das tropas que para lá tinha enviado,tomara conta do governo de
Al-Súgar e, como cã, fora reconhecidopor todos, inclusive por Abu-Al-Dhudut.
Esperou ainda alguns dias a ver se o sultão se matava; ele,porém, continuou a
viver a melhor das saúdes.
Ross Al-Xeiroso, contudo, espera até hoje que Abu-Al-Dhudutcumpra a sua palavra
santa de sultão e chefe dos crentes.
A FIRMEZA DE AL-BANDEIRAH
Abu-Al-Dhudut não usurpou o trono de AI-Patak sem que houvesse grande oposição
por parte dos espíritos eminentes e mesmo de províncias inteiras do país.
A todas estas, ele subjugou e dominou, excetuando o canato deAI-Bandeirah cuja
riqueza e prosperidade eram muito admiradas nopais.
Esse canato era governado por quatro ou cinco famílias que, sobo pretexto de
terem feito a independência de Al-Patak e o proclamadosultanato, se sucediam no
governo da província e a exploravam emseu proveito, tanto nos altos cargos,
como no monopólio de bancos,indústrias e a exportação de tâmaras.
Sob o disfarce de auxiliar a lavoura desse fruto, os membrosdessas quatro ou
cinco famílias conseguiam dos soberanos privilégiose auxílios pecuniários que
engrandeciam as suas indústrias, tornavamsem concorrentes os seus produtos e
favoreciam grandes lucros nassuas explorações agrícolas.
Temendo que Abu-Al-Dhudut não continuasse, como os seusantecessores, a lhes dar
tudo o que pediam, armaram uma grandeoposição ao seu governo, agitaram os
espíritos e fizeram com quemuita gente perdesse haveres, cargos e até a vida.
Abu-Al-Dhudut, quando se viu seguro no trono, tratou deinvadir a província e
castigá-la conforme entendesse.
Organizou tropas e dispôs as cousas de forma a vencer os recaícítrantes de
Al-Bandeírah.
O povo dessa província pôs-se como uma só pessoa ao lado dosoligarcas que o
governavam com muita habilidade e tal era esta queninguém podia supor que o que
eles defendiam eram os seus interesses particulares de donos de bancos, de
chefes de casas comerciais,de proprietários de minas e fábricas, de ricos
cultivadores de tâmaras.
O entusiasmo e o ardor da população pela causa de sua autonomiaeram tais que
tudo fazia esperar que a guerra civil rebentasse. Mas,como os membros das
famílias que governavam AI-Bandeirah eramantes de tudo homens de negócios, de
especulação comercial e nãotinham interesse em guerrear, mas sim amedrontar
Abu-Al-Dhudut demodo a que este não perturbasse as suas existências
regaladas,trataram de arranjar as cousas de modo mais cômodo, tanto mais queo
sultão continuava no seu propósito de intervenção.
Pondo de parte tudo o que tinham afirmado com tanta altivez,procuraram um
príncipe da família de Abu e arranjaram, por algunsmilhares de piastras e
outros dons, que não houvesse a invasãoprojetada.
Dessa maneira eles continuaram a fruir e a aumentar as suasriquezas, embora
tivessem arrastado, com a agitação que fizeram, comos juramentos que juraram,
muita gente á miséria, á enxovia e á morte.
O DESCONTO
Como foi contado aos leitores, o canato de Al-Bandeirah, depoisde arrotar muita
farofa, que fazia e acontecia, acabou por comprar anão-invasão das tropas de
Abu-Al-Dhudut por bom dinheiro.
Essa província de Al-Bandeirah, como se sabe já, é governada porvários magnatas
e algumas famílias, entre aqueles conta-se o cide CinsinBen-Nhato, que é, a bem
dizer, o general da oligarquia do canato.
Ele, quando os tais cultivadores de tâmaras gastam á vontade eficam
encalacrados, corre ao sultão e diz cheio de choro e lábia:
- Majestade; os cultivadores de tâmaras estão morrendo defome; o produto da
venda não paga as despesas que dá o seu cultivo;os grandes empregam toda a sua
fortuna para que ele baixe.Ai ele faz uma pausa e continua alteando a voz:
- E preciso que Vossa Majestade cá ao encontro das necessidades dessa pobre
gente que tanto concorre para a grandeza do reino que é de Vossa Majestade.
- Mas como, cide?
- Como? Dando-lhes dinheiro, Majestade.
- Não tenho. O meu tesouro está esgotado.
- Majestade: o poder de Vossa Majestade é grande e há um meio.
- Qual?
- Vossa Majestade decrete um imposto sobre os mendigos doreino que haverá
dinheiro para socorrer os miseráveis cultivadores de tâmaras.
Os sultões todos lhe fazem a vontade e os de Al-Bandeirah seblasonam de ricos e
trabalhadores.
Há outros casos que hei de contar-lhes, mas agora quero lembrarum muito típico.
Os tais de Al-Bandeirah tinham, como já foi narrado, compradoum príncipe irmão
de Abu-Al-Dhudut para que este não invadissecom as suas tropas o canato.
O príncipe, que era seguro, foi em pessoa buscar o preço donegócio.
Trotou várias e muitas léguas em camelo e chegou à capital daprovíncia
ex-semi-rebelde.
Falou ao clã e este mandou ordem ao seu tesoureiro, para quelhe pagassem trezentos
e cinqüenta mil piastras.
O irmão de Abu foi logo á presença do funcionário que lhe disse:
- Príncipe: Vossa Alteza poderá ir para o palácio de VossaAlteza que o dinheiro
irá lá ter.
De fato assim foi e um empregado do tesouro lá chegou com ossacos de ouro.
Esperou este que o príncipe contasse o dinheiro. Acabou eexclamou furioso:
- Mas faltam trinta e cinco mil piastras.
- Príncipe: é a minha porcentagem. Dez por cento.
O irmão de Abu calou-se.
A SOLIDARIEDADE DE AL-BANDEIRAH
Dos principados vassalos que constituíam o reino de Al- Pataknão foi só
Al-Bandeirah que não quis reconhecer Abu-Al-Dhudut como sultão.
O canato de Hbaya também, por intermédio do seu príncipereinante, sempre
protestou contra a usurpação. Ao contrário doprimeiro, esse principado era
trabalhado por grandes dissensõesinternas. Havia mais de cinco ou seis
pretendentes ao seu trono e nãoexistia entre os seus habitantes nenhuma
harmonia de vistas.
A população com o seu gênio vivaz, com a sua queda para a eloqüência, com a sua
ligeireza de espírito, muito concorria para essasdivisões e ela é de gênio
muito oposto à de Al-Bandeirah, cuja genteé tardia, taciturna e cheia de um
ingênuo orgulho de que são osprimeiros de Al-Patak. Explorado habilmente, pelos
governantes, esseúltimo sentimento da população daquela província, foi-lhes
semprefácil obter dela uma quase unanimidade. Faziam uma ponte, umatorre, um
bueiro e logo mandavam proclamar que era o primeiro deAl-Patak. O povo do
canato é ingênuo, como um alemão, acreditavana cousa, ficava muito contente e
escolhia para as altas funções osmembros de três ou quatro famílias que o
exploravam.
Dessa forma, toda a resistência à usurpação de Abu-Al-Dhudutestava centralizada
em Al-Bandeirah.
Acontece, porém, que, ao contrário do que era de esperar,Hbaya demonstrou mais
firmeza e o seu governo chegou a resistir àstropas que o invadiram, com armas
na mão.
A cousa foi dolorosa e triste, pois a capital de Hbaya foi bombardeada, as suas
casas incendiadas, o príncipe reinante andou daquipara ali, fugindo à sanha dos
soldados de Abu-Al-Dhudut.
Infelizmente, devido às facções que dividiam a gloriosa província,a resistência
não pôde ser eficaz e foi quase nula em resultados.
Esse episódio comovedor do bombardeamento da capital deHbaya se deu justamente
no dia em que o príncipe irmão de Abu-Al-Dhudut recebia no tesouro de
Al-Bandeirah trezentos e cinqüentamil piastras, que, como já é sabido, ficavam
reduzidas a trezentos equinze mil.
O RECONHECIMENTO
A organização política do Al-Patak não é assim tão absolutacomo se pode supor.
Em tese o sultão tem todos os poderes, mas, devido à tradição,à liberalidade de
alguns soberanos, o reino possui tribunais e juízesindependentes que decidem
soberanamente sobre os assuntos quelhes são afetos.
Além disto, Al-Patak possui uma espécie de parlamento - o"divã" - que
representa ao rei sobre as necessidades dos povos.
Cada província, conforme a população, dá um certo número derepresentantes que o
são durante alguns anos, uns durante mais anose outros menos.
Logo que Abu-Al-Dhudut usurpou o trono, tratou de reformaressa espécie de
conselho de Estado.
Não há quem não queira fazer parte dele, não só pelos vencimentos que percebem
os seus membros, como também pelos presentes que recebem, graças à influência
que possuem, podendo obter dos soberanos tudo o que desejam.
O príncipe irmão de Abu-Al-Dhudut foi logo eleito membro do"divã" e
feito chefe dele.
Sendo homem esperto e sagaz, conhecendo perfeitamente osdesejos de todos os
habitantes de Al-Patak de serem do famoso conselho, tratou de regular a entrada
nele, ao jeito mais propicio aos seusinteresses.
Com este, negociava isto; com aquele, barganhava aquilo.
Ia fazendo o seu negócio, quando se tratou do reconhecimentode cide Pen
Ben-Forte. Tinha sido, esse ulemá, juiz durante muitotempo, de forma que
conhecia o irmão do sultão, quando advogava.
O seu direito à entrada no "divã" era inconcusso, mas o
príncipequeria que ele lhe desse dez mil piastras para tornar efetivo o seu
direito.
Pen Ben-Forte não esteve pelos autos e lembrou a sua Alteza ofato de ter ele
obtido, revelando uma sentença dele, cide, dinheiro aomercador - sentença mais
tarde reformada.
Pen Ben-Forte tinha disso documentos e prometeu publicá-los,se não entrasse no
"divã".
Não é preciso contar mais; basta dizer que o antigo juiz entroue foi
reconhecido membro do conselho.
O ANEL DE PERDICAS
O reino não era completamente independente, mas era quasecomo se assim fosse.
Dependia do império em tudo que tocasse asrelações com os países estrangeiros e
não podia ter exército próprio.
O seu rei não era escolhido por força da primogenitura. Algunssujeitos
avançados tinham mostrado a desvantagem de o filho sucederao pai no trono, e
resolveram que o herdeiro fosse indicado por umaassembléia de notáveis a que
chamaram - a dieta.
Governava nesse tempo o reino - El-Sulida, príncipe velho, depouca barba, curto
de pernas, rico de muitas fazendas, que desejavado fundo d'alma povoadas de
escravos.
Sulida tinha encaminhado bem os filhos nos cargos do reino edo império e vivia,
a contento de todos, distribuindo governo mais oumenos com sabedoria.
Além do desgosto que lhe ia n'alma por não ter mais escravosnegros nas suas
propriedades agrícolas, um dos seus pesares íntimosera não passar ao filho o
trono que ocupava.
Ninguém suspeitava dessa sua mágoa secreta, por isso todosdiziam que Sulida era
um príncipe perfeito, respeitador das leis edesejoso da igualdade de seus
povos, porque se bem que aquilo láfosse reino, era legal que ninguém tivesse
privilégios.
Uma bela manhã, fosse devido à idade avançada do soberano,fosse devido a outro
qualquer motivo, el-rei Sulida amanheceu muitodoente e os médicos que foram
chamados declararam que o príncipepoucos dias tinha de vida.
Os seus ministros trataram de reunir logo a dieta, para que elaescolhesse o
sucessor.
Reunida a tal dieta, não chegaram os seus membros a acordoalgum. Todos eram
candidatos, de modo que ninguém podia escolhero sucessor de Sulida, a não ser
que o sucessor fosse o próprio eleitor,isto é: o desejo de cada um era votar em
si mesmo.
Resolveram então apelar para a assembléia das cidades e vilas,isto é, para uma
convenção maior, composta de representantes detodos os municípios do reino.
Reuniu-se essa convenção, mas não chegaram a acordo algum,após temíveis
bate-bocas. Afinal, no fito de conciliar as várias correntesda política do
reino, concordaram em deixar a escolha ao alvitre dosoberano moribundo. Foram a
ele e falaram-lhe. Ele respondeu:
- Quem deve ser o rei é Sancho.
Foi geral o espanto. Poucos conheciam esse Sancho e ninguématinava com o motivo
da escolha. Afinal vieram a saber que o obscuroSancho estava noivo ou cousa
parecida da filha de Sulida.
Está aí como um bom pai de família procede: não podendodeixar o trono ao filho,
deixou-o ao futuro marido da filha.
Houve muito barulho no reino, apesar de não dizerem os cro-nistas se Sancho
casou-se mesmo com a princesa filha de Sulida.
OS KALOGHERAS
O sucesso do polemarco Kalogheras na retumbante mobilização das tropas
nacionais para a gloriosa expedição da Bahia causoupasmo a todos, inclusive o
basileus Epitaphio.
Entretanto a nós um tal acontecimento não nos trouxe nenhumasurpresa, porquanto
conhecíamos de há muito as virtudes guerreirasdos Kalogheras, desde o mais
remoto ancestral do atual ministro quefoi o fulminante Alexandre da Macedônia,
cuja fama enche omundo e aborrece os meninos estudantes de história na
indagação desaber se ele foi ou não foi o maior general de todos os tempos.
Os Kalogheras são originários da Macedônia e os outros gregos,inclusive
Plutarco, falam neles aqui e ali, louvando-lhes as virtudesguerreiras.
Há alguns, porém, da Beócia.
Cremos mesmo que já o velho Homero, na Ilíada, tem umverso em que se alude a
altos feitos dessa família predestinada; ocerto, porém, é que, nas épocas
últimas, eles sempre se mostraramguerreiros de primeira ordem. Quando os turcos
conquistaram etomaram o Império Bizantino e suas restantes províncias, os
Kalogheras,não tendo a quem oferecer as suas aptidões bélicas, puseram-se
aserviço dos osmanlis, pelo que os sultões respectivos deram-lhesgrandes honras
e muitos cequins de ouro.
Corre que, entre as proezas dos Kalogheras, há a de ter ajudadoa bombardear o
Partenon de Atenas, feito glorioso que toda genteatribui a autoria tão-somente
aos turcos, mas que, na verdade, nelatomaram parte muitos gregos.
Com a emancipação grega, os Kalogheras, não podendo suportar aadmiração de um
rei estrangeiro, imposto pela Inglaterra e pela França,emigraram, uns, e outros
entregaram-se à guerra nacional de perturbar ocomércio marítimo dos mares do
Levante, sobretudo no do arquipélago.
As duas únicas grandes potências marítimas daquelas épocas, aFrança e a
Inglaterra, fizeram uma guerra feroz e inumana a essespatriotas gregos e a
maioria dos Kalogheras foi morta, sem julgamentonem outra qualquer formalidade,
nos navios de guerra ingleses efranceses, quando neles caíam como prisioneiros.
Uma raça guerreira dessas, em cujo sangue há certamente muitasgotas do sangue
do turco combativo, não podia deixar de revelar nonosso atual ministro da
Guerra, que dela descende, uma capacidadeextraordinária e uma forte alegria que
mal se faz inteirar, na tática e,feroz, na estratégia de uma guerra civil.
Quem sai aos seus, não degenera.
CONSERVOU O FEZ
Não se pode deixar de admirar suficientemente o modo porque o eminente sirdar
Ben-Zuff Kalogheras vai conseguindo demodo eficaz e rápido a eficiência do
nosso Exército.
Em começo, ele estudou a disposição das forças nacionais,segundo cartas
mineralógicas e geológicas.
S. Excia. o sirdar, em chefe, é, como se sabe, muito bomengenheiro de minas.
Em seguida, continuou nas suas inovações militares e tratou daindumentária, não
só dos soldados e oficiais, como da dele.
Da primeira parte, sempre os sirdar-ministros tiveram o cuidadode tratar como
dos primeiros atos dos seus ministérios, por isso quejulgaram sempre que,
mudando o hábito, faziam o monge; da segunda,entretanto, eles nunca julgaram
cousa imprescindível, mesmo quandoeram oficiais.
Ben-Zuff Kalogheras, porém, achou necessário experimentarmodelos em sua própria
pessoa.
Primeiramente, pôs à prova um uniforme de viajante inglês quese vê na gravura
em visita às pirâmides: um chapéu de cortiça e umfichu azul. Feito isto, montou
num camelo. Parece cousa imprópria;mas, a muitos, pareceu o contrário.
Não contente com isto e, também, porque lhe disseram que o talfichu era para
evitar as oftalmias, produzidas pelo revérbero da luz dosol nas areias do
deserto, tratou de arranjar um outro mais adequadoao Rio de Janeiro.
Encomendou a um adelo um vestuário de cowboy ou, antes, devaqueiro mexicano,
pelo qual mandou fazer um novo de excelentebrim cáqui.
Completo o indumento, pôs vestuário, perneiras, um par degrandes esporas de
rosetas, um chapéu cômico cheio de guizos; e foiembarcar as tropas que partiam
para uma expedição. Até aí não paroua fúria do seu amor à novidade de
uniformização ministerial.
Reparando que o traje de rigor, para conferenciar com o quediva-presidente, não
era bastante distinto ou original, apareceu-lhe emconferência de calças
brancas, sem colete, camisa à mostra e paletóde alpaca.
O quediva formalizou-se e mastigou censuras.
Por fim, disse o soberano:
- Sirdar!
- Alteza!
- E nesse traje que os seus amanuenses se apresentam peranteVossa Excelência,
em serviço?
- Não, Alteza. Por quê?
- Por quê? Porque julguei lhe tivessem ensinado essa moda devestuário, para
falar aos superiores.
Ele, o sirdar, encafuou, voltou a usar sobrecasaca com fez vermelho, que ele
deixava na ante-sala, quando ia ao despacho. Assim,sem merecer censuras,
conservava a sua originalidade.., militar.
ARTE DE GOVERNAR
Quando o príncipe Epi subiu ao trono de rajá de Bengabul,toda a gente exultou,
porque um cidadão da América, chamadoVilsão, tinha em grande conta os seus
méritos de cantor de modinhas.Ele ia fazer grandes cousas, inclusive a
felicidade do povo.
Vivia este na mais atroz desgraça. Não tinha casas em quemorasse e os gêneros
de primeira necessidade andavam pela hora damorte. Segundo propalava, ele iria
dar remédio a isso tudo e a fartura havia de reinar nos lares pobres.
Epi era pequenino e vaidoso, mais pequeninos e vaidosos doque ele, porém, os
que o cercavam. Gostavam de festas e macumbae, logo que o viram no trono,
trataram de arrumar muita festança.
Depois de sua ascensão, não havia dia em que, por este ouaquele motivo, não
houvesse um bródio suculento.
E os seus auxiliares diziam:
- Isto é que é governo! Epi sabe governar!
Não contente com festas caseiras, tratou de arranjar outras compríncipes
estrangeiros.
Chamou para visitar o país o príncipe das ilhas Alentianas, que imediatamente
veio visitá-lo.
O príncipe era um patagão reforçado e sabia remar em canoacomo ninguém. Epi fez
uma despesa louca para recebê-lo e em pessoa cuidou de todos os aprestos.
Durante a sua estadia no país que foi de um mês, por delicadeza, todos se
calaram; mas, mesmo assim, o rajá meteu na cadeiacinco mil pobres-diabos.
Isto tudo ele fazia para o rei ver.
Os trinta dias em que o soberano esteve no pais foram de grossapagodeira.
Passeios, cantorias, etc. encheram o vazio da significação davisita e o povo
até parecia contente.
Com esta simulação de felicidade, Epi ganhou foros de bemsaber a arte de
governar.
BOA MEDIDA
O faustoso sultão de Kambalu, Abbas I, que tinha por avós, emlinha direta, Manuel
José Fernandes, de Trás-os-Montes, reino dePortugal, e Japira, índia de nação
potiguara, a qual nação habitouantigamente o império do Brasil e desapareceu, à
vista da penúria doseu povo e da fome e da peste que o dizimavam, resolveu
certo diareunir em conclave as pessoas mais gradas do reino, fossem elas de
quecredo fossem, professassem as teorias que professassem, a fim de
seaconselhar e resolver a situação. Vieram um bispo, um mago oriental,um sábio
doutor em medicina, uma cartomante, um jurista, umengenheiro e um brâmane.
Abbas I assim falou, abrindo a sessão:
- Meus senhores: todos sabeis o motivo da nossa reunião. É ador e a piedade
pelo meu querido povo que me movem a pedir-vosconselho para lhe dar lenitivo.
Falai com franqueza que vos ouvireicom prazer. Falai!
O bispo levantou-se, fez o sinal-da-cruz, orou durante algunsminutos, contando
as contas do rosário e começou:
- "Ad victum quae flagitat usus - Omnia jam mortalibus esseparata".
Precisamos de igrejas, conventos, recolhimentos - Majestade!
O MAGO - Não concordo. A luz é tudo, de luz é feito o mundoe Deus. Precisamos
mais luz elétrica.
O DOUTOR - Isto tudo é delírio; é pura paranóia, temperada compsicastenia,
frenastenia. Na etiologia da peste há duas fases: primeira, ado aparecimento, dúbio,
auroral, das auroras claras de maio, que éimperceptível; depois: manifestação
ostensiva, horrível, de um belo horrível que só os médicos conhecem. Keats diz:
"Our songs are...
O ENGENHEIRO - Que diabo é isto? Uma encampação émais útil...
A CARTOMANTE - Vou deitar as cartas...
O JURISTA - Cuidado com a polícia! O Código Penal, no seulivro V, art. 1824,
parágrafo...
O BRÂMANE - Tudo o que vem de mim, o boi, a vaca...
ABBAS I - Ora bolas! Vocês não me aconselham cousa alguma... São uns tagarelas
aborrecidos. Vou decidir por mim; vou construir um palácio magnífico. Vão-se
embora, e já!
Abbas I cumpriu a sua palavra. Cobriu o reino de impostos;mandou vir jaspe e
ouro e mármore e pórfiro; contratou noestrangeiro hábeis arquitetos e operários
e construiu o palácio,para enriquecimento de seu povo e extinção das moléstias
que odizimavam.
Acabada a construção, meteu-se nele. Daí a dias, porém, nemmais um criado tinha
para servi-lo. Toda a gente do país havia morrido de fome e de moléstia; e ele
veio também a morrer de fomeporque não havia mais quem plantasse, quem
colhesse, quem criasse,etc., etc.
HÓSPEDE ILUSTRE
Todos os dias, anunciam as folhas a chegada de um hóspedeilustre,
estampando-lhe algumas vezes o retrato. O Rio de Janeiro, senão está ficando o
Instituto de França ou a Royal Society de Londres,pode bem ficar sendo o Museu
do Trocadero.
Não me canso de ler tais notícias e causa-me assombro quesemelhantes sumidades
não figurem no Larousse e em outras publicações congêneres.
Não vem isto, porém, ao caso. O que estas linhas tencionam éprotestar contra a
omissão que eles fizeram, do nome do ilustre marroquino Mulay Mâlek Ben-Bélek.
Ele vem superintender a construção do pavilhão de Marrocosque será erguido no
estilo original daquele próspero império.
Os materiais empregados, como se sabe, são caniços e umaargamassa feita de
bosta de camelo e lã de carneiro. Como aqui nãohavia camelos, portanto, o
primeiro elemento da aludida argamassa,o imperador de Marrocos fretou um barco
suíço e atestou-o daqueleprimordial elemento dos pártenons dos seus domínios.
Vai ser umalindeza, debaixo da féerie iluminativa que o senhor Carlos
Sampaiocontratou com os seus amigos americanos e vai nos custar os olhos
dacara. Diz-se o mesmo que as experiências realizadas, no morro daFavela,
mostraram de que forma mágica iluminações yankees transformam, em palácios de
"Mil e uma Noites", cubatas africanas.
O emir Mulay Málek Ben-Bélek é especialista em agricultura. Elejá ensinou ao
senhor Carlos a fazer brotar do caroço da uva, pés dealgodão do mais estimável
fio.
Além disto, conhece os outros gregos da mais alta antiguidadedo que ele lê, não
só em grego, como em árabe, tais como Arístóteles,Ptolomeu, Estrabão, etc. até
dos propriamente árabes, persas e hindus.
Uma tal sabedoria está a indicá-lo para professor de "relatividade",
na Escola Politécnica, ao lado das "Máquinas" do senhor Frontin.
O emir Mulay tem oitenta e três mulheres e cento e cinqüentaconcubinas. Não as
trouxe por dois motivos: a) por não haver grandenecessidade; b) porque supôs
que, aqui, não houvesse carros "especiais" em que as suas mulheres e
concubinas pudessem passear pelacidade, islamicamente enclausuradas como manda
o Corão.Desconhecia que, entre nós, há os carros-fortes da polícia...
Este homem eminente, entretanto, segundo dizem, está dispostoa fazer-se
bufarinheiro, no Rio.